Migrações do Fogo

Migrações do Fogo

2004

Novo livro de Manuel Gusmão, um dos nomes mais importantes da poesia portuguesa contemporânea (e que a APE veio reconhecer ao galardoar o seu anterior livro, 'Teatros do Tempo' com o Grande Prémio de Poesia. O mesmo livro receberia ainda o Prémio da Fundação Luís Miguel Nava). Críticas de imprensa "(...) um dos melhores e mais impresionantes livros de poesia portuguesa dos últimos anos." Vasco Graça Moura, Mil Folhas (Público), 02 de Janeiro de 2005 "Um extraordinário livro de poesia, denso, empenhado, lírico, violento, desesperado, de uma invenção verbal permanente, e de uma maleabilidade sintáctica impressionante." Eduardo Prado Coelho, In Mil Folhas (Público), 02 de Janeiro de 2005 "Esta é uma poesia do excesso, da vertigem, que tanto constrói densas simbologias ("a rosa") como se entrega à correnteza musical de uma "canção". Não é decisivo "decifrar" toda a complexidade inconsútil deste texto: por um lado, existem, ainda assim, abundantes referências; por outro lado, a linguagem de Gusmão é de tal modo magnífica que é possível vermos os poemas como uma experiência pura, semelhante a uma estética da música ou da pintura abstracta. [...]A "migração" do "fogo" [...] concentra esse sentido colectivo e pessoal de um mundo em desagregação que através de "um realejo de palavras roucas" é capaz de um fôlego magnífico e sumamente fascinante: "(...) Não esqueças / esses corpos músicos; essas derradeiras luzes que a dança desenha / na luz do fim. E quando a sombra canta e se erguem as dunas / em frente do mar e o mar em frente das cidades calcinadas / não as esqueças: são as sombras da música; são elas / que escrevem e movem as vozes, o corpo de água desta terra / última. Desta terra imperdoável e que não pede perdão (...)"" Pedro Mexia, Diário de Notícias

Variações do branco

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.
Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá
Migrações do Fogo · Manuel Gusmão · 2004
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