A paixão medida

A paixão medida

1980

A paixão medida surgiu em 1980. Dois anos depois, ao completar 80 anos, Drummond viu-se surpreendido por uma seqüência de homenagens, às quais, quebrando seu habitual retraimento, compareceu, emocionado. A emoção, naturalmente, devia-se a ter se tornado explícito o quanto ele era conhecido e admirado pelo público, e, algo extraordinário dentro de nosso panorama cultural, o quanto e por quanta gente era amado. Nada mais apropriado em relação a esse poeta que soube como ninguém verter sua perplexidade diante do mundo e sua fragilidade tão sensível, em amor à vida, às pessoas e ao cotidiano, que observava avidamente, e daí em poesia. Em A paixão medida, temos Drummond pelas ruas perguntando-se sobre a natureza do que vê: "Como é o lugar/quando ninguém passa por ele?/ Existem as coisas sem ser vistas?"... E as respostas, não pretende dá-las, de fato, porque se coloca como aquele que aborda enigmas, ou os revela, ciente de que sua palavra não os desvenda: "A pretensão de ser homem/ e não-coisa ou caracol/ esfacela-me em frente à folha/ que cai, depois de viver/ intensa, caladamente...". Não existe matéria indigna da poesia. A vida é poética, também em seus detalhes mínimos, a quem se deixa seduzir por ela. Um fascínio que será então contido em versos, sem outra pretensão do que a de oferecer essa paixão medida a seus leitores, já que ..."tudo o mais é sentimento ou fingimento/ levado pelo pé, abridor de aventura,/conforme a cor da vida no papel".

A Morte a Cavalo

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar
a cavalo de galope
sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte de tão depressa
nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.

Nascer de Novo

Nascer: findou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.

Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?

Eis que um segundo nascimento,
não adivinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduz
a ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
A paixão medida · Carlos Drummond de Andrade · 1980
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