Dicionário de Termos Poéticos
Definições, exemplos e etimologias de termos literários
Parnasianismo
Movimento LiterárioMovimento poético que valoriza a forma e a objetividade.
Obra de Olavo Bilac.
Paródia
TécnicaImitação cómica de uma obra, autor ou género que exagera os seus traços estilísticos para humor ou crítica.
Bocage parodia o petrarquismo convencional; o neo-realismo parodia o saudosismo como evasão reaccionária.
Paronomásia
Figura de LinguagemUso de palavras semelhantes na forma, mas diferentes no significado.
Conhecer o censo do senso comum.
Pastoral
Género PoéticoModo literário que celebra a vida rural idealizada, com pastores e natureza harmoniosa, em contraste com a corrupção urbana.
Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro cultivaram a pastoral; as éclogas de Camões inserem-se nesta tradição.
Pathos
TécnicaQualidade de um texto que suscita emoção, compaixão ou dó no leitor — o poder emotivo da linguagem poética.
A elegia de Camões «Sete anos de pastor» tem um pathos intenso que move o leitor para a compaixão amorosa.
Perífrase
Figura RetóricaSubstituição de um termo simples por uma expressão complexa que o designa de modo indirecto ou amplificado.
Camões chama ao mar «líquido elemento» e ao sol «o luminoso planeta» — perífrases épicas ornamentais.
Personificação
Figura RetóricaAtribuição de qualidades, acções ou sentimentos humanos a seres inanimados, animais ou conceitos abstractos.
Camões: «Ó mar salgado» — o mar é interpelado como entidade capaz de ouvir e sentir.
Petrarquismo
Movimento LiterárioCorrente lírica que imita os temas e recursos do poeta italiano Petrarca: amor idealizado, soneto, antítese e oxímoro.
Camões, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro introduzem o petrarquismo em Portugal no século XVI.
Poema Visual
Técnica PoéticaPoema em que a disposição gráfica é fundamental.
Caligrama de Apollinaire.
Poesia Concreta
Forma PoéticaPoesia em que a disposição visual do texto na página faz parte essencial do significado.
Grupo Noigandres (Brasil, 1952): Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari — fundadores do Concretismo lusófono.
Poesia Experimental
Movimento LiterárioMovimento poético português dos anos 60-70 que radicalizou a exploração visual, sonora e semântica da palavra.
E.M. de Melo e Castro, Salette Tavares, Ana Hatherly — a Po.Ex portuguesa como vanguarda europeia.
Poesia Social
Movimento LiterárioCorrente do século XX que usa a poesia como instrumento de denúncia das injustiças sociais, políticas e económicas.
Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade (comprometido com a liberdade); Ary dos Santos — a poesia como arma.
Polissíndeto
Figura RetóricaUso abundante e repetido de conjunções entre palavras, frases ou cláusulas, criando uma cadência lenta e acumulativa.
«E reía e chorava e cantava e fugia» — as conjunções acumulam acções com carga emocional crescente.
Presencismo
Movimento LiterárioMovimento literário português agrupado em torno da revista Presença (1927-1940), que valorizou a expressão subjectiva e a arte pela arte.
José Régio, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca — os principais nomes da Presença.
Quadra
EstruturaEstrofe de quatro versos, geralmente octossílabos ou heptassílabos, com rima variável; forma estrófica mais popular do português.
«Ó minha terra querida / onde o sol nasce primeiro / por ti suspira a saudade / do coração brasileiro.»
Realismo
Movimento LiterárioMovimento poético que busca retratar a realidade de forma objetiva.
Obra de Machado de Assis.
Redondilho
Métrica e RitmoVerso de sete (redondilho maior) ou cinco (redondilho menor) sílabas, os metros da poesia popular portuguesa.
«Leva-me à tua janela / e fica-te à minha» — redondilhos maiores da tradição popular.
Refrão
EstruturaVerso ou grupo de versos que se repetem regularmente, geralmente no final de cada estrofe, com função musical e temática.
Nas cantigas medievais o refrão pode ser idêntico em cada estrofe ou variar ligeiramente (leixa-pren).
Renascimento Português
Movimento LiterárioMovimento cultural do século XVI que recupera os ideais da Antiguidade clássica, transformando a poesia portuguesa com a métrica italiana.
Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, Camões, Diogo Bernardes — os grandes líricos do Renascimento português.
Retruécano
Figura RetóricaFigura que repete as palavras de uma frase em ordem inversa, mudando ou invertendo o sentido.
«Quem vive para a arte não morre; quem morre para a arte vive» — os termos invertem-se e a proposição reverte-se.
Rima
Recurso SonoroIgualdade ou semelhança dos sons finais de dois ou mais versos a partir da última vogal tónica.
«amor» / «dor» — rima imperfeita (assonância); «amor» / «calor» — rima consoante; «vida» / «perdida» — rima plena.
Ritmo
Métrica e RitmoOrganização regular do tempo e da energia no verso, através do acento, da quantidade silábica e das pausas.
O ritmo do decassílabo camoniano depende dos acentos nas sílabas 6ª ou 4ª e 8ª, e sempre na 10ª.
Romance
Forma PoéticaPoema narrativo ou lírico de versos octossílabos com rima assonante nos versos pares, sem rima nos ímpares.
O Romanceiro português inclui romances épicos, históricos, novalescos e líricos de tradição oral.
Romantismo
Movimento LiterárioMovimento do século XIX que exalta o eu, a liberdade criadora, a natureza, o medievalismo e a paixão frente ao racionalismo ilustrado.
Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Eça de Queirós (transição) — o Romantismo português tem três gerações.
Sátira
Género PoéticoComposição literária que critica com humor, ironia ou mordacidade os vícios, defeitos ou absurdos de pessoas ou instituições.
As cantigas de escárnio e maldizer; Bocage nas suas sátiras contra o clero e a nobreza; o neo-realismo como crítica social.
Saudade
TécnicaSentimento-conceito específico da cultura lusófona que designa uma nostalgia melancólica por algo ou alguém ausente.
Camões: «Saudades, se isto é saudade, / porque me matais assim?»; Pessoa: a saudade como substância da alma portuguesa.
Saudosismo
Movimento LiterárioMovimento filosófico e poético português do início do século XX que exalta a saudade como essência da alma nacional.
Teixeira de Pascoaes fundou o Saudosismo e a revista A Águia (1910); Fernando Pessoa dialogou criticamente com ele.
Sebastianismo
TécnicaCrença e mito poético-cultural em torno do regresso do rei D. Sebastião como redentor messiânico de Portugal.
A Mensagem de Fernando Pessoa (1934) é a reinterpretação modernista do mito sebástico.
Sensacionismo
TécnicaDoutrina estética criada por Fernando Pessoa que propõe sentir tudo de todos os modos possíveis como programa poético.
Álvaro de Campos é o heterónimo sensacionista por excelência: «Sentir tudo de todas as maneiras.»
Silva
Forma PoéticaCombinação de versos heptassílabos e decassílabos de rima livre, sem estrutura estrófica fixa.
Camões usou a silva em poemas líricos; Antero de Quental na meditação filosófica; é também forma do Barroco brasileiro.
Simbolismo
Movimento LiterárioMovimento literário francês de fins do século XIX que usa o símbolo e a sugestão indirecta para evocar estados da alma.
Mallarmé, Verlaine, Rimbaud em França; em Portugal influenciou Camilo Pessanha (Clepsidra, 1920) e o jovem Pessoa.
Símbolo
TécnicaObjecto, imagem ou palavra que condensa um significado mais amplo do que o literal, representando ideias ou valores abstractos.
O Tejo em Fernando Pessoa: símbolo de Portugal, da saudade e da distância entre o real e o sonhado.
Símile
Figura RetóricaComparação explícita entre duas realidades mediante os nexos «como», «qual», «semelhante a» ou equivalentes.
Camões: «Como a mimosa flor que o vento move / murchou nos braços da donzela triste» — símile extendido.
Sinalefa
Métrica e RitmoFusão numa única sílaba métrica da vogal final de uma palavra e a vogal inicial da seguinte.
«A vi-da é so-nho» — em recitação poética «da» e «é» fundem-se numa sílaba; regra básica da prosódia portuguesa.
Sinédoque
Figura RetóricaTropo em que a parte representa o todo ou o todo a parte; relação de inclusão entre os termos.
«Cem velas cruzavam o mar» (velas por navios); «o pão» pelo alimento em geral; «Portugal» pelos portugueses.
Sinérese
Métrica e RitmoRedução a uma única sílaba métrica de duas vogais que normalmente formariam hiato na pronúncia ordinária.
«po-e-ta» (3 sílabas) pode ler-se «poe-ta» (2 sílabas) quando o verso o requer.
Sinestesia
Figura RetóricaFigura que atribui a um sentido qualidades próprias de outro, misturando domínios sensoriais distintos.
Eugénio de Andrade: «O silêncio verde cheirava a rosas» — o silêncio tem cor e cheiro.
Soneto
Forma PoéticaComposição de catorze versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos, com rima consoante fixa.
Camões, «Amor é fogo que arde sem se ver» — o soneto mais conhecido da língua portuguesa.
Sublime
TécnicaQualidade estética que suscita admiração, terror e uma sensação de vastidão ou poder esmagador no sujeito.
O episódio do Adamastor em Os Lusíadas (Canto V) é o exemplo mais poderoso do sublime na poesia portuguesa.
Surrealismo
Movimento LiterárioMovimento de vanguarda que explora o inconsciente, o sonho e a irracionalidade para libertar a imaginação poética.
António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill — o Surrealismo português (1947) como ruptura radical.
Tanka
Forma PoéticaPoema japonês de trinta e uma sílabas em cinco versos (5-7-5-7-7), adoptado por poetas lusófonos do século XX.
Haroldo de Campos e Augusto de Campos exploraram formas japonesas breves na sua poesia experimental.
Terceto
EstruturaEstrofe de três versos decassílabos, com diversas combinações de rima; a terza rima encadeia os tercetos.
O soneto encerra-se com dois tercetos; a terza rima (ABA BCB CDC) é a forma da Divina Comédia e de Camões.
Terza Rima
Forma PoéticaEncadeamento de tercetos em que a rima do verso central de cada estrofe abre a rima da estrofe seguinte (ABA BCB CDC).
Dante usou-a na Divina Comédia; Camões emprega-a em algumas composições líricas; Bocage retomou-a no século XVIII.
Tom
TécnicaA atitude do poeta face ao tema e ao leitor, expressa através da dicção, do ritmo e da selecção de imagens.
O tom de Camões é épico e grave; o de Pessoa (ortónimo), meditativo e irónico; o de Eugénio de Andrade, luminoso e sensorial.
Tropo
Figura RetóricaQualquer figura retórica que usa as palavras em sentido não literal, alterando o seu significado habitual.
A metáfora, a metonímia, a sinédoque e a ironia são os quatro tropos fundamentais da retórica.
Trova
Forma PoéticaComposição poética popular de quatro versos (geralmente redondilhos maiores), com rima cruzada ou emparelhada.
A trova é cultivada em Portugal e no Brasil em concursos populares; é a forma poética mais viva da tradição oral.