Poemas neste tema
Relações e Família
Marina Colasanti
RED POPPY
Na testa do meu amado
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
946
Marina Colasanti
SALEIRO NA SERRA
Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
974
Marina Colasanti
RÉDEAS NAS MÃOS
Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas
Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas
Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.
1 081
Marina Colasanti
DIA NÃO PASSA SEM
Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
1 102
Marina Colasanti
NO APARTAMENTO EM COLÔNIA
Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
1 050
Marina Colasanti
VERÃO DE CHUVA EM SAITAMA
Grand-mother me chamou
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
para vê-la dançar as danças da colheita
no Festival de Verão.
Caminhei junto aos campos
de arroz e berinjelas
bicicletas passaram por mim
saias em festa
íamos todos na mesma direção.
Chovia sobre o desfile
as sandálias de palha
se empapavam na lama
o andor
ou como là se chame em japonês
pesava sobre os ombros
dos homens encharcados de sakê
mas o tambor batia no mesmo ritmo
e além das cordas
as crianças olhavam submersas
na longa ondulação dos guarda-chuvas.
A avó veio por fim.
Presas as longas mangas do quimono
- não fosse a foice decepar a seda -
ceifou com graça as hastes invisíveis
fez tombar as espigas
atou os feixes
celebrando a abundância
sobre o asfalto.
E o sol
abriu-se inteiro
no seu leque.
Satums 2988
536
Marina Colasanti
JASMIM E JARRO CHINÊS
Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
1 021
Marina Colasanti
ACQUA MARCIA
Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
1 659
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
728
Marina Colasanti
IA NO RUMO DE SEVILHA
Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.
Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
1 154
Marina Colasanti
JANTAR FAMILIAR
Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
1 161
Marina Colasanti
JANTAR FAMILIAR
Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
1 161
Allen Ginsberg
Para tia Rose
Tia Rose —agora —se eu pudesse vê-la
com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor
de reumatismo —e um comprido e pesado sapato preto
para sua ossuda perna esquerda
coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark
passando pelo grande piano negro
até a sala de visitas
onde davam festas
e eu cantava canções legalistas espanholas
com uma esganiçada voz aguda
(histérico) o comitê ouvindo
enquanto você coxeava pela sala
recolhendo o dinheiro
Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga
de casaco
enfiado no bolso
o enorme moço calvo
da brigada Abraham Lincoln
—sua comprida cara triste
suas lágrimas de insatisfação sexual
(que soluços sufocados e ancas ossudas
sob os travesseiros de Osborne Terrace)
—a vez que fiquei sentado nu na privada
enquanto você empoava minhas coxas com Calomine
contra a queimadura da urtiga —meus tenros
e envergonhados primeiros negros pêlos crespos
o que você pensaria secretamente
sabendo que eu já era homem —
e eu a menina ignorante do silêncio familiar no delgado
pedestal
das minhas pernas no banheiro —Museu de Newark
Tia Rose
Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
com Tamerlão e Emily Bronte
Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osbome
Terrace
ao longo do saguão escuro até a porta da frente
mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo
que deve ter sido um florido
vestido de seda
recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark
—vejo-a chegar à sala de visitas
dançando na sua perna aleijada
e batendo palmas seu livro
havia sido aceito por Liveright
Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados
Tio Harry vendeu sua última meia de seda
Claire largou a escola de dança interpretativa
Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa
de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês
a última vez que eu a vi você estava no hospital
pálido crânio emergindo da pele cinérea
menina inconsciente com veias azuis
numa tenda de oxigênio
a guerra da Espanha já acabou há muito tempo
Tia Rose
Paris, 1958
com seu rosto afilado e sorriso de longos dentes e dor
de reumatismo —e um comprido e pesado sapato preto
para sua ossuda perna esquerda
coxeando pelo carpete do longo saguão de Newark
passando pelo grande piano negro
até a sala de visitas
onde davam festas
e eu cantava canções legalistas espanholas
com uma esganiçada voz aguda
(histérico) o comitê ouvindo
enquanto você coxeava pela sala
recolhendo o dinheiro
Tia Honey, Tio Sam, um estranho com um braço de manga
de casaco
enfiado no bolso
o enorme moço calvo
da brigada Abraham Lincoln
—sua comprida cara triste
suas lágrimas de insatisfação sexual
(que soluços sufocados e ancas ossudas
sob os travesseiros de Osborne Terrace)
—a vez que fiquei sentado nu na privada
enquanto você empoava minhas coxas com Calomine
contra a queimadura da urtiga —meus tenros
e envergonhados primeiros negros pêlos crespos
o que você pensaria secretamente
sabendo que eu já era homem —
e eu a menina ignorante do silêncio familiar no delgado
pedestal
das minhas pernas no banheiro —Museu de Newark
Tia Rose
Hitler está morto, Hitler está na Eternidade; Hitler está junto
com Tamerlão e Emily Bronte
Porém eu ainda a vejo caminhar, um fantasma em Osbome
Terrace
ao longo do saguão escuro até a porta da frente
mancando um pouco com um sorriso cansado naquilo
que deve ter sido um florido
vestido de seda
recebendo meu pai, o Poeta, na sua visita a Newark
—vejo-a chegar à sala de visitas
dançando na sua perna aleijada
e batendo palmas seu livro
havia sido aceito por Liveright
Hitler morreu e Liveright encerrou as atividades
O Sótão do Passado e Duradouro Minuto estão esgotados
Tio Harry vendeu sua última meia de seda
Claire largou a escola de dança interpretativa
Buba está largada um monumento encarquilhado na Casa
de Repouso para Senhoras Idosas piscando para bebês
a última vez que eu a vi você estava no hospital
pálido crânio emergindo da pele cinérea
menina inconsciente com veias azuis
numa tenda de oxigênio
a guerra da Espanha já acabou há muito tempo
Tia Rose
Paris, 1958
1 021
Allen Ginsberg
Malest Cornifici tuo Catullo
Estou feliz, Kerouac, seu louco Allen
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.
1 461
Allen Ginsberg
História de Gregory Corso
Na primeira vez que fui
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.
Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.
10 de dezembro, 1951
409
Allen Ginsberg
Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
1 055
Allen Ginsberg
Mensagem
Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
1 062
Allen Ginsberg
Mensagem
Desde que mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém para pegar no joelho, homem
ou mulher, pouco importa, eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicadas armações de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos
1 062
Allen Ginsberg
Para um velho poeta no Peru
Porque nos encontramos ao escurecer
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
956
Allen Ginsberg
Porque Deus é amor, Jack?
Porque eu me deito
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.
Nova York, 1963
738
Marina Colasanti
Sistema solar
No prato oval
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
três peras
e o friso azul
barrado de dourado.
Quietude posta à mesa.
Lá fora a escuridão
feita de chuva.
Aqui três sóis
servidos no jantar
1 093
Marina Colasanti
Como é Gentil
Os pelos da tua mão
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
são cílios
sedas
suave grama
como aquela que vimos
em Florença
crescendo entre roseiras
no jardim do claustro.
Passo a mão na tua mão
e nem te falo
como é gentil a tato
a fina flora
franja
que tua pele fia
1 420
Affonso Romano de Sant'Anna
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
1 005
Affonso Romano de Sant'Anna
Pós-Amigo
Você sempre foi falso
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
e eu era seu amigo.
O que em mim era canção
era, em você, ruído.
Você inda distorce
qualquer coisa que digo.
Você persegue a glória
e se diz perseguido.
Como é falsa sua vida
meu dileto inimigo,
entre nós vai se abrindo
cada vez mais o abismo,
você é pós-moderno
e eu sou pré-antigo.
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