Poemas

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Herberto Helder
Herberto Helder

Todas Pálidas, As Redes Metidas Na Voz.

Todas pálidas, as redes metidas na voz.
Cantando os pescadores remavam
no ocidente — e as grandes redes
leves caíam pelos peixes abaixo.
Por cima a cal co…

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Herberto Helder
Herberto Helder

Queria Tocar Na Cabeça de Um Leopardo Louco

Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo
mandibular. Sentir os dedos tornarem-se
de granito. Sentir a deslumbrante
ressaca de pêlo
baixo arreb…

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Herberto Helder
Herberto Helder

Astro Assoprado

Astro assoprado, sombria ligeireza, dom: eu sei.
Nada me toca.
Apenas um dedo de mármore na cabeça.
Trespassa-a, têmpora a têmpora, coroa de uma agonia
na e…

1 183
Herberto Helder
Herberto Helder

Era Uma Vez Toda a Força Com a Boca Nos Jornais:

Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necro…

557
Herberto Helder
Herberto Helder

Texto 1

Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melho…

1 101
Herberto Helder
Herberto Helder

Texto 9

Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do m…

578
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii F

Pêras maduras ao longe,
glicínias em declive pelo perfume dentro,
longe como a água nos sonhos,
como: que mês entre todos conteria em si a leveza e o génio?

1 088
Herberto Helder
Herberto Helder

Iii B

A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão …

1 064
Herberto Helder
Herberto Helder

I M

Porque abalando as águas côncavas o acordou a lua e empurrou para fora,
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do s…

1 141
Herberto Helder
Herberto Helder

Iii F

Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira,
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixa…

1 128
Herberto Helder
Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos exposta…

603
Herberto Helder
Herberto Helder

I E

Porque eu sou uma abertura,
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.

1 136
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii G

Pode colher-se na espera da árvore,
chama coada,
o fruto —
no feixe de linhas e fibras do corpo da madeira pelo sítio mais
rude,
mais intenso,
a…

1 188
Herberto Helder
Herberto Helder

Canção Despovoada

Num tempo sentado em seda, uma mulher imersa
cantava o paraíso. Era depois da morte.
Num tempo: salsa, avenças
dormindo. A infância tinha febre. Então a voz

1 288
Herberto Helder
Herberto Helder

I L

Rosas divagadas pelas roseiras, as sombras das rosas
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh …

1 116
Herberto Helder
Herberto Helder

I C

Pus-me a saber: estou branca sobre uma arte
fluxa e refluxa:
a lua nasce da roupa fria, sai-me a cabeça
das zonas da limalha,
dos buracos fortes da água.<…

1 103
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii D

Esta coluna de água, bastam-lhe o peso próprio,
o ar à roda,
ter sido olhada não como imagem de uma garrafa
mas como concreta e contínua forma;
ou subir n…

881
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii K

Atravessa a água até ao fundo da estrela.
O buraco sopra:
de trás de quê, como, de que coisa entreaberta?
A sombra dessa estrela — como se chama:
inomináve…

1 272
Herberto Helder
Herberto Helder

I B

Nas mãos um ramo de lâminas.
Cada palavra tem mais à frente o lado escuro,
mais noutra posição armada, as suas
zonas últimas
— ofertas do amor: a morte

1 072
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii J

Dias pensando-se uns aos outros na sua seda estendida,
inteligentes para dentro do que há nos dias:
faíscas do ar, o ar braço a braço,
e no meio dos braços, no…

1 243
Herberto Helder
Herberto Helder

I J

E aparece a criança;
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instá…

1 183
Herberto Helder
Herberto Helder

Ii E

Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprenda uma língu…

1 038
Herberto Helder
Herberto Helder

Comunicação Académica

Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias…

1 510
Herberto Helder
Herberto Helder

Um Deus Lisérgico

Ele viu, a muitas noites de distância o Rosto
saturado de furos ígneos absorvido
em sua própria velocidade
ressaca silenciosa um rosto precipitado
para d…

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