Lista de Poemas
Explore os poemas da nossa coleção
CLARA LUZ DE VERMEER
Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei…
JANTAR FAMILIAR
Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
So…
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma p…
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bi…
JASMIM E JARRO CHINÊS
Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre…
MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO
Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por qu…
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem<…
MADRUGADA EM CARDEIROS
Para Stella Marinho
Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.
Lutam as escamas pintadas
para def…
NO PARQUE DA FERTILIDADE
As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
n…
DEPOIS DA CHUVA E ANTES DA NOITE
Que doce é essa montanha
após a chuva.
Pingos ainda escorrem folha a folha
mínimas águas
transbordando copas.
Na garganta do vale
pálida serpente
PROTESI
Tante invasioni
ho avute
nella bocca
di ferri gomma tubi
e lingue altrui.
Ora una placca
mi incollano sui denti
e mi rassegno.
Fra mesi
NO MÊS DE MARÇO
Barcos estão parados junto às ilhas
é tempo de lulas,
me diz um pescador.
Com artimanhas
não com anzol
pescam-se as lulas.
Baixa-se ao fim da linha…
ESOPO
No alto do galho
o corvo canta
Cai o queijo.
Que a raposa abriga
na garganta.
IA NO RUMO DE SEVILHA
Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só h…
RÉDEAS NAS MÃOS
Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Post…
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era …
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
QUASE UM ÂMBAR
O meu canino esquerdo
cansou de ser canino simplesmente.
Não lhe bastaram
frutas, carnes
e tantas jugulares.
Quis cravar-se no tempo.
Como certas …
CERIMÔNIA ACADÊMICA
Tédio e lustres de cristal
falsos dourados.
Palavras em caravana cruzam
o zumbir do ar refrigerado
lentamente
as vidraças refletem
as tantas roupas…
SALEIRO NA SERRA
Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja…
AO REDOR
Ao redor, a pele.
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
NO SILÊNCIO
Pousado nas folhas
do pessegueiro
o raio de lua
canta.
ORÁCULO E PRIMAVERA
Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estre…