Marcelo Montenegro

Marcelo Montenegro

n. 1971 BR BR

Marcelo Montenegro é um poeta e tradutor brasileiro. A sua obra poética explora frequentemente a relação entre a palavra, o corpo e a memória, com um tom introspectivo e por vezes melancólico. Montenegro é também um importante tradutor de autores de língua inglesa, contribuindo para a divulgação de obras significativas na literatura brasileira. A sua poesia é marcada pela precisão vocabular e pela exploração das nuances da experiência humana.

n. 1971, São Caetano do Sul, SP

17 371 Visualizações

Joseph Mitchell

Falo de dias frios. De movimentar
a torneira do chuveiro
como quem ausculta
o segredo de um cofre.
Como diria Herberto Helder,
do“nosso dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo”.
Falo de um músico
cuja maior virtude
está nas notas que não toca.
Dos filmes que não se privam
dos tempos mortos.
Sim: falo de entregar o ouro.
De alguma espécie
de alvenaria efêmera.
Das narrativas que iluminam
o que deixaram de fora.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Marcelo Montenegro é um poeta e tradutor brasileiro. A sua obra poética é reconhecida pela exploração de temas como a memória, o corpo e a linguagem.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a sua infância e formação específica não estão amplamente disponíveis na literatura geral.

Percurso literário

Montenegro estabeleceu-se como um poeta com uma obra consistente e como um tradutor de relevo, vertendo para o português obras de autores estrangeiros.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Marcelo Montenegro caracteriza-se pela sua introspeção, pela investigação da relação entre palavra e corpo, e pela forma como a memória se manifesta na experiência presente. O seu estilo é marcado pela precisão vocabular e por uma sensibilidade para as nuances emocionais e existenciais. O uso de recursos como a metáfora e a exploração da musicalidade do verso contribuem para a riqueza da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Insere-se na contemporaneidade literária brasileira, dialogando com as correntes poéticas que exploram a subjetividade e a reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a sua vida pessoal que influenciaram diretamente a obra são escassos na informação pública disponível.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Tem sido reconhecido pela crítica e por leitores pela qualidade da sua poesia e pela importância das suas traduções.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Como tradutor, contribui para o intercâmbio cultural e literário. Como poeta, a sua obra expande as discussões sobre a linguagem, o corpo e a memória na poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A sua obra convida à reflexão sobre a natureza da existência, a fragilidade humana e o poder da linguagem em dar forma às experiências mais íntimas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O seu trabalho como tradutor, que abrange um leque variado de autores, demonstra uma profunda dedicação à literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marcelo Montenegro encontra-se vivo e continua a sua produção literária.

Poemas

14

Joseph Mitchell

Falo de dias frios. De movimentar
a torneira do chuveiro
como quem ausculta
o segredo de um cofre.
Como diria Herberto Helder,
do“nosso dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo”.
Falo de um músico
cuja maior virtude
está nas notas que não toca.
Dos filmes que não se privam
dos tempos mortos.
Sim: falo de entregar o ouro.
De alguma espécie
de alvenaria efêmera.
Das narrativas que iluminam
o que deixaram de fora.
1 228

Cinecittà

Sabe aqueles sonhos em que você entra num consultório e quem te atende é a desconhecida que acendeu seu cigarro ontem à tarde? Depois você sai de lá e dá de cara com a praça em que brincava de balanço na sua infância? Aqueles posts que merecem curtidas tanto da sua tia Marta quanto de escritores que você admira? Você pode, quem sabe, recorrer a Freud no primeiro caso. No segundo, considerar, vá lá, um atestado de qualidade um texto conseguir chegar a dois planetas tão díspares – de algum modo, ele resvalou no nervo de algo, você pensa. Mas, posto em perspectiva, o que fica talvez seja apenas isso: sua vida, quando muito, não passa de um bairro maluco.
1 016

Katia

O escritor Hank, na série
Californication, implora
ao telefone para que sua
mulher volte. Diz que,
sem ela, não sabe diferenciar
o sublime do ridículo.
De outra forma, o poeta,
neste poema, quer dizer
que em sua mulher
moram todos os seus
textos em modo futuro.
Como Patti Smith em
Só garotos. Ela escreve
que seu companheiro,
Robert Mapplethorpe,
costumava dizer a ela
sobre os seus trabalhos:
“Nada está terminado
até você olhar”.
1 125

Ensaios

1.
Nelson Cavaquinho é o Ingmar Bergman do samba;
AC/DC, os James Browns do metal;
Marcelo Nova foi o Toquinho do Raul;
o seu Francisco (a duas quadras daqui de casa)
é o Shakespeare dos pastéis; Ramones
são Beatles arruaceiros; Faulkner, um pedreiro
experimental; Lou Reed é um Frank Sinatra
roto; Carver é Hooper (em formato conto);
Tom Zé é um misto de Marcel Duchamp
com Jackson do Pandeiro; Seinfeld é Homero.

2.
Beatles é uma perfeição
a que a humanidade
raramente chega.
É Tchékhov, Rilke, Pelé
e Coutinho, Nonas
Sinfonias, Ilíadas, Catherine
Deneuves, pirâmides
egípcias de três minutos.
1 201

Literatura comparada

Quando o MUNDO é um cruzamento
movimentado cujo semáforo pifou.
FUTURO é um cartaz de filme antigo
num cinema que já fechou.
ANGÚSTIA é esse instante
durando meses. AFETO
é uma conversa entre velhos amigos
no bar mais próximo ao velório de um deles.
MARCOS REY
foi meu Chuck Berry da literatura.
CARNE MOÍDA é o leite
condensado das misturas.
PA Zé sorrir por dentro. POSTAIS
são imagens pingando
das goteiras do tempo.
ENTRAR é o começo
de sair. “SER ORIGINAL
é tentar ser como os outros
e não conseguir”.
ACADEMIA é a repartição pública
do corpo. SIMPLICIDADE
é a superfície do topo.
FRACASSO é o abajur da sorte.
CANTAR é roubar
uns minutos da morte.
1 090

Spoiler

Lembro que você me contou
uma história incrível.
Embora não lembre a história,
sou capaz de soletrar,
inclusive, a brisa que,
por um microssegundo,
inflou a cortina da sala.
(Um pedacinho de uma tarde
dentre as trilhões de tardes
que existiram naquela tarde.)
Lembro as pausas,
a música dos seus braços,
o cabelo tirado do rosto
no momento exato.
(Um bombom de ternura
com licor de naufrágio.)
1 203

Cabaré

para Paulo de Tharso (in memoriam) e Ester Laccava

E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
1 132

Desassossegos

García Lorca
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro

Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul

Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade

Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade

Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou

Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
603

Eu costumava grifar meus livros

Um medo danado de nunca mais me deparar
com aquela frase. Depois passei a achar que
os grifos direcionavam muito as releituras.
E os substituí por microdobradinhas nas
páginas. (Cocteau: “Uma única frase, e o
poema todo é levado aos céus!”.) Mas se
este método tem a provável vantagem de
atenuar a arbitrariedade e a feiura dos grifos,
algumas vezes, no entanto, ao reler estas
páginas, não encontrava o motivo delas
terem sido condecoradas com a dobradinha,
ou achava mais de um motivo para tanto.
Coisas de louco com as quais, bem ou mal,
“abastecemos nossa obsessão” (Philip Roth).
Penso até que a literatura se alimenta desse
medo. (Waly Salomão: “Escrever é se vingar
da perda”.) Afinal, de onde vêm os versos
senão dos grifos e dobradinhas que aplicamos
na existência, momentos que roubamos do mundo,
instantes que nossas solidões recrutam para
(W.B. Yeats) o “imundo ferro-velho do coração”?
1 151

Mulher com chapéu

Consta que no Salão
de Outono de 1905,
uma assistente da
exposição apontou
indignada para o quadro
Mulher com chapéu,
no qual Matisse
havia retratado sua esposa:
“Não existe uma
mulher com nariz
amarelo!”. Ao que
o pintor respondeu:
“Não é uma mulher,
senhora. É um quadro”.
1 388

Livros

2

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.