A noite imóvel

A noite imóvel

2017

«Que lugar? Sobes o lance de escadas próximo. Frio. E ao cimo das escadas deparas-te com o estreito corredor que dá para uma sala onde a luz explode através das portadas abertas de par em par. Essa luz intensa, essa luz deflagrante é já uma promessa de cegueira, o casulo onde a noite se esconde. A noite servir-te-á de pretexto para tudo o que vieres a dizer. Aí ficarás, suspenso de tempo e memória.»

MÁQUINA

Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
A noite imóvel · Luís Quintais · 2017
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