Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Manuel Bandeira
Volta
Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!
Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!
Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
1 097
1
Manuel Bandeira
Boda Espiritual
Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
1 377
1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
1 398
1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
1 398
1
Manuel Bandeira
Soneto Inglês Nº 2
Aceitar O castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
1 398
1
José Saramago
Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
1 458
1
Pablo Neruda
Manhã - VI
Nos bosques perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino fendido ou um coração cortado.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério
como se me buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aroma errante.
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino fendido ou um coração cortado.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério
como se me buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aroma errante.
1 246
1
Allen Ginsberg
América
América eu te dei tudo e agora não sou nada.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não aguento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.
Deve haver algum jeito de resolver isso.
Burroughs está em Tânger acho que ele não volta mais isso é sinistro.
Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?
Estou tentando entrar no assunto.
Eu me recuso a desistir das minhas obsessões.
América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.
América as pétalas das ameixeiras estão caindo.
Faz meses que não leio os jornais todo dia alguém é julgado por assassinato.
América fico sentimental por causa dos Wobblies.
América eu era comunista quando criança e não me arrependo.
Fumo maconha toda vez que posso.
Fico em casa dias seguidos olhando as rosas no armário.
Quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.
Eu resolvi vai haver confusão.
Você devia ter me visto lendo Marx.
Meu psicanalista acha que estou muito bem.
Não direi as Orações ao Senhor.
Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.
América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.
Eu estou falando com você.
Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?
Estou obcecado pelo Time Magazine.
Eu o leio toda semana.
Sua capa me encara toda vez que passo sorrateiramente pela confeitaria da esquina.
Eu o leio no porão da Biblioteca Pública de Berkeley.
Está sempre me falando de responsabilidades. Os homens de negócios são
sérios. Os produtores de cinema são sérios. Todo mundo é sério menos eu.
Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.
A Ásia se ergue contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2.000 quilômetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
Aboli os prostíbulos da França, Tânger é o próximo lugar.
Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.
América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?
Continuarei como Henry Ford meus versos são tão individuais como seus carros mais ainda todos têm sexos diferentes.
América eu lhe venderei meus versos a 2.500 dólares cada com 500 de abatimento pela sua estrofe usada.
América liberte Tom Mooney
América salve os legalistas espanhóis.
América Sacco & Vanzetti não podem morrer
América eu sou os garotos de Scottsboro
América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião da célula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores era tudo tão
sincero você não imagina que coisa boa era o Partido em 1935 Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade Mãe Bloor me
fazia chorar certa vez vi Israel Amster cara a cara. Todo mundo devia ser espião.
América a verdade é que você não quer ir à guerra.
América são eles os Russos malvados.
Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.
A Rússia nos quer comer vivos. O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros das nossas garagens.
Ela quer pegar Chicago. Ela precisa de um Reader’s Digest vermelho. Ela quer botar nossas fábricas de automóveis na Sibéria. A grande burocracia dela mandando em nossos postos de gasolina.
Isso é ruim. Ufa. Ela vai fazê os Índio aprendê vermelho. Ela quer pretos bem grandes. Ela quer nos fazê trabalhá dezesseis horas por dia.
Socorro!
América tudo isso é muito sério.
América essa é a impressão que tenho quando assisto à televisão.
América será que isso está certo?
É melhor eu pôr as mãos à obra.
É verdade que não quero me alistar no Exército ou girar tornos em fábricas de peças de precisão. De qualquer forma sou míope e psicopata.
América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.
América dois dólares vinte e sete centavos 17 de janeiro de 1956.
América não aguento mais minha própria mente.
América quando acabaremos com a guerra humana?
Vá se foder com sua bomba atômica.
Não estou legal não me encha o saco.
Não escreverei meu poema enquanto não me sentir legal.
América quando é que você será angelical?
Quando você tirará sua roupa?
Quando você se olhará através do túmulo?
Quando você merecerá seu milhão de trotskistas?
América por que suas bibliotecas estão cheias de lágrimas?
América quando você mandará seus ovos para a Índia?
Eu estou cheio das suas exigências malucas.
Quando poderei entrar no supermercado e comprar o que preciso só com minha boa aparência?
América afinal eu e você é que somos perfeitos não o outro mundo.
Sua maquinaria é demais para mim.
Você me fez querer ser santo.
Deve haver algum jeito de resolver isso.
Burroughs está em Tânger acho que ele não volta mais isso é sinistro.
Estará você sendo sinistra ou isso é uma brincadeira?
Estou tentando entrar no assunto.
Eu me recuso a desistir das minhas obsessões.
América pare de me empurrar sei o que estou fazendo.
América as pétalas das ameixeiras estão caindo.
Faz meses que não leio os jornais todo dia alguém é julgado por assassinato.
América fico sentimental por causa dos Wobblies.
América eu era comunista quando criança e não me arrependo.
Fumo maconha toda vez que posso.
Fico em casa dias seguidos olhando as rosas no armário.
Quando vou ao Bairro Chinês fico bêbado e nunca consigo alguém para trepar.
Eu resolvi vai haver confusão.
Você devia ter me visto lendo Marx.
Meu psicanalista acha que estou muito bem.
Não direi as Orações ao Senhor.
Eu tenho visões místicas e vibrações cósmicas.
América ainda não lhe contei o que você fez com Tio Max depois que ele voltou da Rússia.
Eu estou falando com você.
Você vai deixar que sua vida emocional seja conduzida pelo Time Magazine?
Estou obcecado pelo Time Magazine.
Eu o leio toda semana.
Sua capa me encara toda vez que passo sorrateiramente pela confeitaria da esquina.
Eu o leio no porão da Biblioteca Pública de Berkeley.
Está sempre me falando de responsabilidades. Os homens de negócios são
sérios. Os produtores de cinema são sérios. Todo mundo é sério menos eu.
Passa pela minha cabeça que eu sou a América.
Estou de novo falando sozinho.
A Ásia se ergue contra mim.
Não tenho nenhuma chance de chinês.
É bom eu verificar meus recursos nacionais.
Meus recursos nacionais consistem em dois cigarros de maconha milhões de genitais uma literatura pessoal impublicável a 2.000 quilômetros por hora e vinte e cinco mil hospícios.
Nem falo das minhas prisões ou dos milhões de desprivilegiados que vivem nos meus vasos de flores à luz de quinhentos sóis.
Aboli os prostíbulos da França, Tânger é o próximo lugar.
Ambiciono a Presidência apesar de ser Católico.
América como poderei escrever uma litania neste seu estado de bobeira?
Continuarei como Henry Ford meus versos são tão individuais como seus carros mais ainda todos têm sexos diferentes.
América eu lhe venderei meus versos a 2.500 dólares cada com 500 de abatimento pela sua estrofe usada.
América liberte Tom Mooney
América salve os legalistas espanhóis.
América Sacco & Vanzetti não podem morrer
América eu sou os garotos de Scottsboro
América quando eu tinha sete anos minha mãe me levou a uma reunião da célula do Partido Comunista eles nos vendiam grão de bico um bocado por um bilhete um bilhete por um tostão e todos podiam falar todos eram angelicais e sentimentais para com os trabalhadores era tudo tão
sincero você não imagina que coisa boa era o Partido em 1935 Scott Nearing era um velho formidável gente boa de verdade Mãe Bloor me
fazia chorar certa vez vi Israel Amster cara a cara. Todo mundo devia ser espião.
América a verdade é que você não quer ir à guerra.
América são eles os Russos malvados.
Os Russos os Russos e esses Chineses. E esses Russos.
A Rússia nos quer comer vivos. O poder da Rússia é louco. Ela quer tirar nossos carros das nossas garagens.
Ela quer pegar Chicago. Ela precisa de um Reader’s Digest vermelho. Ela quer botar nossas fábricas de automóveis na Sibéria. A grande burocracia dela mandando em nossos postos de gasolina.
Isso é ruim. Ufa. Ela vai fazê os Índio aprendê vermelho. Ela quer pretos bem grandes. Ela quer nos fazê trabalhá dezesseis horas por dia.
Socorro!
América tudo isso é muito sério.
América essa é a impressão que tenho quando assisto à televisão.
América será que isso está certo?
É melhor eu pôr as mãos à obra.
É verdade que não quero me alistar no Exército ou girar tornos em fábricas de peças de precisão. De qualquer forma sou míope e psicopata.
América eu estou encostando meu delicado ombro à roda.
2 215
1
Pablo Neruda
Diálogo Amoroso
Voz de Murieta:
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
1 170
1
Pablo Neruda
VIII
O que é que irrita os vulcões
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
que cospem fogo, frio e fúria?
Por que Cristóvão Colombo
não pôde descobrir a Espanha?
Quantas perguntas tem um gato?
As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?
617
1
Marina Colasanti
Sim, mas também
Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
1 359
1
Marina Colasanti
Sim, mas também
Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
1 359
1
José Saramago
De Paz E de Guerra
Na mão serena que num gesto de onda
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
Em estátua musical o ar modela.
Na mão torcida que num frio de gelo
A parede do tempo em fundos gritos risca.
Na mão de febre que num suor de chama
Em cinzas vai tornando quanto toca.
Na mão de seda que num afago de asa
Faz abrir os sonhos como fontes de água.
Na tua mão de paz, na tua mão de guerra,
Se já nasceu amor, faz ninho a mágoa.
2 607
1
Manuel Bandeira
Versos Escritos N'água
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
1 254
1
Manuel Bandeira
Versos Escritos N'água
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
1 254
1
Manuel Bandeira
Versos Escritos N'água
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
1 254
1
Stela do Patrocínio
Eu já não tenho mais voz
Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
924
1
Stela do Patrocínio
Eu já não tenho mais voz
Eu já não tenho mais voz
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
Porque já falei tudo o que tinha pra falar
Falo, falo, falo, falo o tempo todo
E é como se eu não tivesse falado nada
Eu sinto fome e matam minha fome
Eu sinto sede e matam a minha sede
Fico cansada falo que tô cansada
Matam meu cansaço
Eu fico com preguiça matam minha preguiça
Fico com sono
Quando eu reclamo
924
1
Allen Ginsberg
O Automóvel Verde
Se eu tivesse um Automóvel Verde
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
1 431
1
Allen Ginsberg
O Automóvel Verde
Se eu tivesse um Automóvel Verde
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
iria procurar meu velho companheiro
na sua casa no oceano ocidental.
Ha! Ha! Ha! Ha! Ha!
Tocaria minha busina na sua máscula porta,
lá dentro sua mulher e três
crianças espreguiçando-se nuas
no assoalho da sala.
Ele viria correndo para fora
até meu carro cheio de heróica cerveja
e pularia gritando ao volante
pois ele é o maior volante.
Peregrinaríamos até a mais alta montanha
das nossas antigas visões das Montanhas Rochosas
rindo nos braços um do outro,
nosso deleite acima das mais altas Rochosas.
e depois da antiga agonia, bêbados de anos novos,
lançando-nos até o nevado horizonte
arrebentando o pára-lama com bop original
de carro envenenado na montanha
sacudiríamos a nevoenta rodovia
onde anjos de angústia
cambaleiam entre as árvores
e berram diante do motor.
Arderíamos a noite toda entre os pinheiros do pico
visíveis de Denver na escuridão do verão,
clarão nada natural da floresta
clareando o topo da montanha:
infância adolescência idade & eternidade
se abririam como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor,
pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes
dentro do relógio do mundo,
somos capazes, assim como os mágicos
chineses, de confundir os imortais
com nossa intelectualidade
escondida na neblina,
no Automóvel Verde
que eu inventei
imaginei e visualizei
nas estradas do mundo
mais real que o motor
numa pista do deserto
mais puro que Greyhound e
mais rápido que o jato físico.
Denver! Denver! voltaremos
roncando pelo gramado do edifício City &County
que recebe a pura chama esmeralda
raiando no rasto do nosso carro.
Desta vez compraremos a cidade!
Descontei um grande cheque no caixa do meu crânio
para abrir uma miraculosa universidade do corpo
no teto da estação rodoviária.
Porém primeiro percorreremos os pontos do centro da cidade
bilhares barracos botequins de jazz cadeia
prostíbulos da rua Folsom
até os mais escuros becos de Larimer
prestando homenagem ao pai de Denver
perdido nos trilhos da ferrovia,
estupor de vinho e silêncio
reverenciando os cortiços das suas décadas,
nós o saudaremos e à sua santificada maleta
de escuro moscatel, beberemos e
quebraremos as doces garrafas
em Diesels demonstrando nossa fidelidade.
E depois seguiremos guiando bêbados pelas avenidas
por onde marcharam exércitos e por onde ainda desfilam
cambaleando sob o invisível
pendão da Realidade —
trombando pelas ruas
no automóvel do nosso destino
dividiremos um cigarro de arcanjo
e adivinharemos o futuro um do outro:
famas de sobrenatural iluminação,
desolados e chuvosos vãos no tempo,
a grande arte aprendida na desolação
e nossa separação “beat” seis décadas depois. . .
e numa encruzilhada de asfalto
nos tratamos mais uma vez com
principesca gentileza, lembrando
famosas conversas mortas de outras cidades.
O pára-brisas cheio de lágrimas,
a chuva que molha nosso peito nu,
e juntos nos ajoelhamos na escuridão
no meio do tráfego noturno do paraíso
agora renovando o solitário juramento
que fizemos um para o outro
certa vez no Texas:
não posso inscrevê-lo aqui. . .
Quantas noites de Sábado
teremos deixado bêbadas com esta lenda?
Como fará a jovem Denver para carpir
seu olvidado anjo sexual?
Quantos garotos baterão no piano negro
imitando os excessos de um santo da terra?
Ou garotas que cederão ao desejo sob seu espectro
nos colégios da noite melancólica?
Quando tivermos o tempo todo na Eternidade
na tênue luz de rádio deste poema
sentaremos atrás das sombras esquecidas
ouvintes do jazz perdido de todos os Sábados.
Neal, agora seremos heróis reais
numa guerra entre nossos caralhos e o tempo:
vamos ser os anjos do desejo do mundo
e levemos o mundo para a cama conosco antes de
morrer.
Dormindo sós ou acompanhados
por garota ou garoto ou sonho,
não me faltará o amor e a você a saciedade:
todos os homens caem, nossos pais caíram antes,
mas ressuscitaremos essa carne perdida,
nada mais que o trabalho de um momento da mente:
um monumento fora do tempo para o amor
na imaginação:
um mausoléu construído por nossos próprios corpos
consumidos pelo poema invisível -
tremeremos em Denver e resistiremos
mesmo que o sangue e rugas ceguem nossos olhos.
Assim, este Automóvel Verde,
eu o dou para você em fuga
um presente, um presente
da minha imaginação.
Continuaremos guiando
pelas Rochosas
continuaremos guiando
por toda a noite até a aurora,
até voltar à sua ferrovia, a Southern Pacific
sua casa e seus filhos
e seu destino de perna quebrada
você guiando de volta pela planície
o amanhecer: e eu de volta
às minhas visões, meu escritório
e apartamento no leste
retomarei a Nova York.
NY 1953
1 431
1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 301
1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 301
1
Pablo Neruda
Manhã - XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
1 378
1
Pablo Neruda
Manhã - XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
1 378
1