Se as coisas não fossem o que são
O mais recente livro de poesia de Hélder Moura Pereira: um impressionante e desassombrado discurso poético sobre a nossa época. Se as coisas não fossem o que são… Excertos «Apagaram-se as luzes azuis da ambulância e mais ficou na nossa imagem a cor do sangue. No trajecto vi mais o teu ser do que à mesa, na cama, no trabalho, o que vi deixou-me descansado: humano, demasiado humano. Tudo podia ter sido mais fácil, eis o que pode dizer qualquer um, e mesmo que quase não haja dinheiro para o táxi e te sintas à beira do precipício, levanta a garganta e berra para aí até já não haver quem te oiça. Da missa metade não soube em tua história e também não é preciso, todos nós já corremos para um hospital e viemos de lá a cheirar a doença e a morte. Por nós ou por outros, nessa grande casa da tristeza e do alívio, democracia total o acaso que dispara e acerta ou não acerta em quem vai a passar. Alguém te segura à beira da derrocada e te pergunta saberás se lá no fundo há algo que valha a pena? Pode ser que sim, pode ser que não, ninguém sabe.»