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Poemas neste tema

Relações e Família

Alda Pereira Pinto

Alda Pereira Pinto

Scherzos

Ora, meu chapa, te esguia...
tu vives sempre implicando
com meu modo de viver.
Sou prosa, sei que sou prosa,
pois nada devo a ninguém
e por isso tu me acusas
de convencida e orgulhosa.

Se acaso escondo o meu jogo
de alguma amiga ou parenta
que quer dinheiro emprestado
tu vens logo xeretando
e chamar-me de avarenta

Se desejo ter o trato
que tem a nossa vizinha
mais feia que um chimpanzé
mas, granfa e sempre cheirosa,
e fico olhando a perua
do buraco da janela,
o meu humor envenenas
como se eu fosse invejosa.

Se a cozinheira me chama na hora agá da novela,
no momento em que o bacana
está cantando a boazuda
e eu raspo uma espinafrada
na chatona de galocha,
tu bancas o imaculado
de mãos postas: queridinha,
a ira é grande pecado!

De manhã, se acho bacana
ficar na cama um pouquinho
enquanto tomas café,
vens com a cara pendurada,
igual a um velho gagá,
entre os dentes resmungando:
preguiçosa, preguiçosa...

Quando vou ao restaurante,
só porque olho o cardápio
e prefiro um vatapá
com castanha e amendoim,
uma pizza, uma fritada,
um macarrão com almôndegas,
um arroz, uma salada
com creme de leite e vinho,
um pudim de chocolate
e por cima um cafezinho,
me olhas com olhar tão terno,
mas lá bem dentro de ti
tua voz grita: gulosa
vai comer assim no inferno.

Tu me chamas fogueteira,
sapeca, luxurienta,
sem motivo, à-toa, à-toa,
porque já de longa data
tu pifaste, meu querido,
e eu prossigo, e muito boa.

És anjinho e eu carrego
os pecados de satã,
mas não te darei pelota.
Para mim só é pecado
ser bucho, ser idiota,
é querer comprar um teco
e não ver na bolsa a nota,
é guardar grande desejo
de chapoletar alguém
e em vez disso dar-lhe um beijo,
é ter um bom apetite
e só comer vegetais,
é vontade de mandar
todo dia uma brasinha
e ficar de olhinhos baixos
com ares de pomba-rola
num altar de uma santinha.

E, que o bom Deus me perdoe
se estou dizendo heresia,
pecado é ficar zanzando
pela vida dando murros,
é dormir noites inteiras
sem os prelúdios do amor,
é trabalhar no pesado
suando tal qual os burros.

Se tua achas que ao meu lado
estás, por teres pecado
numa outra encarnação,
cumprindo uma triste sina,
te manca, meu bobalhão,
dá meu desquite e vai ver
tua avó lá noutra esquina.

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Rita Barém de Melo

Rita Barém de Melo

Vem!

Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.

Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.

Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!

Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.

Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.

Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.

Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -

Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...

"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!

Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!

"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"

(Rio Grande, julho de 1867)



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