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Contra todas as evidências : poemas reunidos, 1º. vol.
2013
Tinha um livro de poesia quase pronto quando chegámos ao 25 de Abril de 1974, aos vertiginosos dias de Maio e aos que se lhe seguiram, 1975 dentro. Era a revolução portuguesa, que me tornou o livro quase obsoleto, pobremente trivial, sem uma grande razão que o justificasse. Era a revolução portuguesa... e o livro ficou a um canto, em lume brando, esperando; enquanto eu fui viver para outro lado. Quando recomecei foi como se reaprendesse a falar. Um dos ouvidos escutava o rumor da poesia narrativa. A mão mental jogava os tempos e as suas diferenças. A mão imaginante atiçava no livro um fogo novo, cruzava a improvável língua de Carlos de Oliveira e Luiza Neto Jorge. O livro ficou pronto em 1989 e saiu em 1990." Este primeiro volume de antologia poética da obra de Manuel Gusmão inclui as obras Dois Sóis, a Rosa - a Arquitectura do Mundo e Mapas/o Assombro a Sombra.
As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.
Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite : as figuras quebradas.
A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou
a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde
O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa