Os incuráveis

Os incuráveis

1956

«… Naquela sala cujo papel de parede simulava brocado amarelo, os dois retratos pareciam desligados de todo o ambiente, dos sofazinhos Luís XV, cujos floreios de madeira partidos tinham sido ligados com uma cola negra e que, regurgitando e secando, ficara com um relevo precioso, de ébano. Pela força da sua expressão, contida, fria e como que palpitando para lá da imagem que se surpreendia quase banal, naquela composição de claro-escuro, eles criavam uma zona privilegiada e defesa; e, mesmo numa sala despojada, saqueada e onde a caliça ruísse deixando um rasto fumoso como a vaporizada nuvem das cataratas, aqueles dois retratos, cada um deles […], exprimiam essa coerência magnífica que até nas paisagens de maior desolação e luto pode subsistir. Eram marido e mulher. […] Enfim, muita coisa esqueci; e muito do que está idêntico nesta obra não será confirmado por essa realidade aprovada e intolerante que nós temos até da própria alma humana. Muita coisa, depois de acontecida no instante fulgurante da verdade, não se ajusta mais, nem à experiência, nem à razão. Enfim, este livro, mais do que imperfeito - exacto, porque pessoal -, este livro não acabou.»

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Os incuráveis · Agustina Bessa-Luís · 1956
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