Marido e outros contos

Marido e outros contos

1997

Mas há noites em que o marido não chega às sete, nem às oito, nem às nove. E se não chegar às dez, ela sabe que não chegará senão de madrugada. É por isso que a hora crucial da vida da porteira acontece entre as cinco e as sete. É dentro desses minutos decisivos da tarde que se dita o dia e a noite da porteira. A porteira aos cinco para as cinco acende a vela, põe as mãos pedindo que ele chegue antes do jantar. Uma maçada se ele só vier de madrugada. Já ela o ouve tocar, depois de subir, abrir a porta do elevador com dificuldade, sair de lá lentamente com o pé rígido, e depois a chave começa a cair junto da porta, sente levantá-la do chão, deve estar a revolver a chave, até que por fim ele a enfia, a roda, a desprende, a saca, fica dentro de casa e a casa se enche do seu hálito até às bacias e às janelas. Tropeça no sofá da saleta e chama - Lúcia! Ó Lúcia! Críticas "É de um pequeno ponto que parte aquilo que, por vezes, parece ser uma pequena ferida no real e que, quase sempre também, se apresenta sob a forma de um enigma: gestos, traços de uma personagem transformada em pura acção e alimentados por uma energia profunda, que vai traçando a história numa exemplar concentração de efeitos. São gestos miste riosos, manifestações bizarras, como que à procura de um sinal, de um sentido, impulsos de uma intensida de desordenada ou campanhas obstinadas à espera de uma revelação. É esse movimento que determina as personagens e também o comportamento, bastante carregado de nuances, das vozes que narram, quase sempre omniscientemente. Vozes cúmplices, com variadas modalizações e tonalidades irónicas, que não só sublinham e expandem esses gestos cegos como, sobretudo, indicam um projecto de denúncia que subjaz a toda a encenação narrativa: a beleza e o bem, tal como a escuridão e o mal, estão, de alguma forma, ocultos, são a perdição das figuras, mas também o que determina a sua sobrevivência em vários territórios de afirmação, o seu único retrato." José Nobre da Silveira

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Marido e outros contos · Lídia Jorge · 1997
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