Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

1926–1997 · viveu 70 anos US US

Allen Ginsberg foi um poeta americano, figura proeminente da Geração Beat e um dos mais influentes poetas do século XX. Sua obra é marcada pela liberdade formal, pela crítica social e política, e pela exploração de temas como a homossexualidade, o misticismo oriental e a contracultura. Ginsberg era conhecido por suas leituras performáticas fervorosas e por seu ativismo, tornando-se um ícone da contracultura dos anos 1960.

n. 1926-06-03, Paterson · m. 1997-04-05, Nova Iorque

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Nota de rodapé para Uivo

Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!
Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!
O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa! O nariz é santo! A língua e o caralho e a mão e o cu são santos!
Tudo é santo! todos são santos! todo lugar é santo! todo dia é eternidade!
todo mundo é um anjo!
O vagabundo é tão santo quanto o serafim! o louco é tão santo quanto você minha alma é santa!
A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz é santa os ouvintes são santos o êxtase é santo!
Santo Peter santo Allen santo Solomon santo Lucien santo Kerouac santo Huncke santo Burroughs santo Cassady santos os mendigos desconhecidos sofredores e fodidos santos os horrendos anjos humanos!
Santa minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos dos vovôs de Kansas!
Santo o saxofone que geme! Santo o apocalipse bop! Santos a banda de jazz marijuana hipsters paz & droga & sonhos!
Santa a solidão dos arranha-céus e calçamentos! Santas as cafeterias cheias de milhões! Santo o misterioso rio de lágrimas sob as ruas!
Santo o solitário Jagarnata! Santo o enorme cordeiro da classe média!
Santos os pastores loucos da rebelião! Quem saca que Los Angeles é Los Angeles!
Santo Nova York! Santo San Francisco Santo Peoria & Seattle Santo Paris
Santo Tânger Santo Moscou Santo Istambul!
Santo o tempo na eternidade santa a eternidade no tempo santos os despertadores no espaço santa a quarta dimensão santa a quinta internacional santo o anjo em Moloch!
Santo o mar santo o deserto santa a ferrovia santa a locomotiva santas as visões santas as alucinações santos os milagres santo o globo ocular santo o abismo!
Santo perdão! misericórdia! caridade! fé! Santo! Nossos! corpos!
sofrendo! magnanimidade!
Santa a sobrenatural extra brilhante inteligente bondade da alma!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Allen Ginsberg foi um poeta americano, amplamente reconhecido como uma das figuras centrais da Geração Beat, um movimento literário e cultural que emergiu nos Estados Unidos na década de 1950. Nascido em Newark, Nova Jersey, Ginsberg explorou em sua obra uma vasta gama de temas, incluindo a condição humana, a espiritualidade, a política, a sexualidade e a crítica ao materialismo americano. Sua poesia é caracterizada por uma linguagem crua, direta e frequentemente profética, com forte influência de Walt Whitman e William Blake. A sua obra é escrita em língua inglesa.

Infância e formação

Allen Ginsberg nasceu em 3 de junho de 1926, em Newark, Nova Jersey, e cresceu em Paterson, também em Nova Jersey. Filho de pais judeus, sua infância foi marcada pela preocupação da mãe com a saúde mental, uma questão que o assombraria e influenciaria profundamente sua obra. Ginsberg estudou na Universidade de Columbia, onde desenvolveu seu interesse pela literatura e pelo ativismo político. Foi lá que conheceu outros futuros membros da Geração Beat, como Jack Kerouac e William S. Burroughs.

Percurso literário

Ginsberg iniciou sua carreira literária ainda na universidade, mas sua obra ganhou notoriedade com a publicação de "Howl and Other Poems" (Uivo e Outros Poemas) em 1956. Este livro, que incluía o poema épico "Howl", tornou-se um marco da literatura americana e um símbolo da contracultura. "Howl" foi objeto de um famoso julgamento por obscenidade, do qual Ginsberg saiu vitorioso, solidificando sua reputação como poeta rebelde e inovador. Ao longo de sua carreira, publicou inúmeros livros de poesia, ensaios e correspondências, mantendo uma produção constante e engajada.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ginsberg é vasta e diversificada, mas "Howl" permanece como sua obra mais emblemática. O poema, com sua estrutura de longa respiração e linguagem visceral, é um lamento contra a destruição da geração "mais brilhante de sua mente" pelas forças conformistas da sociedade americana. Seus temas recorrentes incluem a crítica ao capitalismo e ao imperialismo, a celebração da diversidade sexual, a busca por iluminação espiritual através do budismo e outras tradições orientais, e a denúncia da opressão social. O estilo de Ginsberg é marcado pelo verso livre, pela oralidade, pela repetição e pela intensidade emocional. Ele buscava uma poesia que fosse ao mesmo tempo pessoal e universal, capaz de expressar a experiência coletiva de sua época. Outras obras importantes incluem "Kaddish" (sobre a morte de sua mãe), "America" e "Planet News".

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ginsberg viveu e escreveu em um período de profundas transformações nos Estados Unidos e no mundo. Foi um crítico ácido da Guerra do Vietnã, do macartismo e do conformismo da sociedade americana dos anos 1950 e 1960. Sua poesia e seu ativismo o colocaram no centro da contracultura, dialogando com movimentos como o pacifismo, os direitos civis e a revolução sexual. Ele era amigo de figuras como Bob Dylan, Timothy Leary e William S. Burroughs, e sua obra refletiu as inquietações e os ideais de uma geração que buscava romper com as convenções estabelecidas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ginsberg era abertamente homossexual em uma época em que isso era socialmente reprimido. Sua vida pessoal foi profundamente marcada pelo relacionamento com Peter Orlovsky, seu companheiro por muitos anos, e pela sua luta com questões de saúde mental, tanto suas quanto de sua família. Ele adotou práticas budistas, buscando na meditação e na filosofia oriental uma forma de lidar com o sofrimento e encontrar sentido na vida. Sua casa em Nova York tornou-se um ponto de encontro para artistas e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha enfrentado controvérsias e processos legais no início de sua carreira, Allen Ginsberg conquistou um lugar de destaque na literatura americana. Recebeu diversos prêmios e honrarias ao longo de sua vida, e sua obra é amplamente estudada em universidades. Ele é considerado um dos poetas mais importantes do século XX, cuja influência se estende para além da literatura, impactando a música, o cinema e as artes visuais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ginsberg foi influenciado por poetas como Walt Whitman, William Blake e Arthur Rimbaud. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações de poetas e artistas, especialmente aqueles ligados a movimentos de vanguarda, à contracultura e à poesia performática. Ele é visto como um precursor da poesia confessional e da poesia de protesto. Seu legado reside na sua coragem em abordar temas tabus, na sua defesa da liberdade de expressão e na sua capacidade de dar voz aos marginalizados e oprimidos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ginsberg tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que exploram seus aspectos autobiográficos, políticos, espirituais e estéticos. Críticos destacam a sua originalidade formal, a força de sua imaginação e a relevância de suas críticas sociais. Houve debates sobre a sua abordagem da religião e sobre a intensidade de sua linguagem, mas o consenso geral é que Ginsberg foi um poeta de imenso talento e impacto.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ginsberg era conhecido por sua personalidade excêntrica e carismática. Ele era um defensor fervoroso dos direitos dos animais e um vegetariano convicto. Em suas leituras de poesia, frequentemente se envolvia em improvisações e interações com o público. Ele também se interessou por outras formas de arte, colaborando com músicos e cineastas. Sua busca por iluminação espiritual o levou a viajar extensivamente pelo mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Allen Ginsberg faleceu em 29 de abril de 1997, em sua casa em East Village, Nova York, de câncer de fígado. Sua morte foi amplamente noticiada, e ele é lembrado como um dos poetas mais importantes e influentes da literatura americana, cujo espírito rebelde e visão poética continuam a inspirar.

Poemas

47

Nota de rodapé para Uivo

Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!
Santo! Santo! Santo! Santo! Santo!
O mundo é santo! A alma é santa! A pele é santa! O nariz é santo! A língua e o caralho e a mão e o cu são santos!
Tudo é santo! todos são santos! todo lugar é santo! todo dia é eternidade!
todo mundo é um anjo!
O vagabundo é tão santo quanto o serafim! o louco é tão santo quanto você minha alma é santa!
A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz é santa os ouvintes são santos o êxtase é santo!
Santo Peter santo Allen santo Solomon santo Lucien santo Kerouac santo Huncke santo Burroughs santo Cassady santos os mendigos desconhecidos sofredores e fodidos santos os horrendos anjos humanos!
Santa minha mãe no asilo de loucos! Santos os caralhos dos vovôs de Kansas!
Santo o saxofone que geme! Santo o apocalipse bop! Santos a banda de jazz marijuana hipsters paz & droga & sonhos!
Santa a solidão dos arranha-céus e calçamentos! Santas as cafeterias cheias de milhões! Santo o misterioso rio de lágrimas sob as ruas!
Santo o solitário Jagarnata! Santo o enorme cordeiro da classe média!
Santos os pastores loucos da rebelião! Quem saca que Los Angeles é Los Angeles!
Santo Nova York! Santo San Francisco Santo Peoria & Seattle Santo Paris
Santo Tânger Santo Moscou Santo Istambul!
Santo o tempo na eternidade santa a eternidade no tempo santos os despertadores no espaço santa a quarta dimensão santa a quinta internacional santo o anjo em Moloch!
Santo o mar santo o deserto santa a ferrovia santa a locomotiva santas as visões santas as alucinações santos os milagres santo o globo ocular santo o abismo!
Santo perdão! misericórdia! caridade! fé! Santo! Nossos! corpos!
sofrendo! magnanimidade!
Santa a sobrenatural extra brilhante inteligente bondade da alma!
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Um estranho chalé novo em Berkeley

A tarde toda colhendo amoras pretas junto a uma cambaleante cerca marrom
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
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Garatuja

Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
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Notícia de morte

Visita a W.C.W. circa 1957, os poetas Kerouac Corso Orlovsky no sofá do living room indagavam palavra sábias, William enfermo apontou pela janela acortinada da Main Street, “Há muitos bastardos lá fora!”.

Andando de noite na estrada de asfalto
do campus ao lado do Instrutor Alemão com Óculos
W. C. Williams está morto disse ele com sotaque
sob as árvores em Benares; Eu parei perguntei
Williams está morto? Entusiástico e de olhos abertos
sob a Big Dipper. Parado no Pórtico
do bangalô Anexo da International House
insetos zumbindo em volta da luz elétrica
lendo o obituário Médico no Time.
“out among the sparrows behind the shutters”
Williams está na Big Dipper. Ele não está morto
pois as muitas páginas de palavras emoção em arranjo
com suas entonações fremem as bocas de crianças humildes
tornam-se sutis mesmo em Bengala. Assim
há uma vida movendo-se para fora de suas páginas; Blake
também “vivo” através de suas experienciadas máquinas.
Foram suas últimas palavras qualquer coisa de Negro lá fora
no quarto acarpetado da casa de madeira
em Rutherford? Me pergunto o que ele disse,
ou teria qualquer coisa restado nos reinos do discurso
após o ataque & a freme-cérebro ruína entrarem
em seus pensamentos? Se eu rezar por sua alma no Bardo Thodol
ele poderá ouvir a inesperada vibração de estrangeira piedade.
Quietamente desconhecido por três semanas; agora eu vi Passaic
e Ganges, um, consentindo sua devoção,
porque ele percorreu a margem de aço & rezou
para uma Deusa no rio, que ele somente inventou,
uma outra Ganga-Ma. Montando no velho
ferruginoso submarino Holland no andar térreo
do Paterson Museum ao invés de um crocodilo celestial.
Lamentai, Ó Vós, Anjos da Esquerda! que o poeta
das ruas agora é um esqueleto sob o pavimento
e não há outra velha alma tão doce e humilde
e queixo feminino e ele-olhos pode ver vocês
O que vocês queriam estar entre os bastardos lá fora.

Benares, 20 de março de 1963.
346

Ahm-Bum!

I
Quem tem bomba?
Temos bomba pra eles!
Quem tem bomba?
Temos bomba pra eles!
Quem tem bomba?
Temos bomba pra eles!
Quem tem bomba?
Temos bomba pra eles!
Quem tem bomba?
Temos bomba pra ti!
Quem tem bomba?
Temos bomba pra ti!
Quem tem bomba?
Tu tem bomba pra ti!
Quem tem bomba?
Tu tem bomba pra ti!
Que fazemos?
Temos bomba pra quem?
Que fazemos?
Temos bomba pra quem?
Que fazemos?
Temos bomba pra quem?
Que fazemos?
Temos bomba pra quem?
Que fazemos?
Tu tem bomba! Tu tem bomba pra eles!
Que fazemos?
Tu tem bomba! Tu tem bomba pra eles!
Que fazemos?
Tu tem bomba! Tu tem bomba pra eles!
Que fazemos?
Tu tem bomba! Tu tem bomba pra eles!

Maio de 1971


II
Para Dom Cherry

Por que tu tem bomba?
A gente não queria a bomba?
Por que tu tem bomba?
A gente não queria a bomba?
Por que tu tem bomba?
A gente não queria a bomba?
Por que tu tem bomba?
A gente não queria a bomba?
Quem disse bomba?
Quem disse que temos bomba?
Quem disse bomba?
Quem disse que temos bomba?
Quem disse bomba?
Quem disse que temos bomba?
Quem disse bomba?
Quem disse que temos bomba?
Quem aí quer uma bomba?
A gente não queria ter bomba!
Quem aí quer uma bomba?
A gente não queria ter bomba!
Quem aí quer uma bomba?
A gente não queria ter bomba!
Quem aí quer uma bomba?
A gente não queria
não queria
não queria ter uma bomba!
Quem pediu uma bomba?
Alguém tem que ter pedido uma bomba!
Quem pediu uma bomba?
Alguém tem que ter pedido uma bomba!
Quem pediu uma bomba?
Alguém tem que ter pedido uma bomba!
Quem pediu uma bomba?
Alguém tem que ter pedido uma bomba!
Eles pediram uma bomba!
Precisavam da bomba!
Eles pediram uma bomba!
Precisavam da bomba!
Eles pediram uma bomba!
Precisavam da bomba!
Eles pediram uma bomba!
Precisavam da bomba!
Eles acham que têm uma bomba!
Eles acham que têm uma bomba!
Eles acham que têm uma bomba!
Eles acham que têm uma bomba!

III
Armagedom nova era
Gog & Magog Gog & Magog
Armagedom nova era
Gog & Magog Gog & Magog
Bombas em Babilônia e Ur
Gog & Magog Gog & Magog
Bombas em Babilônia e Ur
Gog & Magog Gog & Magog
Armagedom na galera
Gog & Magog Gog & Magog
Armagedom na galera
Gog & Magog Gog & Magog
Gog & Magog Gog & Magog
Gog Magog Gog Magog
Gog & Magog Gog & Magog
Gog Magog Gog Magog
Gog Magog Gog Magog
Gog Magog Gog Magog
Gog Magog Gog Magog
Gog Magog Gog Magog
Ginsberg disse Gog & Magog
Armagedom nova era

Fevereiro–Junho de 1991
1 044

Meu triste Eu

Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...

Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —

Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido

NY, 1958
729

Guru

A lua é que desaparece
E as estrelas que se escondem, não Eu
É a Cidade que esvai, Eu fico
calçados esquecidos,
de calções invisíveis
O som um sino que chama

Primrose Hill. Maio, 1965.
606

Improviso em pequim

Eu escrevo poesia porque a palavra Inglesa Inspiração vem do Latim Spiritus, respiração, eu quero respirar livremente.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman deu permissão mundial para falar com candor.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman abriu os versos da poesia para a respiração desobstruída.
Eu escrevo poesia porque Ezra Pound viu uma torre de marfim, apostou num cavalo errado, deu aos poetas permissão para escrever no idioma vernacular falado.
Eu escrevo poesia porque Pound indicou aos jovens poetas do Ocidente que observassem as palavras da escrita pictográfica chinesa.
Eu escrevo poesia porque William Carlos Williams que vivia em Rutherford escreveu o Novajerseyês “I kick yuh eye”, perguntando, qual a medida disso em pentâmetro iâmbico?
Eu escrevo poesia porque meu pai era poeta minha mãe vinda da Rússia que falava Comunista, morreu numa casa de loucos.
Eu escrevo poesia porque meu jovem amigo Gary Snyder sentou-se para olhar seus pensamentos como parte dos fenômenos do mundo exterior exatamente como numa mesa de conferência em 1984.
Eu escrevo poesia porque eu sofro, nascido que sou para morrer, pedras nos rins e pressão alta, todo mundo sofre.
Eu escrevo poesia porque eu fico confuso por não saber o que as outras pessoas pensam.
Eu escrevo porque a poesia pode revelar os meus pensamentos, curar minha paranóia e também a paranóia de outras pessoas.
Eu escrevo poesia porque minha mente vagueia entre assuntos de sexo política meditação Buddhadharma.
Eu escrevo poesia para fazer boa imagem da minha própria mente.
Eu escrevo poesia porque tomei os Quatro Preceitos do Bodhisattva: a sensibilidade a ser liberada das criaturas é inumerável no universo, minha própria ignorância gananciosa corta a infinitude da verdade, as situações em que encontro a mim mesmo enquanto o céu está bonito são incontáveis, e o caminho da mente desperta não tem fim.
Eu escrevo poesia porque essa manhã eu acordei tremendo com medo o que é que eu iria dizer na China?
Eu escrevo poesia porque os poetas Russos Maiakóvski e Iessênin cometeram suicídio, alguém mais precisa falar.
Eu escrevo poesia por causa do meu pai que recitava o poeta Inglês Shelley e o poeta americano Vachel Lindsay em voz alta dando exemplo grande alento de inspiração.
Eu escrevo poesia porque escrever sobre sexo é censurado nos Estados Unidos.
Eu escrevo poesia porque milionários de Leste a Oeste dirigem Limousines Rolls-Royce e pobres não têm dinheiro nem para ir ao dentista.
Eu escrevo poesia porque meus genes e cromossomas se apaixonam por garotos e não por garotas.
Eu escrevo poesia porque não tenho responsabilidades dogmáticas de um dia para o outro.
Eu escrevo poesia porque eu quero estar sozinho e quero falar para as pessoas.
Eu escrevo poesia para me voltar e falar com Whitman, jovens aos dez anos falam com velhas tias e tios que vivem ainda nas proximidades de Newark, Nova Jersey.
Eu escrevo poesia porque ouvi negro blues no rádio em 1939, Leadbally e Ma Rainey.
Eu escrevo poesia inspirado pela alegre juventude das canções envelhecidas dos Beatles.
Eu escrevo poesia porque Chuang-Tzu não podia dizer se era homem ou borboleta, Lao-Tzu disse que a água flui montanha abaixo, Confúcio disse para honrar os mais velhos, eu quis honrar Whitman.
Eu escrevo poesia porque ovelhas e gado superalimentados vindos da Mongólia para o Ocidente Selvagem dos Estados Unidos destroem a grama nova e a erosão cria desertos.Eu escrevo poesia calçando sapatos com pele de animal.
Eu escrevo poesia “Primeira idéia, melhor idéia” sempre.
Eu escrevo poesia porque não-idéias são compreensíveis exceto se manifestadas em determinados minutos: “Não-idéias mas nas coisas”.
Eu escrevo poesia porque o Lama Tibetano diz, “As coisas são símbolos delas mesmas”.
Eu escrevo poesia porque as manchetes de jornal são um buraco negro em nossa galáxia-central, nós somos livres para noticiar isto.
Eu escrevo poesia por causa da Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a bomba nuclear e a Terceira Guerra Mundial se queremos isto, eu não preciso disto.
Eu escrevo poesia porque meu primeiro poema Uivo não precisou ser publicado para ser perseguido pela polícia.
Eu escrevo poesia porque meu segundo longo poema Kaddish homenageava o parinirvana da minha mãe num hospital psiquiátrico.
Eu escrevo poesia porque Hitler matou seis milhões de judeus, eu sou judeu.
Eu escrevo poesia porque Moscou, segundo Stalin, exilou 20 milhões de Judeus e intelectuais na Sibéria, 15 milhões deles nunca voltaram para o Café Stray Dog de São Petersburgo.
Eu escrevo poesia porque eu canto quando sinto que estou sozinho.
Eu escrevo poesia porque Walt Whitman disse “Eu me contradigo? Muito bem, então eu me contradigo (Sou vasto, contenho multidões.)”
Eu escrevo poesia porque minha mente se contradiz, um minuto em Nova York, o próximo minuto nos Alpes Dináricos.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém 10.000 pensamentos.
Eu escrevo poesia porque sem razão sem porquê.
Eu escrevo poesia porque é o melhor caminho para dizer tudo o que penso dentro de 6 minutos ou uma vida inteira.
1 172

História de Gregory Corso

Na primeira vez que fui
ao campo a New Hampshire
lá pelos oito anos de idade
havia uma garota
que eu costumava amolar com um pedaço de pau.

Apaixonados,
tiramos nossas roupas ao luar
em minha noite de despedida
mostrando nossos corpos um ao outro
aí corremos cantarolando de volta pra casa.

10 de dezembro, 1951
394

Porque Deus é amor, Jack?

Porque eu me deito
sobre este leito,
Porque eu choro
numa sala sepultada
Porque meu coração
naufraga
Por causa dessa
minha graça
de pança e seus
suaves suspiros –
conhecido
soluçar de meu seio
serenado pelo
toque –
Porque eu me assusto –
Porque ergo a minha
voz e canto
ao meu eu amado –
Porque vos amo sim
meu querido,
meu outro, minha
noiva viva
meu amigo, amo antigo
de suaves olhos –
Porque pertenço ao
Poder da vida & não
posso fazer nada
senão ceder à
sensação de ser um
Perdido
Correndo ainda atrás da
excitação – gozo
delicioso do
coração abdômen quadris
& coxas
Sem recusar meus
38a. 65kg de cabeça
tronco & membros
Nem nenhumazinha de minhas
unhas Whitmaníacas
Nem banir meus cabelos
pro inferno eterno,
Porque sob este manto mecânico
Confesso meu desejo inconfessável.

Nova York, 1963
723

Citações

4

Obras

3

Videos

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