Uma casa à beira da floresta
Estranhar-se-á talvez que o Autor, que ao longo dos seus cinquenta e sete anos de escrita, da poesia sempre se serviu como meio ou modo privilegiado de expressão, ofereça agora ao leitor um texto próximo da chamada literatura infantil. Mas não. Trata-se ainda, a meu ver, de poesia, embora vazada em moldes que são habitualmente os da prosa. Ou duma fábula - duma fábula esopiana, se quiserem - , mas fábulas, se me permitem, são, no genuíno sentido do termo, todos os poemas que escrevi. ALBANO MARTINS Excertos Nada perturbava a tranquilidade do lugar. Ao longe, as cigarras desfiavam o seu canto rouco. Os melros, cobertos de tinta preta, rasgavam, em voos rápidos, a atmosfera envolvente e perdiam-se, lá adiante, na folhagem dos salgueiros e amieiros das margens da ribeira. Mais para lá, um cuco dava sinal de si e percutia o ar com as suas vogais escuras.