Contos do gin-tonic

Contos do gin-tonic

1973

Considerado por muitos como a grande pedrada no charco da literatura portuguesa do seu tempo, continua hoje, 50 anos depois, um marco da irreverência. Publicado em 1973, causando ao mesmo tempo muito prurido e muita gargalhada, os Contos do Gin-Tonic constituíram-se como um dos grandes êxitos literários da década. Nesse ano foi considerado pelo Diário de Notícias como livro do ano. No entanto, desenganaram-se aqueles que pensavam que era uma moda passageira e que o Autor, esse malandro subversivo, iria cair no esquecimento. No ano seguinte, Mário-Henrique publicou os seus Novos Contos do Gin e de lá para cá confirmou a sua posição enquanto Autor raro de culto das letras lusas. Gerações e gerações de leitores recorrem aos seus textos para afirmar a sua adolescência, marcar posição, provocar ou simplesmente para lerem quando estão com gases, como sugeria o próprio. Passados 50 anos da sua publicação original e do ano em que o Autor faria um século, os editores consideraram que, apesar de a sua obra completa estar disponível, era, ainda assim, importante deixar os Contos do Gin-Tonic publicados isoladamente como um convite dirigido aos que ainda não o conhecem ou como porta de entrada para o universo intemporal de Mário-Henrique Leiria.

Gin sem tónica

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin
Contos do gin-tonic · Mário-Henrique Leiria · 1973
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