Citações neste tema
Arte
Karl Kraus
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
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Karl Kraus
O facto de um tema ser artístico não o deve prejudicar necessariamente junto do público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal a excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objecto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
67
Karl Kraus
Há dois tipos de apreciadores da arte. Uns elogiam o que é bom porque é bom e criticam o que é mau porque é mau. Outros criticam o que é bom porque é bom e elogiam o que é mau porque é mau. A distinção entre esses tipos é simples pelo facto de o primeiro deles não existir. As coisas seriam fáceis de entender se não houvesse ainda uma terceira categoria. Ela é formada por aqueles que elogiam o que é bom apesar de ser bom e criticam o que é mau embora seja mau. É a essa espécie perigosa que se deve toda a confusão nos assuntos artísticos. O seu instinto diz-lhes que devem alvejar o que é errado, mas por precaução alvejam o que é certo. Possuem razões que se encontram fora da sensibilidade artística. O artista poderia viver sem o esnobismo que o exalta. Dificilmente, sem a estupidez que o degrada.
62
Karl Kraus
No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
67
Karl Kraus
Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante o seu trabalho. Deve ser capaz de objetivar a sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.
71
Karl Kraus
Antes os cenários eram de cartão e os atores eram de verdade. Agora os cenários são completamente convincentes, e os atores, de cartão.
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Karl Kraus
O político está metido na vida, não se sabe onde. O esteta foge da vida, não se sabe para onde.
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Karl Kraus
Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles que não são. Nos primeiros, a forma e o conteúdo se harmonizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteúdo se ajustam como a roupa sobre o corpo.
80
Karl Kraus
Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles precisam “achá-lo”. Procurar ninguém quer.
72
Karl Kraus
É provável que o riacho de Grinzing tenha estimulado Beethoven a compor a Sinfonia Pastoral. Mas isso não prova nada a favor do riacho de Grinzing e tudo a favor de Beethoven. Quanto menor a paisagem, tanto maior pode ser a obra de arte, e vice-versa. É tolice, porém, dizer que a atmosfera que o riacho transmite a um caminhante qualquer é a mesma recebida pelo ouvinte da sinfonia. Caso contrário, também poderíamos dizer que o cheiro de maçãs podres nos dá o Wallenstein de Schiller.
90
Karl Kraus
Vi um poeta a correr atrás de uma borboleta num relvado. Pôs a rede sobre um banco em que um rapaz lia um livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.
80
Karl Kraus
Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesúvio aprecia o Etna? No máximo, poderia estabelecer-se uma relação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor?
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Karl Kraus
Compreender uma visão de mundo com um só olhar é arte. Porém, quanto não cabe num olho!
77
Karl Kraus
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.
83
Karl Kraus
Para se orientar em questões de política, bastam lembranças de opereta. Aquilo que pode ser dito contra a forma de governo absolutista, por exemplo, foi-nos ensinado pelas figuras de um rei Bobèche, de um príncipe herdeiro Kasimir ou de um general Kantschukoff. Se a exigência dos frasistas de que a arte se ocupe dos assuntos públicos possui mesmo um sentido, então ela só pode estar a referir-se à produção de operetas. Esta é criticada com razão por negligenciar há décadas os únicos assuntos humanos que não cabe levar a sério, ou seja, os assuntos públicos. Pois a forma artística da opereta é adaptada à essência de todos os desdobramentos políticos por conceder à estupidez uma improbabilidade redentora. Exigir que a criação artística se lance sobre os acontecimentos recém-saídos do forno é uma tolice; mesmo a sátira os desdenha, pois ainda que seja capaz de apreender os ridículos da política, estes ocorrem abaixo do nível de uma observação espirituosa de sentido superior.
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Karl Kraus
O trabalho intelectual assemelha-se tanto ao acto da volúpia que nele também obedecemos, de maneira involuntária, à convenção da vida sexual. Agimos discretamente, e quando recebemos a visita de uma mulher durante o trabalho, não a deixamos entrar para evitar um encontro embaraçoso. O filisteu ocupa-se com uma mulher, o artista corteja uma obra.
71
Karl Kraus
O imitador segue os passos do original e espera que em algum momento o segredo da originalidade lhe seja revelado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se afasta da possibilidade de aproveitá-lo.
57
Karl Kraus
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
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Karl Kraus
Para o filisteu, a arte é o enfeite das fadigas e tormentos do quotidiano. Ele tenta abocanhar os ornamentos como o cão a linguiça.
76
Karl Kraus
Quando se pensa que a mesma conquista técnica serviu à Crítica da razão pura e a uma reportagem sobre a viagem da Sociedade Vienense de Canto Coral, toda discórdia abandona nosso peito e louvamos a onipotência do Criador.
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Karl Kraus
Sem dúvida, o artista é diferente. Mas justamente por isso deve ser igual aos outros no seu exterior. Só pode permanecer solitário se desaparecer na multidão. Se chamar a atenção sobre si através de alguma peculiaridade, torna-se vulgar e coloca os perseguidores no seu encalço. Quanto mais tudo dá razão ao artista para ser diferente, tanto mais necessário é que se sirva dos trajes da média como um mimetismo. A aparência chamativa é o alvo da embriaguez. Esta, normalmente zombada, julga-se alinhada e superior quando se compara com a excentricidade de cabelos compridos. Mesmo o bêbado de quem o populacho se ri, ri do homem que usa um casaco de bufão. Desleixar-se intencionalmente para se destacar da média, usar roupas sujas como uma insígnia da arte e da ciência, sacudir uma cabeleira despenteada sobre o absurdo da ordem social — um ideal dos poetas andarilhos medievais, há muito abandonado pelos nobres e hoje ao alcance de qualquer pequeno-burguês. A verdadeira boemia já não faz aos filisteus a concessão de os irritar, e os verdadeiros ciganos vivem segundo um relógio que nem sequer precisa de ser roubado. A pobreza continua não sendo uma vergonha, mas a sujeira já não é uma honra. A “mãe estrada” renega os seus filhos; mesmo ela já é mais cuidada hoje em dia.
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