Alexei Bueno

Alexei Bueno

n. 1963 BR BR

Alexei Bueno é um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro, reconhecido por sua obra que transita entre a tradição e a modernidade, com forte influência da metalinguagem e da reflexão sobre a própria arte de escrever. Sua poesia é marcada por um rigor formal, pela exploração da linguagem e por temas que incluem a memória, o tempo, a identidade e a busca pelo sentido. Com uma vasta produção que abrange livros de poesia, ensaios críticos e traduções, Alexei Bueno se estabeleceu como uma voz singular na literatura brasileira contemporânea, dialogando com mestres do passado e propondo novas abordagens estéticas.

n. 1963-04-26, Rio de Janeiro · m. , Buenos Aires

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Transmutação

Transmutação

Nascemos carne. E a cada dia

Nos vamos transformando em sonho.

Há sempre um patamar tristonho

Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos

E nunca vimos. Sempre há um morto

Que bate à porta. Há sempre um porto

Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira

Que não se acaba há muitos anos.

Há uma mulher, nua entre panos,

Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado

Como um licor, que nós subamos

Por ele abaixo, nós que vamos

Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.

No meio a confusão das luas.

Ah! quem voltasse às mesmas ruas

Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída

Certa e voraz, e, dessa sorte,

Fosse afastando-se da morte

Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse

Nos seus eus idos, e fugisse

Por si acima, até que ouvisse

O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.

Somos o fio que desfaz

Toda a tapeçaria, mas

Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar

De crianças rijas que já fomos,

Vamos como explodindo em gomos

De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento

Cada vez mais. As nossas casas

Grãos que o sol doura. Soam asas

No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,

Para ser sonho, mães de sonho.

Há sempre um pássaro medonho

Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos

Na íntima praça inexistente.

Há um branco sol sempre presente

Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.

E escadas. E a manhã na feira

Que vai durando a vida inteira.

Há o patamar. E um beijo. E a porta.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Alexei Bueno (nome completo Alexei de Assis Bueno) é um poeta, ensaísta, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu em São Paulo, em 26 de agosto de 1963. Sua origem familiar e cultural o colocou em contato com o universo das artes e das letras desde cedo. É um intelectual atuante na cena cultural brasileira, com produção escrita em português.

Infância e formação

Alexei Bueno teve uma formação marcada pelo contato com a literatura e a arte, influenciado por seu ambiente familiar. Demonstrou desde cedo um interesse pela leitura e pela escrita, desenvolvendo um gosto pela tradição literária clássica e moderna. Sua formação intelectual foi aprofundada pelo estudo autodidata e pela imersão em diversas correntes filosóficas e estéticas.

Percurso literário

O início da carreira literária de Alexei Bueno se deu com a publicação de seus primeiros poemas, que já evidenciavam um rigor formal e uma preocupação com a linguagem. Ao longo de sua trajetória, publicou diversos livros de poesia, ensaios críticos e participou ativamente da cena literária brasileira, colaborando com revistas e antologias. Sua obra se caracteriza por uma evolução constante, explorando novas formas de abordar temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas destacam-se "O Livro das Ignorâncias" (1994), "A Mão da Manhã" (1996), "O Corvo e o Beija-Flor" (2001), "Os Ossos do Mundo" (2005) e "O Sonho de um Beija-Flor" (2012). Seus temas centrais incluem a memória, o tempo, a identidade, a relação entre o ser humano e a natureza, a metalinguagem e a própria poesia. Bueno explora a fragilidade da existência, a efemeridade das coisas e a busca por um sentido. Seu estilo é marcado por uma linguagem culta e precisa, com um forte senso de musicalidade e ritmo. Utiliza recursos como a metáfora, a aliteração e a assonância de forma a criar imagens vívidas e evocativas. O tom de sua voz poética é frequentemente reflexivo, melancólico e contemplativo, abordando temas existenciais com profundidade e sensibilidade. Alexei Bueno demonstra um profundo diálogo com a tradição literária, absorvendo influências de poetas como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, entre outros, ao mesmo tempo em que busca inovações formais e temáticas. Sua obra se insere em uma linha de continuidade com o modernismo brasileiro, mas com uma abordagem contemporânea que dialoga com a poesia pós-moderna.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alexei Bueno produz em um período de consolidação da literatura brasileira contemporânea, marcado por uma diversidade de estilos e abordagens. Ele dialoga com outros poetas e intelectuais de sua geração, participando de debates sobre a literatura e a cultura. Sua obra, embora muitas vezes introspectiva, reflete as inquietações do mundo contemporâneo, com sua velocidade, fragmentação e busca por sentido.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe publicamente sobre a vida pessoal de Alexei Bueno, o que sugere um perfil mais reservado, focado em sua produção intelectual. Sua dedicação à literatura, seja como poeta, ensaísta ou tradutor, é o aspecto mais proeminente de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Alexei Bueno é reconhecido como um dos importantes poetas brasileiros contemporâneos, com uma obra que tem sido objeto de estudo e admiração pela crítica literária. Sua participação em festivais literários e a publicação de seus livros em editoras de prestígio atestam seu lugar no cenário literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Alexei Bueno foi influenciado por uma rica tradição literária, tanto nacional quanto internacional, incluindo poetas clássicos e modernos, bem como filósofos e pensadores. Seu legado reside em sua poesia que alia rigor formal, profundidade temática e uma linguagem de grande beleza e musicalidade. Ele contribui para a renovação da poesia brasileira, ao revisitar a tradição com um olhar contemporâneo e inventivo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Alexei Bueno oferece um vasto campo para interpretação, abordando questões existenciais profundas, a natureza da percepção e a relação entre a linguagem e a realidade. Seus poemas convidam à meditação sobre o tempo, a memória e a busca por identidade em um mundo em constante transformação. A metalinguagem é um elemento constante, convidando o leitor a refletir sobre o próprio ato de criar e interpretar a arte.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora seja um intelectual prolífico, Alexei Bueno mantém uma certa discrição em relação à sua vida pessoal, focando sua energia na produção de sua obra. Seu trabalho como tradutor de obras fundamentais demonstra sua amplitude de conhecimento e sua dedicação à disseminação da literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Alexei Bueno está vivo e continua sua produção literária, contribuindo ativamente para a literatura brasileira contemporânea.

Poemas

6

Transmutação

Transmutação

Nascemos carne. E a cada dia

Nos vamos transformando em sonho.

Há sempre um patamar tristonho

Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos

E nunca vimos. Sempre há um morto

Que bate à porta. Há sempre um porto

Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira

Que não se acaba há muitos anos.

Há uma mulher, nua entre panos,

Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado

Como um licor, que nós subamos

Por ele abaixo, nós que vamos

Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.

No meio a confusão das luas.

Ah! quem voltasse às mesmas ruas

Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída

Certa e voraz, e, dessa sorte,

Fosse afastando-se da morte

Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse

Nos seus eus idos, e fugisse

Por si acima, até que ouvisse

O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.

Somos o fio que desfaz

Toda a tapeçaria, mas

Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar

De crianças rijas que já fomos,

Vamos como explodindo em gomos

De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento

Cada vez mais. As nossas casas

Grãos que o sol doura. Soam asas

No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,

Para ser sonho, mães de sonho.

Há sempre um pássaro medonho

Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos

Na íntima praça inexistente.

Há um branco sol sempre presente

Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.

E escadas. E a manhã na feira

Que vai durando a vida inteira.

Há o patamar. E um beijo. E a porta.

2 051

O Bordado Cruel

Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.

E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.

Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,

E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.

Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo

Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...

Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,

E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.

E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,

Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,

E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.

Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,

E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores

E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,

Todo o amargor das profecias mortas!

1 404

A Florbela Espanca

Amada, por que eu tive a tua voz
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!...

Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!

Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.

E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!

1 445

OrÆ MaritimÆ

Este é o tempo das barcaças.
O mar sempre resta! O mar
É a massa de modelar
Do vento fazer desgraças.

Ah! que profunda alegria!
Vontade de comer ervas!
Pastar! Nova fantasia!
Erguer as salas das servas!

Sim! Pastar! Grama molhada
Onde brilha verde o sol!
Cuspir ostras de um farol
Numa barba almirantada!

Adeus! Irei pelos campos
Mordendo a grama com ardor
No meio dos pirilampos
Qual Nabucodonosor.

Destroçarei com meus dentes
As ovelhas desgarradas
E os pastores nas estradas
Me caçarão descontentes.

Mas sem me achar. Pois ao mar
já terei saltado então
Soltando gritos pelo ar
Como um pássaro poltrão.

Até que chegue a um navio
E urrando cheio de rum
Mate a todos, um por um,
Até deixá-lo vazio.

Então me dirijo a um porto,
Contrato a ralé da escória
E em capitão meio torto
Me sagro cheio de glória!

Pelos mares e oceanos
Baleia Bêbada é o barco!
O terror prepara o charco
Do pântano dos meus planos!

Mil cascos são abordados!
Embebedam-se os bebês!
Os varões viram varados!
E as damas lutam com seis!

Junto o ouro, o ouro, o ouro!
Os homens andam na prancha
E a minha pele se mancha
Das cores do meu tesouro!

O sol é dourado! O sol
É uma moeda afinal
Que ofusca, e que no arrebol
Tomba em seu cofre de sal!

A luz! A luz é a vida!
Mas a sinistra caterva
Só quer beber, e me enerva
Dançando entenebrecida.

Pulando do alto dos mastros
Como macacos no azul
E vomitando nos astros
Ondas de prata e paul.

Bebem, bebem noite e dia,
Vagalhões de vinho e gim
E só lhes surge no fim
Uma nenhuma alegria.

Enquanto a escutar o baque
De cada grogue que rola
Fazendo as contas do saque
Minha alma se enche de cola.

Imóvel, noites a fio,
Escriturando o tesouro
Enquanto como um besouro
Voa zunindo o navio.

Mas não! Não foi para isto
Que fugi de toda a terra!
Estranha estátua de Cristo
Largada nos chãos da guerra!

Não! Surge o sol. É a aurora!
Com um grito, armado de um pau,
Vou surrando toda a nau
Jogando os homens pra fora!

Pela borda! Urra! É a alegria!
Todos caem! Lá na água
Os tubarões neste dia
Não sentirão qualquer mágoa!

Jogo o resto deles! Lanço
Um lampião no paiol!
Tudo explode! Rumo ao sol
Como um foguete eu avanço!

Vou voando, enquanto chove
Minha gorda arca roubada
Sobre o mar que se comove,
Como uma chuva dourada!

Subo. Subo. O sol se amplia.
Desmaio. Acordo caindo
No continente, e ele rindo
Abre a bocarra sadia.

Vou tombar bem numa igreja!
Os fiéis, sem compreender,
Rezando, temem que eu seja
Um anjo, e choram, por crer!

Surro todos eles. Corro
Para o campo. Atrás de mim
Ferozes, com o seu mastim,
Vêm já os pastores de gorro.

Depois os donos do barco,
E os parentes dos saqueados,
E os outros, de amor bem parco,
Surgem por todos os lados!

Querem todos me pegar!
Vêm correndo! Chegam perto!
Mas como um monstro desperto
Eu paro e grito a babar!

Vôo em cima deles! Chuto
Suas cabeças sem nada!
Quebro, espanco, e como um bruto
Fujo da terra empestada!

Fujo, idiota e feliz,
Para o sol, o sol, o sol,
Que ri como um grande atol
De dentes de ouro e de giz!

Fujo, correndo, a alma fora,
Sorrindo, o eleito do dia,
Até chegar aonde mora
A eterna e interna alegria!

Em busca de algo, o futuro,
Que ri porque vai viver
E já boceja a se erguer
Enquanto me olha do escuro

Chegando lá, e escarrando
No que houve antes, e assim
Gargalhando, e vos rasgando,
Vida e versos. Logo: Fim!

1 253

Ode IX

Só superando encontramos alguma alegria,
Escravos dialéticos de um delírio de opostos,
Só esmagando, só conquistando, nunca por nós mesmos repletos,
Só penetrando nos muros. E quantas cidades tomadas,
Mesmo portão gargalhando e estirando uma língua de fogo,
Gritam vermelhas e ardem nas nossa íris exaustas.

Só pisando subimos,
Só derrotando vencemos,
Só conformando o outro a nós o amor nos alcança,
E tudo isso com sermos, seguramente sermos o outro
Até que nada nos reste de escapatória ou abrigo.

Não somos, não seremos nunca
Como Dionisos, ébrio conquistando a Índia
Entre tambores e tirsos, aclamado das ninfas, dos sátiros,
Um ramo de vinha é o seu chicote, um nariz vermelho a sua espada,
E os conquistados o aplaudem e beijam e vêm engrossar o triunfo
Que Pã conduz na vanguarda, tocando na flauta.

...Mas onde estará ele agora, em que escarpa, em que umbrosa
Solidão de enluarados galhos, rirá ainda o pai da alegria?
Nenhum devoto liba em suas aras, os ecos somente
Veneram-no ainda. De que rirá, que verá que nós nunca veremos,
O desterrado senhor de um plácido pacto entre os homens,
Enquanto nós por aqui, às seis horas da tarde,
Em meio às latas de lixo, descemos em bando às entranhas da terra?

Fulminante é qualquer nossa glória, pisando os caídos,
Que outra alegria além desta e da arte, da prece e do amor nos foi dada?

( — Ouçam, nenhum navio aparecerá.
Que ficará de nós? E no entanto matamos,
Sem pena, sem pranto, por sermos por último a festa dos peixes.)

Pois vejam como ele caminha,
Vejam como ele avança,
O filho de Filipe, o descendente de Hércules, deiforme e invicto,
Vejam como ele marcha
Sobre Darios vencidos e humilhadíssimas púrpuras,
E abraça as muralhas, e salta os desertos, e aplaina as montanhas,
Novo Aquiles sem flecha de Páris que o acerte, humanismo deus
Musculoso e potente em beleza triunfante.

Se nos fosse dado ser isso,
Um Alexandre cada um, varrendo a Terra,
Plena nos seria a vida. Mas a bonança é a nossa inimiga,
A calmaria, não a tempestade, é que nos espera ao varar o oceano,
Nos desfiladeiros minúsculos, com o único perigo do nada,
é que nós marcharemos,
Ainda que borbulhe em nós o canto do deus, e Amor Vencedor,
Durante ou após nosso olhar, pisoteie a disputa dos vermes.

( — E mesmo que venha o navio
Que seremos além de uma sombra na história dos astros?)

E ele continua
Até a Bactriana, a Índia novamente
Sem tirsos, sem vinha, dançando despido, tomado
Da ígnea plenitude de um deus,
Como nós nunca fomos, até que um mosquito,
Invulnerável, divino, o aferroe e destrua
na corrupta cidade de inúmeras portas.

(O esquecimento é a nossa lepra, e assim, no dia final
Um dos quinze falou, um navio passara sem vê-los:
— Gravemos numa tábua nossos nomes, tudo o que sofremos,
E a preguemos no mastro. Assim talvez os homens conheçam
O que nós passamos, nós, os da Medusa. —
Todos os conheceram. Mas um pintor tosquiado,
Unicamente, o soube.)

Não, não é esta a vitória,
Antes com Roxane na beira do rio
Qual Dionisos sábio consolando Ariadne
Na vermelha Naxos.

Não é essa a vitória. Não escutes, bêbado
Com a miragem cósmica, o conselho de Krishna
Ao indeciso Arjuna,
Pois se tudo é guerra,
E o tempo a guerra é infindável, sejamos o vento
Que sussurra entre as armas, sejamos a terra
Que os sequiosos exércitos sonham e que é de ninguém,
E o silêncio imóvel
Entre dois estampidos, que a ambos devora!

Sejamos
No fragor de estandartes, a ave que os roça,
Na orgia do fogo,
A chuva infantil que inesperada desce,
No borbulhar das almas o sono viscoso
Dos caracóis no lodo,
No estampado em pânico das pegadas fugindo
Do chão que as convida
A relva que o cobre.

Pois nosso é o poder e a glória, e do que lacerarmos
No nosso corpo, o que existe, cairá nosso sangue na terra.

1 291

Pergunta

Será realmente a face do universo

a face da Medusa,

esta geral destruição confusa,

este criar perverso,

ou será a máscara,álgida e estrelada,

onde os cometas passam,

turva de treva,rútila de nada,

e onde olhos se espedaçam?

1 333

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