Citações neste tema
Arte
Karl Kraus
O pintor tem em comum com o pintor de paredes o facto de sujar as mãos. Precisamente isso distingue o escritor do jornalista.
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Karl Kraus
Num escritor podemos observar sintomas que deixariam um grande negociante maduro para a internação.
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Karl Kraus
O bom senso diz que “ainda acompanha” um artista até determinado ponto. O artista deveria recusar a companhia mesmo até aí.
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Karl Kraus
Quão limitada é a perfeição, quão ralo o bosque, quão insípida a poesia! Aula prática para os limitados, os ralos e os insípidos.
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Karl Kraus
Subestimam o meu comodismo quando dizem que antipatias pessoais me levaram a declarar que determinado literato é um charlatão. Ora, não vou gastar o meu ódio para liquidar uma mediocridade literária!
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Karl Kraus
Pestes e terremotos são grandes temas. Como é mesquinho reconhecer dores articulares como sintomas da peste e se deter junto à turvação da água de uma fonte que indica um terremoto! Como é mesquinho sentir nojo do mundo quando passa um poetastro!
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Karl Kraus
Um pintor inescrupuloso que, sob o pretexto de possuir uma mulher, a atrai ao seu ateliê e lá a retrata.
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Karl Kraus
Posso julgar o valor estético e cultural de um desfile ou de certa espécie de peças teatrais apenas quando não os assisti. Caso contrário, sucumbo a uma reação nervosa qualquer e falo das cores como faz o cego. A música suborna a crítica, e com que facilidade um repicar de sinos pode levar alguém a tolerar uma nulidade! Assim, para conservar um juízo objetivo, não posso deixar de ficar conscienciosamente longe do espetáculo.
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Karl Kraus
A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o facto de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.
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Karl Kraus
Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo no drama alemão, o público receia usá-las como meio de intimidação.
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Karl Kraus
O seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem as suas normas imutáveis.
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Karl Kraus
O facto de um tema ser artístico não o deve prejudicar necessariamente junto do público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal a excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objecto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
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Karl Kraus
No começo era o exemplar para recensão, e alguém o recebeu da editora. Então escreveu uma recensão. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para recensão. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
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Karl Kraus
Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público um cartaz que mostra Rómulo e Remo com guarda-chuvas abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau tempo, a fundação de Roma foi suspensa.
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Karl Kraus
Ficar triste da vida por haver encontrado no seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas a sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até às entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até ao instante em que ele dá a sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão da minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de o servir: assim pretende mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura a minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta das suas imperfeições, esse leitor considera que a sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem aos seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico aos meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade dos meus partos e a dificuldade do meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e divertem-se na sociedade. Eu divirto-me à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se esta ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
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Karl Kraus
Um excelente pianista, mas a sua execução precisa superar os arrotos da boa sociedade após um jantar.
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Karl Kraus
Não confio na máquina de impressão quando lhe entrego os meus manuscritos. Como pode um dramaturgo fiar-se na boca de um ator?
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Karl Kraus
Há duas espécies de escritores. Aqueles que são e aqueles que não são. Nos primeiros, a forma e o conteúdo se harmonizam como corpo e alma; nos segundos, a forma e o conteúdo se ajustam como a roupa sobre o corpo.
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Karl Kraus
A natureza adverte para refletirmos sobre uma vida que se apoia sobre trivialidades. Uma insatisfação cósmica manifesta-se por toda a parte; neves estivais e calores invernais protestam contra o materialismo que transforma a existência num leito de Procusto, trata doenças psíquicas como se fossem dores de barriga e gostaria de desfigurar a face da natureza onde quer que perceba as suas feições: na natureza, na mulher e no artista. Um mundo que suportaria o seu ocaso desde que não fosse impedido de ver a sua exibição cinematográfica não pode ser atemorizado com o incompreensível. Eu, porém, tomo facilmente um terramoto como protesto contra as conquistas do progresso e não duvido por um instante da possibilidade de que um excesso de estupidez humana possa indignar os elementos.
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Karl Kraus
Não há volúpia que se aproxime da euforia da criação intelectual, e não há tristeza que se compare ao estado em que o artista mergulha depois de concluída a obra. A segurança da inconsciência cria sempre a sua primeira obra e, por isso, sempre a melhor. Uma vez consumada, a insegurança da consciência vê que é a última e, por isso, a pior. Qualquer crítica leviana impressiona semelhante desânimo. Um juízo capaz de acompanhar a criação artística apenas na sobriedade e não no gozo é uma verdadeira maldição. Nada sabem da volúpia aqueles que apenas sabem que ela precede a tristeza.
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