Lídia Jorge

Lídia Jorge

n. 1946 PT PT

Lídia Jorge é uma das mais proeminentes e celebradas escritoras portuguesas contemporâneas, com uma obra vasta que abrange poesia, romance e conto. A sua escrita é frequentemente caracterizada pela profundidade psicológica, pela exploração de temas como a memória, a identidade, a condição feminina, a história de Portugal e a complexidade das relações humanas. Com uma linguagem rica e evocativa, Lídia Jorge tem vindo a construir um legado literário significativo, marcado pela sensibilidade, pela inteligência e por um olhar crítico sobre a sociedade. Reconhecida com múltiplos prémios nacionais e internacionais, a sua obra é traduzida para diversas línguas, atestando a sua importância no panorama literário mundial. Lídia Jorge é uma voz incontornável na literatura de expressão portuguesa, cuja obra continua a cativar e a provocar a reflexão nos seus leitores.

n. 1946-06-18, Boliqueime

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Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita



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Biografia

Identificação e contexto básico

Lídia Raura da Silva Jorge, conhecida como Lídia Jorge, é uma romancista, contista e poetisa portuguesa. Nasceu em Boliqueime, Loulé, a 26 de junho de 1946. É uma das mais importantes vozes da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra, atravessada pela memória, pela história e pela condição humana, tem um forte componente lírico e reflexivo.

Infância e formação

Lídia Jorge nasceu numa família de posses modestas no Algarve. A sua infância e adolescência foram marcadas pela descoberta do mundo através dos livros e pela observação atenta da sociedade que a rodeava. Frequentou o liceu em Faro e, posteriormente, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A formação académica, aliada a uma profunda sensibilidade, moldou a sua visão do mundo e a sua futura atividade literária.

Percurso literário

O percurso literário de Lídia Jorge iniciou-se com a publicação do seu primeiro romance, "A Costa dos Murmúrios", em 1977. Desde então, tem vindo a construir uma obra robusta e diversificada, onde a poesia ocupa um lugar de destaque, mas que é também amplamente reconhecida pelos seus romances e contos. Ao longo do seu percurso, demonstrou uma capacidade notável de evoluir tematicamente e estilisticamente, sem nunca perder a sua identidade literária. Colaborou em diversas publicações e tem sido uma figura ativa no debate cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Lídia Jorge é vasta e multifacetada, incluindo poesia, romance, conto e ensaio. Entre as suas obras poéticas mais notáveis estão "O Copo de Chá", "Doze Noites de Maya" e "Oração de Mãe". Nos seus romances, destacam-se "A Costa dos Murmúrios", "Doze Noites de Maya", "O Vento Assobiador", "A Maldição do Padre", "O Homem que Escreveu a sua Própria Sombra", "Os Memoráveis", "A Última Morte de J. M. P. " e "Servos de Deus da Providência". Temas recorrentes na sua obra incluem a memória, a identidade, a condição feminina, a relação com a terra e com a história de Portugal, a incomunicabilidade, o tempo e a efemeridade da existência. O seu estilo é marcado por uma linguagem rica e sensorial, pela musicalidade dos versos e pela densidade imagética. A sua voz poética é, simultaneamente, pessoal e universal, capaz de expressar as mais profundas angústias e alegrias humanas. Lídia Jorge é frequentemente associada ao pós-modernismo, pela sua capacidade de dialogar com a tradição e de inovar em termos formais e temáticos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Lídia Jorge emergiu na cena literária portuguesa após o 25 de Abril de 1974, num período de efervescência cultural e política em Portugal. A sua obra reflete, de forma subtil e profunda, as transformações sociais e históricas do país, nomeadamente no que diz respeito à identidade nacional, ao legado do colonialismo e às mudanças na condição da mulher. A sua geração literária, marcada por um forte sentido de intervenção e reflexão, encontra em Lídia Jorge uma das suas vozes mais consistentes e aclamadas. Manteve um diálogo intenso com outros escritores e intelectuais da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Lídia Jorge foi casada com o médico e escritor Mário Pires, com quem teve uma filha, a cineasta e argumentista Patrícia Vasconcelos. A sua vida pessoal, embora discretamente gerida, tem sido fonte de inspiração para muitos dos seus escritos, especialmente no que concerne às relações familiares, à maternidade e à experiência feminina.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Lídia Jorge tem sido amplamente reconhecida, tanto em Portugal como internacionalmente. Recebeu inúmeros prémios literários de prestígio, incluindo o Prémio Camões em 2020, o mais importante galardão da língua portuguesa. As suas obras são traduzidas para diversas línguas, o que atesta a sua relevância no panorama literário mundial. É considerada uma das figuras cimeiras da literatura portuguesa contemporânea, com um reconhecimento académico e crítico sólido.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Lídia Jorge demonstra influências de autores da tradição literária portuguesa e universal, embora tenha desenvolvido um estilo próprio e inconfundível. O seu legado reside na forma como abordou temas universais com uma sensibilidade singular, na sua capacidade de dar voz a experiências muitas vezes silenciadas e na sua contribuição para a renovação da prosa e da poesia em língua portuguesa. Influenciou gerações de escritores pela sua mestria estilística e pela profundidade das suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lídia Jorge é objeto de vasta análise crítica, que sublinha a sua complexidade temática e estilística. As suas narrativas exploram a fragilidade da condição humana, a força da memória como construtora de identidade e as complexas relações entre indivíduo e história. A crítica tem salientado a sua capacidade de criar personagens multifacetadas e de tecer narrativas que prendem o leitor pela sua inteligência, sensibilidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora seja uma figura pública e amplamente reconhecida, Lídia Jorge mantém uma certa discrição quanto à sua vida privada. No entanto, a sua paixão pela escrita e a sua profunda ligação à terra natal, o Algarve, são aspetos frequentemente destacados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em plena atividade criativa, Lídia Jorge continua a enriquecer a literatura portuguesa. A sua obra, vasta e profunda, assegura a sua imortalidade na memória coletiva e na história literária.

Poemas

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Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita



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Fado do retorno

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E páras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.



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