Poemas

Lista de Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Pescador

1

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
Sem introversão
2

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo

1 440
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Traduzido de Kleist

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos

1 620
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Aviões

Na noite de luar o avião passa como um prodígio
Rápido inofensivo e violento

Ele enche de clamor o sossego branco dos muros onde moro
Ele enche de espanto

1 922
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Despedida

Na estação na tarde o fumo
O rumor o vaivém as faces
Anónimas
Criam no interior do amor um outro cais

As lágrimas
O fogo da minha alma as queima a…

2 057
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sequência

A sua face transpôs os temporais
O vento azul rolou entre os seus braços

A penumbra subiu e rodeou
O seu rosto aceso as suas mãos iguais

Dos seus…

1 350
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

No Poema

Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem liquidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preserva…

1 992
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Primavera

As heras de outras eras água pedra
E passa devagar memória antiga
Com brisa madressilva e Primavera
E o desejo da jovem noite nua
Música passando pelas veias…

1 582
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Manhã

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

1 762
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Pompeia — Casa de Menandro

A serenidade de um verso latino
Claro e medido
Povoa o tempo de clepsidra — ou o escorrido
Tempo de areia fina

Paira — apesar da morte e da ruína —

1 241
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

A Pequena Estátua

Presença ritual e tutelar
Companheira da sombra desenho do silêncio

1 192
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

A Apaixonada

Por um instante detém, ó noite, o gesto.
Suspende o cálice do seu rosto
Antes que ela o entorne
Na vida sem memória.

Mas já ela inclina o seu pescoço

1 154
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Quadrado

Deixai-me com a sombra
Pensada na parede
Deixai-me com a luz
Medida no meu ombro
Em frente do quadrado
Nocturno da janela

1 457
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Vila Adriana

A ânfora cria à sua roda um espaço de silêncio
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana

Tempo da fina areia agudamente medido
Os sé…

1 448
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Velório Rico

O morto está sinistro e amortalhado
Rodeado de herdeiros inquietos como sombras
Que atormentam o ar com seus pecados

1 402
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Reino

Reino de medusas e água lisa
Reino de silêncio luz e pedra
Habitação das formas espantosas
Coluna de sal e círculo de luz
Medida da Balança misteriosa

1 324
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Ó Poesia Sonhei Que Fosses Tudo

E eis-me na orla vã abandonada
Uma por uma as ondas sem defeito
Quebram o seu colo azul de espuma
E é como se um poema fosse nada.

1 325
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas

1 559
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Semi-Rimbaud

Seu rosto é uma caverna
Onde frios ventos cantam

Passa rasgando o luar
E desesperando a noite

Pelas ruas oblíquas da cidade
Em madrugadas du…

1 302
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Assim Em Suas Mãos Nos Troca a Vida

E quem já nem em sonhos conhecemos
Longe se perde nos confins extremos
Da grande madrugada prometida

Assim em suas mãos nos troca a vida.

1 143
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Esquemáticos Caminhos

De múltiplas esperas.
Que abandono divide
A minha alma em dois?

Dois que se combatem
Irmãos e diversos
Tão alheios que
Sem amor se conhecem.<…

1 099
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

A Vaga

Como toiro arremete
Mas sacode a crina
Como cavalgada
Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia

1 663
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Morte

Que triângulo ou círculo poderá cercar-te
Para que te detenhas demorada e minha
Para que não desças toda pela escada

1 309
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Palmeiras Geometria

Palmeiras geometria
São meu alimento
Secura silêncio
São minha bebida
E a infinita ausência
É a minha vida
A funda a secreta
Com sabor a pedra…

1 388
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque Nos Outros Há Sempre Qualquer Nojo

Porque nos outros há sempre qualquer nojo
Que me gela e me afasta
E em ti há sempre um pouco de mar largo
Que de olhos cegos atrás de ti me arrasta.

1 322