Citações neste tema
Humor e Ironia
Karl Kraus
Entrar por um ouvido e sair pelo outro: nesses casos, a cabeça seria sempre uma estação de passagem. O que ouço tem de sair pelo mesmo ouvido.
80
Karl Kraus
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jornalista, orgulhar-me-ia de criticar um rei. Mas visto que ataco a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sátira. Depois de dez anos de trabalho artístico, as minhas vítimas deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer isto e finalmente desistir de se lamentar.
71
Karl Kraus
Quem precisa de experiências em tamanho grande certamente será encoberto por elas. Eu travo titanomaquias com vírgulas.
78
Karl Kraus
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
69
Karl Kraus
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
71
Karl Kraus
Posso imaginar que uma mulher feia se veja ao espelho e se convença de que a imagem refletida é feia, e não ela própria. É dessa forma que a sociedade vê a sua baixeza num espelho e acredita, por idiotice, que sou eu o sujeito baixo.
83
Karl Kraus
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
83
Karl Kraus
O mundo das relações, no qual um cumprimento é mais forte do que uma crença e no qual as pessoas se asseguram do inimigo quando agarram a sua mão, considera como cálculo a renúncia ao seu sistema, e ainda que não chegue a detestar Hércules por dificultar a sua própria vida e a de três mil bois, ele sonda os seus motivos e pergunta: “O que o senhor tem contra Áugias?”.
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Karl Kraus
Se lhe roubarem alguma coisa, não vá à polícia, à qual isso não interessa, e também não vá ao psicólogo, a quem só interessa, no fundo, o facto de ter sido você que roubou alguma coisa.
88
Karl Kraus
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o facto de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada no meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “no meu próprio jornal”. Tendo sido chamada a minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de Aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano da minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais da minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo a sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
70
Karl Kraus
Os jornalistas escrevem porque não têm nada a dizer, e têm algo a dizer porque escrevem.
77
Karl Kraus
Os filhos de pais psicanalistas definham precocemente. Quando crianças de peito, precisam admitir que têm sensações voluptuosas ao evacuar. Mais tarde lhes perguntam que ideias lhes vieram à mente quando viram um cavalo defecando no caminho para a escola. Podemos falar de sorte quando uma criança dessas atinge a idade em que o jovem pode confessar um sonho em que violou a sua mãe.
74
Karl Kraus
Uma certa psicanálise é a ocupação de racionalistas lúbricos que atribuem tudo no mundo a causas sexuais, exceto a sua ocupação.
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Karl Kraus
Talvez as coisas andassem melhor se os homens recebessem focinheiras e os cães, leis; se os homens fossem conduzidos pela coleira e os cães pela religião. A hidrofobia poderia diminuir na mesma proporção da política.
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Karl Kraus
Os psicólogos modernos que ampliam os limites da irresponsabilidade ocupam um vasto lugar nela.
86