Sedução
Adélia Prado
A poesia me pega com sua roda dentada, me força a escutar imóvel o seu discurso esdrúxulo. Me abraça detrás do muro, levanta a saia pra eu ver, amorosa e doida. Acontece…
Impressionista
Adélia Prado
Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.
Poema Esquisito
Adélia Prado
Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos. Não é hábito. É rarissimamente que ela dói. Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos, não existe mais o modo…
Campo, Chinês E Sono
Carlos Drummond de Andrade
A João Cabral de Melo Neto O chinês deitado no campo. O campo é azul, roxo também. O campo, o mundo e todas as coisas têm ar de um chinês deitado e que dorme. Como saber…
O Relógio
Carlos Drummond de Andrade
Nenhum igual àquele. A hora no bolso do colete é furtiva, a hora na parede da sala é calma, a hora na incidência da luz é silenciosa. Mas a hora no relógio da Matriz é gr…
In Extremis
Olavo Bilac
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia Assim! de um sol assim! Tu, desgrenhada e fria, Fria! postos nos meus os teus olhos molhados, E apertando nos teus os meus dedos…
Nel Mezzo del Camin
Olavo Bilac
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada E triste, e triste e fatigado eu vinha. Tinhas a alma de sonhos povoada, E alma de sonhos povoada eu tinha... E paramos de súbito na es…
Acrobata da Dor
Cruz e Sousa
Gargalha, ri, num riso de tormenta, como um palhaço, que desengonçado, nervoso, ri, num riso absurdo, inflado de uma ironia e de uma dor violenta. Da gargalhada atroz, sa…
Vozes d'África
Castro Alves
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então cor…
Língua Portuguesa
Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela, És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo, que na ganga impura A bruta mina entre os cascalhos vela... Amo-te assim, descon…
A um Poeta
Olavo Bilac
Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino, escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Mas que na forma s…
Rompe o Poeta
Gregório de Matos
Anjo no nome, Angélica na cara, Isso é ser flor, e Anjo juntamente, Ser Angélica flor, e Anjo florente, Em quem, senão em vós se uniformara? Quem veria uma flor, que não…
Lisonjeia Outra Vez Impaciente
Gregório de Matos
Discreta, e formosíssima Maria, Enquanto estamos vendo a qualquer hora Em tuas faces a rosada Aurora, Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia: Enquanto com gentil descortesi…
Namoro a Cavalo
Álvares de Azevedo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça Que rege minha vida malfadada Pôs lá no fim da rua do Catete A minha Dulcinéia namorada. Alugo (três mil réis) por uma tarde Um cavalo…
Lembrança de Morrer
Álvares de Azevedo
No more! o never more! SHELLEY. Quando em meu peito rebentar-se a fibra Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente. E n…
Oficina Irritada
Carlos Drummond de Andrade
Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não des…
Não se mate
Carlos Drummond de Andrade
Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Inútil você resisti…
Elegia 1938
Carlos Drummond de Andrade
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falt…
Samba-canção
Ana Cristina Cesar
Tantos poemas que perdi. Tantos que ouvi, de graça, pelo telefone – taí,, eu fiz tudo pra você gostar, fui mulher vulgar, meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista arranh…
Poema de Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez foss…
Ensinamento
Adélia Prado
Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: ‘coitado…
O Capoeira
Oswald de Andrade
— Qué apanhá sordado? — O quê? — Qué apanhá? Pernas e cabeças na calçada.
Vício na Fala
Oswald de Andrade
Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados
Pronominais
Oswald de Andrade
Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me…
A Queima
Castro Alves
MEU NOBRE perdigueiro! vem comigo. Vamos a sós, meu corajoso amigo, Pelos ermos vagar! Vamos Já dos gerais, que o vento açoita, Dos verdes capinais nagreste moita A perdi…
Adeus, Meus Sonhos!
Álvares de Azevedo
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! Não levo da existência uma saudade! E tanta vida que meu peito enchia Morreu na minha triste mocidade! Misérrimo! Votei meus pobr…
Pálida à Luz
Álvares de Azevedo
Pálida à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia! Era a virgem do mar, na escuma f…
Pica-Flor
Gregório de Matos
A uma freira que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor". Se Pica-Flor me chamais, Pica-Flor aceito ser, Mas resta agora saber, Se no nome que me…
Flores Do Mais
Ana Cristina Cesar
Devagar escreva uma primeira letra escreva nas imediações construídas pelos furacões; devagar meça a primeira pássara bisonha que riscar o pano de boca aberto sobre os ve…
Boa-noite
Castro Alves
Boa noite, Maria! Eu vou-me embora. A lua nas janelas bate em cheio... Boa noite, Maria! É tarde... é tarde... Não me apertes assim contra teu seio. Boa noite!... E tu di…