Citações neste tema
Literatura e Palavras
Mário Quintana
Pensar nos leitores — ou num determinado leitor prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo.
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Mário Quintana
Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência... ou pura piedade. Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar — mas para abalar. Mesmo a mais simples canção, quando a canta um Garcia Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.
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Mário Quintana
As rimas ricas acabaram morrendo por falta de recursos. Havia algumas que só eram quatro, o estritamente necessário para os dois quartetos do sonetista. Outras, nem isso... pobre do Emílio de Menezes! Creio que foi a mesma rimatite que esfrangalhou irremediavelmente os nervos de Edmond Rostand. Mas esse, ao menos, conseguiu executar soberbamente os seus números. E — acreditem — não morreu de entorse. Veio a morrer de tanto tour-de-force. Sob o aplauso entusiástico das arquibancadas.
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Mário Quintana
Estranho animal, o escriba, que lhe não basta ver, sentir... mas é-lhe preciso escrever isso tudo e outras coisas, para só então mais intensamente viver. Daí, o seu ar de sobrevivente. De quem ao mesmo tempo está e não está aqui. E, ao encontrar-te, ele sempre te estende a mão como em despedida, já com saudades de agora.
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Mário Quintana
Não deveria caber a um poeta o extrovertido e saltitante encargo de Relações-Públicas. E sim de Relações íntimas. Isto é, comunicação... a sós.
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Mário Quintana
Clair de lune , chiaro de luna , claro de luna ... mas os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só?
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Mário Quintana
Sento-me à mesa. Quem sabe? Quem se senta, se tenta... 60, 70, escrevo, arredondando caprichosamente os zeros. E o burro do papel me fica incompreensivelmente olhando, na espera inútil dos 80. O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação. Continua, apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca. Porque o papel é uma janela que, em vez de a gente espiar por ela, ela é que espia para a gente.
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Mário Quintana
Shakespeare. Nunca lhe passou pela cabeça o receio do ridículo. Em contrapartida, Racine, com a sua infalível mésure é que nos parece às vezes afetado. O que jamais acontece com Shakespeare, apesar de todos os pesares. Como os grandes homens da História estão acima do bem e do mal, os grandes poetas estão acima do bom e do mau gosto.
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Mário Quintana
Boates, toaletes, quitinetes, ateliês, e assim por diante... E como essas palavras, universalmente usadas, ficam difíceis de reconhecer... E trotoar, como é possível fazer trotoar? Ah, trottoir... agora sim! E depois, se vamos aportuguesar desse modo todas as palavras estrangeiras, a gente acaba perdendo o pouco de cultura que ainda tem.
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Mário Quintana
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
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Mário Quintana
E esses que evitam cuidadosamente os “quês” (parece que o toque de caixa foi dado pelo velho Castilho) o que estão, afinal, é desossando este nosso rude e doloroso idioma... Um idioma durão!
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Mário Quintana
Costumava-se distinguir entre creação e criação. Exemplo: a creação de um poema, a criação de galinhas. Era limpo e nítido. Nada de confusões. Mas agora que tudo é um, como diziam os clássicos, ficou irremediavelmente perdido o que escrevi, um dia: “Deus creou o mundo e o diabo criou o mundo.” E agora? Para explicar tudo isso em mais palavras o que seria um verdadeiro crime — imaginem os circunlóquios que eu teria de fazer... Não faço!
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Mário Quintana
Um poema que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
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Mário Quintana
— Mas por que falar em poesia concretista? Diga-se “concretismo”, apenas, e estará ressalvada a poesia.
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Mário Quintana
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
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Mário Quintana
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: “A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância.”
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Mário Quintana
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
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Mário Quintana
Sempre achei que a semente de onde germina todo verdadeiro poema é uma interjeição. Isto é, um sentimento muito elementar, instintivo. Mas um sentimento, sempre. O eterno romantismo! E depois disto, minha filha, hás de sair dizendo por aí que o nome feio é a forma mais espontânea da poesia.
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