Citações neste tema
Literatura e Palavras
Mário Quintana
Por vezes, quando estou escrevendo estes cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio...
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Mário Quintana
O mais difícil, quando se escreve em prosa, é evitar as rimas e, quando se escreve em verso, achar uma rima.
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Mário Quintana
Casimiro de Abreu chorava tanto que não cabia em si de descontente. Suas lágrimas escorrem até agora pelas vidraças pelas calçadas pelas sarjetas e só vão deter-se ante o coreto da praça pública, onde, sob os mais inconfessáveis disfarces, Castro Alves ainda discursa!
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Mário Quintana
Na linguagem corrente não se encontra a palavra “cântaro”. Mas é uma palavra que jamais poderá sair dos poemas. Há palavras assim. São como esses nobres animais heráldicos, que só existem nos brasões.
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Mário Quintana
Todas as antigas civilizações — por mais isoladas umas das outras, no tempo e no espaço — sempre começaram descobrindo três coisas: a poesia, a bebida e a religião.
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Mário Quintana
Inspiração? Sim... Mas convém não esquecer que a poesia, como todo verdadeiro jogo, é uma luta da astúcia contra o acaso.
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Mário Quintana
Tudo já está nas enciclopédias e todas dizem as mesmas coisas. Nenhuma delas nos pode dar uma visão inédita do mundo. Por isso é que leio os poetas. Só com os poetas se pode aprender algo novo.
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Mário Quintana
Os poetas são os únicos que não podem falar contra os absurdos da religião. Mesmo aqueles que se julgam materialistas devem estar ingenuamente iludidos: a poesia é um sintoma do sobrenatural.
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Mário Quintana
Quem se aventura a fazer um poema é como se atirasse uma pedra n’água. Tudo depende da formação dos círculos concêntricos. Salvo se o leitor for como o Lago Asfaltite, também chamado Mar Morto. Com este não há jeito nenhum.
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Mário Quintana
Esse verso de pé quebrado que atravessa a página de um lado a outro, como um pobre cachorro estropiado...
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Mário Quintana
O verdadeiro epicurista embriaga-se com um copo d’água. O verdadeiro poeta faz poesia com as coisas mais simples e corriqueiras deste e dos outros mundos.
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Mário Quintana
Há gente que tem raiva dos clássicos, por terem sido obrigados a conhecê-los. Eu tenho pena deles, porque não nos conhecem.
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Mário Quintana
Ah! os versos das línguas — pouco lidas como a nossa — pouco lidas por nós mesmos e desconhecidas pelo resto do mundo... Sua incomunicabilidade os torna de uma beleza única e irreparável. Quando descubro um belo verso nosso, sempre me dá vontade de chorar, porque é escrito em português.
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Mário Quintana
No princípio, era a Poesia. No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim, a Filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas.
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Mário Quintana
Leitor ideal, mesmo, é o que, quanto menos entende, mais admira. Se não fora essa claque providencial, o que seria dos autores herméticos? Não seria... Não porque sejam uns farsantes, uns e outros. Eles são assim. Já nasceram assim. Uns para os outros.
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Mário Quintana
Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco... Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.
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Mário Quintana
O crítico é um camarada que contorna uma tapeçaria e vai olhá-la pelo lado avesso.
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Mário Quintana
Com essa leitura dinâmica, decerto nem chegarão a me enxergar... Que sobrará de mim eu que só escrevo para os que gostam de ler nas entrelinhas? Que escrevo, como bem sabem os meus fregueses, apenas para os gulosos, e jamais para os glutões.
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Mário Quintana
A vida? Pode ser que seja um sonho. A poesia, não. A “possessão poética” não tem sentido passivo. É o mesmo que no palco: um ator, para bem desempenhar o papel de ébrio, deve estar inteiramente sóbrio.
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Mário Quintana
Ah, essas pequenas coisas, tão quotidianas, tão prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosamente a tecitura de um poema... talvez a poesia não passe de um gênero de crônica, apenas: uma espécie de crônica da eternidade.
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Mário Quintana
Falam em decadência da arte de escrever. Mas isso que por aí se vê, essa imprecisão, essa desconexão, é tudo um simples gráfico do espírito do autor. Não me venham, porém, dizer que ele não tem estilo. Tem-no, e muito seu. O estilo continua sendo o homem. Crise de estilo não existe. O que existe é crise de pensamento.
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