Joseph Mitchell
Falo de dias frios. De movimentar
a torneira do chuveiro
como quem ausculta
o segredo de um cofre.
Como diria Herberto Helder,
do“nosso dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo”.
Falo de um músico
cuja maior virtude
está nas notas que não toca.
Dos filmes que não se privam
dos tempos mortos.
Sim: falo de entregar o ouro.
De alguma espécie
de alvenaria efêmera.
Das narrativas que iluminam
o que deixaram de fora.
Desassossegos
García Lorca
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro
Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul
Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade
Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade
Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou
Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
Literatura comparada
Quando o MUNDO é um cruzamento
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
Katia
O escritor Hank, na série
Californication, implora
ao telefone para que sua
mulher volte. Diz que,
sem ela, não sabe diferenciar
o sublime do ridículo.
De outra forma, o poeta,
neste poema, quer dizer
que em sua mulher
moram todos os seus
textos em modo futuro.
Como Patti Smith em
Só garotos. Ela escreve
que seu companheiro,
Robert Mapplethorpe,
costumava dizer a ela
sobre os seus trabalhos:
“Nada está terminado
até você olhar”.
Cinecittà
Sabe aqueles sonhos em que você entra num consultório e quem te atende é a desconhecida que acendeu seu cigarro ontem à tarde? Depois você sai de lá e dá de cara com a praça em que brincava de balanço na sua infância? Aqueles posts que merecem curtidas tanto da sua tia Marta quanto de escritores que você admira? Você pode, quem sabe, recorrer a Freud no primeiro caso. No segundo, considerar, vá lá, um atestado de qualidade um texto conseguir chegar a dois planetas tão díspares – de algum modo, ele resvalou no nervo de algo, você pensa. Mas, posto em perspectiva, o que fica talvez seja apenas isso: sua vida, quando muito, não passa de um bairro maluco.
Mulher com chapéu
Consta que no Salão
de Outono de 1905,
uma assistente da
exposição apontou
indignada para o quadro
Mulher com chapéu,
no qual Matisse
havia retratado sua esposa:
“Não existe uma
mulher com nariz
amarelo!”. Ao que
o pintor respondeu:
“Não é uma mulher,
senhora. É um quadro”.
Eu costumava grifar meus livros
Um medo danado de nunca mais me deparar
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
Cabaré
para Paulo de Tharso (in memoriam) e Ester Laccava
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
Forte apache
Noel Rosa dizia que era universal sem sair de
seu quarto. Elvis Costello disse que o rock‘n’roll
não morrerá porque sempre vai ter um garoto
trancado em seu quarto fazendo algo que ninguém
nunca viu. Laura Riding, por seu turno, falava
da pretensão de “escrever sobre um assunto/
que tocasse todos os assuntos/ Com a pressão
compacta do quarto/ Lotando o mundo entre meus
cotovelos”. Já François Truffaut considerava-se
pertencente a uma família de cineastas que
praticava uma espécie de “cinema do quartinho
dos fundos, que recusa a vida como ela é” —
como“nas brincadeiras de crianças, quando
refazíamos o mundo com nossos brinquedos”.
Como escreveu Ferreira Gullar no Poema sujo,
“que me ensinavam essas aulas de solidão”?
Aliás, é Pascal quem avisa: todos os males
derivam do fato de que não somos capazes
de permanecer tranquilos em nossos quartos.
Bruxismo
Isto podia ser outra coisa. Uma bebedeira, por
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.