Poemas

Lista de Poemas

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

CLARA LUZ DE VERMEER

Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

JANTAR FAMILIAR

Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
So…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

CARNE DE LEITE E LUA

Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma p…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

CIRCO DE SOL

Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bi…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

JASMIM E JARRO CHINÊS

Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO

Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por qu…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL

Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem<…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

MADRUGADA EM CARDEIROS

Para Stella Marinho

Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.

Lutam as escamas pintadas
para def…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

NO PARQUE DA FERTILIDADE

As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos. 
Só os pessegueiros
n…

620
Marina Colasanti
Marina Colasanti

DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE

Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

PROTESI

Tante invasioni
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

NO MÊS DE MARÇO

Barcos estão parados junto às ilhas
é tempo de lulas,
me diz um pescador.
Com artimanhas
não com anzol
pescam-se as lulas.
Baixa-se ao fim da linha…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

ESOPO

No alto do galho
o corvo canta
Cai o queijo.
Que a raposa abriga
na garganta.

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

IA NO RUMO DE SEVILHA

Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só h…

1 154
Marina Colasanti
Marina Colasanti

RÉDEAS NAS MÃOS

Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Post…

1 078
Marina Colasanti
Marina Colasanti

NAS ASAS DA PANAIR

Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era …

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

COM A DESTREZA DE QUEM

Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

QUASE UM ÂMBAR

O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram 
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas …

999
Marina Colasanti
Marina Colasanti

CERIMÔNIA ACADÊMICA

Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

SALEIRO NA SERRA

Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

TARDE E CASA VAZIA

O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja…

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

AO REDOR

Ao redor, a pele.

Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.

1 165
Marina Colasanti
Marina Colasanti

NO SILÊNCIO

Pousado nas folhas
do pessegueiro
o raio de lua
canta.

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Marina Colasanti
Marina Colasanti

ORÁCULO E PRIMAVERA

Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estre…

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