Antes do degelo
A figura do duplo está mais uma vez presente nas personagens José Rui e Genaro. O romance Crime e Castigo, de Dostoievski, actua como a interpretação dos sonhos. Como o sonho, ele desempenha uma função anti-cultural, protegendo o desejo de dormir e assim renunciando a qualquer problema cultural. O tema da perversão (ingenuamente tantas vezes atribuído à escritora) e que constitui como tal um resto de moralismo burguês, está presente no convívio dos dois amigos e em todo o ambiente da sua educação. A libido tem como reserva da sua actividade útil todas as infracções da moral vulgar. Inclusivamente o crime, tal como é cometido pelo estudante Raskolnikov. Como homem de cultura, ele tem de renunciar ao exercício do mal - o que, num rápido acesso da sua natureza arcaica, acaba por criar o conflito. Assassina a velha usurária para que a culpa lhe facilite o excitante necessário para se redimir. Tese dolorosa e empolgante, a do homem a quem o factor da culpa é necessário para provar a sua humanidade. O ser humano não pode viver a cultura senão com o sacrifício do seu destino arcaico. Esta é a experiência dos dois amigos que desenvolvem uma existência de acções da sociedade em que o proibido é, ao mesmo tempo, atraente e temível. Críticas de imprensa "(...) Agustina regressa com mais um magnífico romance (...) Na sua omnívora máquina narrativa encontramos tudo o que nos move ou nos inspira como criaturas humanas, desde as mais ínfimas particulas do quotidiano aos amplos horizontes metafísicos, onde mora também o sentimento de culpa (...)" Fernando Pinto do Amaral, In Mil Folhas (Público), 02 de Janeiro de 2005 " Antes do Degelo na sua tríplice característica de rol de julgados, crónica de costumes e manual de inquisição, abre-se num florilégio de questões que, da paixão à morte, se detém concêntrica e repetitivamente sobre diferentes tipos de relações humanas, para mais alguns capítulos de uma luxúria narrativa sem par entre nós." Carlos Bessa, In Expresso, 06 de Novembro de 2004