Emoções e Sentimentos
Fernando Pessoa
CONSELHO
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faz canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faz de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
(Sudoeste, nº 3, Novembro de 1935)
Fernando Pessoa
16 - Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Fernando Pessoa
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e não me sinto pensar.
13/06/1930
Fernando Pessoa
23 - O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...
Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso...)
Mário de Sá-Carneiro
Rodopio
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Mário de Sá-Carneiro
Rodopio
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Mário de Sá-Carneiro
Rodopio
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros…
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas d’heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor…
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços…
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas d’oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios
Listas de som enveredam…
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos d’anseantes…
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas —
Um lenço, fitas, dedais…)
Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer…
Há vácuos, há bolhas d’ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas —
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!…
Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
Filipa Leal
A cidade líquida
lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água.
Como sobreviver a uma cidade líquida?
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios,
os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na
soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os
marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a
entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em
plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os
lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A
cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras
cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.
Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam
aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e
de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior
das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram
soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade
líquida.
(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)
Herberto Helder
4D
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.
Marcelo Montenegro
Joseph Mitchell
a torneira do chuveiro
como quem ausculta
o segredo de um cofre.
Como diria Herberto Helder,
do“nosso dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo”.
Falo de um músico
cuja maior virtude
está nas notas que não toca.
Dos filmes que não se privam
dos tempos mortos.
Sim: falo de entregar o ouro.
De alguma espécie
de alvenaria efêmera.
Das narrativas que iluminam
o que deixaram de fora.
Ana Marques Gastão
Alvo
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
Manoel Herzog
FIM DE NOITE
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
Manoel Herzog
FIM DE NOITE
Se esvai num minuto
Tão louco que escuto
Vozes que não ouço.
Tão louco que dentro
De mim grita um fauno
Que toca uma flauta,
Tão louco que é calmo
Tão louco que d’antes
Já fora de noite
Agora amanhece
E eu aqui, tão louco.
Louco fim de noite
No fim solitário.
Riam-se os malandros
Deste pobre otário.
Tão louco, maluco,
Caduco e demente
Cena deprimente
De final de festa
Tão louco me sinto
Doido quando todos
Ficaram caretas
E eu pareço um bobo
Que ainda me rio,
Que ainda, até, flerto,
Tão louco, coberto
Das razões da vida.
Tão louco me tenho
No final de tudo.
Todos se arrumaram,
E eu fiquei sozinho.
Manoel Herzog
O HOMEM QUE VIROU SAMBA
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
Manoel Herzog
O HOMEM QUE VIROU SAMBA
Não bebe, não fuma pedra
Só vive na rua, mendigo.
Às vezes toma chuva e nem liga
Dorme atrás do cemitério
E seu cobertor fede a mijo.
Dizem que Altino tinha casa
Era mecânico da Volks, ganhava bem
Tudo na vida dele ia.
Um dia a mulher de Altino
Largou ele e foi morar na rua
Com um velho mendigo
Que não tinha merda nenhuma pra oferecer pra ela.
Depois dessa desilusão Altino agarrou de ser mendigo
Talvez na esperança que ela volte pra ele
Já que ela gosta é disso.
Filipa Leal
Manual de despedida para mulheres sensíveis
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
Filipa Leal
Manual de despedida para mulheres sensíveis
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.
É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
Manoel Herzog
AMOR INDIGENTE
É o mesmo amor que em mim é reprimido
Por quem diz: “Faça assim, não faça assado”.
Eu não suporto ninguém no comando.
Aquele amor que trago sufocado
O dia todo e que te entrego à noite
É o mesmo amor que têm os vagabundos,
Mas, meu amor, não chores só por isso.
O meu amor não pode ser mais puro
Pois meu amor nasceu numa sarjeta,
O meu amor nasceu alcoolizado,
Blasfema, arruma confusões, e apanha.
O meu amor, que às vezes te acompanha
Se dói por não acompanhar-te sempre
É porque o meu amor às vezes sente
Vontade de ir só por aí, vagando.
O meu amor, que eu acabo te dando,
Não, ele não é teu, nem meu tampouco –
Entende, meu amor é muito louco,
Demora a levantar e perde a hora.
O meu amor bate o ponto atrasado
E, quando chega no trabalho, chora.
Amália Bautista
Os meus melhores desejos
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.
Amália Bautista
Os meus melhores desejos
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.
Filipa Leal
Vale Formoso II
O pianista trazia a mulher pianista, o filho
que preferia jogar às cartas, e um grande saco de maçãs.
À refeição, servida no alpendre, contou que vivia no campo
e que procurava em Lisboa uma casa onde coubesse
com a sua mulher, o filho de ambos, e três pianos.
Fiquei preocupada com a família do pianista
— eram três —
e com a família de pianos
— eram três —
e pareceu-me melhor avisá-los de que seria difícil encontrar uma casa onde coubesse tudo aquilo
e a macieira.
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»