Poemas

Lista de Poemas

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

Inquebrantada linhagem

Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore ab…

983
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Sobre um bosque de bétulas

A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?

1 066
Marina Colasanti
Marina Colasanti

À NOITE NO ESCORIAL

Os sinos do Escorial
chamam à noite.
Bronze
redonda lâmina
na nuca do silêncio.
Pedra
montanha recomposta
em duras quinas
sem volteios …

774
Marina Colasanti
Marina Colasanti

VERDE, PORÉM

Por que será que
entre tantos arbustos
galhos
e árvores das praças
esse pássaro urbano
fez seu pouso
na viva aresta
de vidro verde
cac…

938
Marina Colasanti
Marina Colasanti

A LARGURA DE UM HOMEM

A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo …

1 079
Marina Colasanti
Marina Colasanti

Nenhum como aqueles

Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite…

1 301
Marina Colasanti
Marina Colasanti

CASA EM MEIO AO CAMPO

A casa abandonada
foi tomada por vacas.
Nos cômodos vazios
dorsos e chifres
são paisagem castanha
montanhas
que no vão da janela
o olho estra…

984
Marina Colasanti
Marina Colasanti

INSTRUMENTO SEM SOM

Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva 
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.

1 271
Marina Colasanti
Marina Colasanti

SOBRE FUNDO AZUL

O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.

1 100
Marina Colasanti
Marina Colasanti

NOTURNO DE HOPPER

Ninguém na rua
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas c…

1 121
Marina Colasanti
Marina Colasanti

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-lo…

1 115
Marina Colasanti
Marina Colasanti

NO APARTAMENTO EM COLÔNIA

Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mans…

1 050
Marina Colasanti
Marina Colasanti

FAZENDA Á BEIRA SAL

Vacas soltas no pasto
à beira-mar
fulvas como leões ao sol poente.
Cabeça baixa
e entrando pelas ventas
um perfume de sal e mato quente.
Sob a cang…

1 048
Marina Colasanti
Marina Colasanti

SIM, PODE-SE

Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e na…

1 055
Marina Colasanti
Marina Colasanti

ALI, ONDE

Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio<…

1 212
Marina Colasanti
Marina Colasanti

VERÃO DE CHUVA EM SAITAMA

Grand-mother me chamou
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram…

536
Marina Colasanti
Marina Colasanti

PISANELLO, AL LOUVRE

La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo b…

1 056
Marina Colasanti
Marina Colasanti

NA CORTE DE HAAKON

Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espa…

1 144
Marina Colasanti
Marina Colasanti

AMISH COUNTRY

Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas

1 209
Marina Colasanti
Marina Colasanti

SOBRE A ESTRADA

Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.

1 163
Marina Colasanti
Marina Colasanti

CARNAVAL EM FRIBURGO

Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina…

985
Marina Colasanti
Marina Colasanti

MESSA AL DOM

L'antico gesto
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.

Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dag…

1 032
Marina Colasanti
Marina Colasanti

POR UMA LUZ

O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apena…

1 093
Marina Colasanti
Marina Colasanti

CLARO ESCURO

São as folhas da gardênia
mais escuras que outras folhas?
Ou mais escuras parecem
porque à escura folha escura
se sobrepõe como um grito
o branco

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