Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Isabel Câmara
Dezenove do oito de mil novecentos e setenta e quatro
Não entendo nada desta janela fechada
que me aperta a culpa
Doer não doi mais,
nem sangra –
Consegui o que queria:
ser despedida, ficar perdida
falida & alone
olhando o pale da Comedia.
Sei que me chamam Bel
Mel de paixão
sugado da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, sutil.
A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.
que me aperta a culpa
Doer não doi mais,
nem sangra –
Consegui o que queria:
ser despedida, ficar perdida
falida & alone
olhando o pale da Comedia.
Sei que me chamam Bel
Mel de paixão
sugado da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, sutil.
A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.
1 299
1
Paulo Colina
Corpo a corpo
a vida é uma horda bárbara
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
de tudo
a derrubada de estigmas primários
o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues
o papel branco vive me jogando
desafios na cara
ser marginal todavia
só interessa à paixão
bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
1 050
1
Yu Xuanji
Para Feiqing em uma noite de inverno
Baixa poema invoco-te à luz da lanterna
à noite insone renego o frio das cobertas
Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor
Entre as cortinas em gaze a lua declina
Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim
em florescer e murchar conhece-se a flor
mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos
Encerra a tarde um arco os pardais em alarde
1 036
1
Kenneth Rexroth
Entre mim mesmo e a morte
p/ a música de Jimmy Blanton:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
O ardor vem e te resseca às vezes,
Você se curva sobre ele, quieta,
Cruel e tímida; às vezes
Você se assusta com a devassidão
E me oferece apenas desespero.
Às vezes enroscados nas cobertas,
Protegendo nosso tédio, fingindo
Que nossos curativos são as feridas.
Mas a roda da mudança pára às vezes;
A ilusão desaparece em paz;
E aí a altivez te ilumina a carne –
Diamante lúcido, sábio como pérola –
Teu rosto vago, absoluto,
Definitivo como o de um animal.
É um barato observar você
Mulher vivente num quarto
Cheio de gente careta, estéril,
E pensar no arco das tuas ancas
Sob a seda do teu vestido de noite,
No fogo derramado lindamente
Do teu sexo, queimando carne e ossos,
No tecido incrível e complexo
Do teu cérebro vivo
Debaixo da bagunça esplêndida do teu cabelo.
~
Gosto de pensar em você nua.
De pôr teu corpo nu
Entre mim mesmo e a morte.
Se imerso no meu cérebro
Ateio fogo ao bico doce dos teus peitos,
E aos tendões dos teus joelhos,
Posso ver muito além de mim.
É bem vazio onde minha vista alcança,
Mas pelo menos é iluminado.
Conheço o brilho dos teus ombros,
O modo de teu rosto entrar em transe,
Teus olhos como os de um sonâmbulo,
Teus lábios de mulher cruel
Consigo mesma.
Gosto de
Pensar em você vestida, teu corpo
Fechado para o mundo, auto-contido,
Sua adorável arrogância
Que faz com que te invejem as mulheres.
Posso lembrar de todos os vestidos,
Mais altivos que uma freira nua.
Eu vou dormir e meus olhos
Fecham numa trama da memória.
A nuvem dos seus cheiros íntimos
É que sonha em meu lugar.
BETWEEN MYSELF AND DEATH
to Jimmy Blanton’s music:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
A fervor parches you sometimes,
And you hunch over it, silent,
Cruel, and timid; and sometimes
You are frightened with wantonness
And give me your desperation.
Mostly we lurk in our coverts,
Protecting our spleens, pretending
That our bandages are our wounds.
But sometimes the wheel of change stops;
Illusion vanishes in peace;
And suddenly pride lights your flesh –
Lucid as diamond, wise as pearl –
And your face, remote, absolute,
Perfect and final like a beast’s.
It is wonderful to watch you,
A living woman in a room
Full of frantic, sterile people,
And think of your arching buttocks
Under your velvet evening dress,
And the beautiful fire spreading
From your sex, burning flesh and bone,
The unbelievable complex
Tissues of your brain all alive
Under your coiling, splendid hair.
~
I like to think of you naked.
I put your naked body
Between myself alone and death.
If I go into my brain
And set fire to your sweet nipples,
To the tendons beneath your knees,
I can see far before me.
It is empty there where I look,
But at least it is lighted.
I know how your shoulders glisten,
How your face sinks into trance,
And your eyes like a sleepwalker’s,
And your lips of a woman
Cruel to herself.
I like to
Think of you clothed, your body
Shut to the world and self contained,
Its wonderful arrogance
That makes all women envy you.
I can remember every dress,
Each more proud than a naked nun.
When I go to sleep my eyes
Close in a mesh of memory.
Its cloud of intimate odor
Dreams instead of myself.
1 056
1
Kenneth Rexroth
Entre mim mesmo e a morte
p/ a música de Jimmy Blanton:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
O ardor vem e te resseca às vezes,
Você se curva sobre ele, quieta,
Cruel e tímida; às vezes
Você se assusta com a devassidão
E me oferece apenas desespero.
Às vezes enroscados nas cobertas,
Protegendo nosso tédio, fingindo
Que nossos curativos são as feridas.
Mas a roda da mudança pára às vezes;
A ilusão desaparece em paz;
E aí a altivez te ilumina a carne –
Diamante lúcido, sábio como pérola –
Teu rosto vago, absoluto,
Definitivo como o de um animal.
É um barato observar você
Mulher vivente num quarto
Cheio de gente careta, estéril,
E pensar no arco das tuas ancas
Sob a seda do teu vestido de noite,
No fogo derramado lindamente
Do teu sexo, queimando carne e ossos,
No tecido incrível e complexo
Do teu cérebro vivo
Debaixo da bagunça esplêndida do teu cabelo.
~
Gosto de pensar em você nua.
De pôr teu corpo nu
Entre mim mesmo e a morte.
Se imerso no meu cérebro
Ateio fogo ao bico doce dos teus peitos,
E aos tendões dos teus joelhos,
Posso ver muito além de mim.
É bem vazio onde minha vista alcança,
Mas pelo menos é iluminado.
Conheço o brilho dos teus ombros,
O modo de teu rosto entrar em transe,
Teus olhos como os de um sonâmbulo,
Teus lábios de mulher cruel
Consigo mesma.
Gosto de
Pensar em você vestida, teu corpo
Fechado para o mundo, auto-contido,
Sua adorável arrogância
Que faz com que te invejem as mulheres.
Posso lembrar de todos os vestidos,
Mais altivos que uma freira nua.
Eu vou dormir e meus olhos
Fecham numa trama da memória.
A nuvem dos seus cheiros íntimos
É que sonha em meu lugar.
BETWEEN MYSELF AND DEATH
to Jimmy Blanton’s music:
SOPHISTICATED LADY, BODY AND SOUL
A fervor parches you sometimes,
And you hunch over it, silent,
Cruel, and timid; and sometimes
You are frightened with wantonness
And give me your desperation.
Mostly we lurk in our coverts,
Protecting our spleens, pretending
That our bandages are our wounds.
But sometimes the wheel of change stops;
Illusion vanishes in peace;
And suddenly pride lights your flesh –
Lucid as diamond, wise as pearl –
And your face, remote, absolute,
Perfect and final like a beast’s.
It is wonderful to watch you,
A living woman in a room
Full of frantic, sterile people,
And think of your arching buttocks
Under your velvet evening dress,
And the beautiful fire spreading
From your sex, burning flesh and bone,
The unbelievable complex
Tissues of your brain all alive
Under your coiling, splendid hair.
~
I like to think of you naked.
I put your naked body
Between myself alone and death.
If I go into my brain
And set fire to your sweet nipples,
To the tendons beneath your knees,
I can see far before me.
It is empty there where I look,
But at least it is lighted.
I know how your shoulders glisten,
How your face sinks into trance,
And your eyes like a sleepwalker’s,
And your lips of a woman
Cruel to herself.
I like to
Think of you clothed, your body
Shut to the world and self contained,
Its wonderful arrogance
That makes all women envy you.
I can remember every dress,
Each more proud than a naked nun.
When I go to sleep my eyes
Close in a mesh of memory.
Its cloud of intimate odor
Dreams instead of myself.
1 056
1
Noémia de Sousa
A minha dor
Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.
E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.
5 465
1
Noémia de Sousa
A minha dor
Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.
E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.
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1
Jerónimo Baía
A um pé pequeno
Pues os jusgan las ansias del sentido
Instante de jasmin, concepto breve,
Atomo de açucena presumido,
Sospecha de crystal, susto de nieve;
No pié, mentira sois, pues, como aleve,
Ni verdad en un punto haveis cumplido.
Antes digo que escrupulo haveis sido,
Pues de ser o no ser la duda os mueve.
Como, si idea sois de ojos tan claros,
Hazeis la vista fé para creeros,
Y hazeis los ojos fé para miraros?
Yo me persuado en fin, que hede perderos,
Porque si el veros es imaginaros,
Siendo imaginacion, como hede veros?
Instante de jasmin, concepto breve,
Atomo de açucena presumido,
Sospecha de crystal, susto de nieve;
No pié, mentira sois, pues, como aleve,
Ni verdad en un punto haveis cumplido.
Antes digo que escrupulo haveis sido,
Pues de ser o no ser la duda os mueve.
Como, si idea sois de ojos tan claros,
Hazeis la vista fé para creeros,
Y hazeis los ojos fé para miraros?
Yo me persuado en fin, que hede perderos,
Porque si el veros es imaginaros,
Siendo imaginacion, como hede veros?
1 312
1
Ruy Belo
Poema quase apostólico
Está sereno o poeta
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manhã
Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
não morrerão na noite seus assombrosos passos
Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favorável ao senhor
E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manhã
Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
não morrerão na noite seus assombrosos passos
Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favorável ao senhor
E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar
3 649
1
Mário Dionísio
Branco de neve
Branco de neve
branco de leite
branco de cal
branco de lua
Contra branco outro branco
Um outro branco ainda sobre um novo branco
de espuma
com areia quase branca
Toda a ternura a fadiga a mágoa imensa
do branco contra branco sobre branco
na brancura mergulha branca flui
Branco entre limos
Branco entre mastros
Por túneis brancos ruas brancas sombras brancas
maciamente o branco longamente inventa branco
na crua branca amargura dos anos cegos Brancos
branco de leite
branco de cal
branco de lua
Contra branco outro branco
Um outro branco ainda sobre um novo branco
de espuma
com areia quase branca
Toda a ternura a fadiga a mágoa imensa
do branco contra branco sobre branco
na brancura mergulha branca flui
Branco entre limos
Branco entre mastros
Por túneis brancos ruas brancas sombras brancas
maciamente o branco longamente inventa branco
na crua branca amargura dos anos cegos Brancos
1 755
1
Ruy Belo
Saudades de Melquisedeque
Esta manhã gostaria de ter dado ontem
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém
3 876
1
Pedro Oom
O Homem Bisado
Alegra-me ser todas as coisas e as sombras que elas projectam
ser a sombra dos teus seios e da tua boca
o criado de smoking branco que te agita os cabelos
para um cocktail estimulante e fresco
a mesa onde passo a ferro o teu corpo
as espádulas as coxas a curva macia dos joelhos
alegra-me ser o contorno da tua nuca e o binário motor dos teus braços
embora mais pequeno do que um corpúsculo celeste
sou os milhões de astros microrganismos estrelas
a rota de todos os navios perdidos
a angústia síntese de todos os suicidas
a forma de todos os animais conhecidos
o desenho rigoroso de toda a flora existente
Ontem em Paris hoje em Lisboa amanhã em Júpiter
caminho para a resolução de todos os problemas
sem a certeza de resolver qualquer deles
como se fosse uma máquina de somar parcelas
quatro vezes quatro oito vezes dez oitenta
sabe-me a vida ao que É
esta progressão assustadora de crocodilos bebendo limonada
Ontem fui a prostituta a quem paguei a noite
hoje serei talvez o inocente violentador frustrado
Sutmil é a cidade par aonde me evado todas as noites à aventura
e «os anéis de Saturno são a força centrífuga-centrípeta que me
agita os braços no espasmo amoroso»
a cabeça em Marte os pés na Terra
vindo «lá do fundo do horizonte lívido»
O comboio está na gare o comboio vai partir
apressemos o passo o momento é solene
somos o automóvel que sobe a avenida
a pulsação acelerada dos maquinismos
taxímetro de uma cidade de província
satélites de um satélite lunar
Tu és o aeroporto eu o avião que parte
e muito mais calmos entre éter e fogo
percorremos os sonhos de planeta em planeta desfolhando o futuro a flor sempre rara
e marcamos nos astros o nosso roteiro DEZ QUILÓMETROS
amanhã tirarei o curso de sonhador espacializado
1 503
1
Ruy Belo
Poema quotidiano
É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
4 934
1
Vasco Graça Moura
lamento por diotima
o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
2 875
1
Vasco Graça Moura
lamento por diotima
o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfanhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fusilem
o teu corpo talvez seja meu,
mas que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
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1
Lúcio Cardoso
Amanhecer
A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sôbre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.
E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.
Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.
1 766
1
Adalgisa Nery
Escultura
Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
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Adalgisa Nery
Escultura
Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
1 730
1
Bruna Lombardi
Cio
Quero dormir com você ou pelo menos
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
2 345
1
Bruna Lombardi
Cio
Quero dormir com você ou pelo menos
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
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1
António Pocinho
portal das selecções
Não sei em que rubrica me incluo: endereço insuficiente, recusado, desconhecido, residente em parte incerta, falecido ou outros.
738
1
António Pocinho
portal das selecções
Não sei em que rubrica me incluo: endereço insuficiente, recusado, desconhecido, residente em parte incerta, falecido ou outros.
738
1
Adalgisa Nery
Estigma
Não receio que partas para longe,
Que faças por fugir, por te livrares
Da força da minha voz
E da compreensão do meu olhar.
Não temo que os mares te levem
No bojo dos transatlânticos
Nem tampouco me amedronta
Que em possantes aviões
No céu e na terra,
Cortes espaços sem conta
Em todos os seres me encontrarás.
Serena ficarei se disseres
Que na certa me olvidarás
No ventre da mata virgem,
Nas areias dos desertos
Ou no amor de outras mulheres que terás.
Não importa.
Nada temo e desejo mesmo que o faças
Para que saibas o quanto estou em teus sentidos
E que a minha forma, o meu espírito
Jamais da tua existência passa.
Se fugires pelos mares
Tu me veras na espuma leve da onda,
Me sentiras no colorido de um peixe
E a minha voz escutaras dentro de uma concha.
Se partires pelos ares,
Certamente na brancura de uma nuvem
Tu sentirás a maciez e a alvura
Das minhas carnes.
Se fores para a floresta
Hás de me ver
Na árvore mais florida e harmoniosa
Atravessando areias cálidas do deserto.
Sei que trocarias o lenitivo de um oásis
Pela certeza de me teres perto.
E nas mulheres que encontrares,
Dos seios o perfume, das nucas a palidez,
Das ancas as curvas
E das peles a cor e a tepidez,
Fica certo, não te evadirás.
Porque desde a tua sombra
Ao teu mais rápido pensamento
Não serás livre de mim
Num um momento.
(Adalgisa Nery)
Que faças por fugir, por te livrares
Da força da minha voz
E da compreensão do meu olhar.
Não temo que os mares te levem
No bojo dos transatlânticos
Nem tampouco me amedronta
Que em possantes aviões
No céu e na terra,
Cortes espaços sem conta
Em todos os seres me encontrarás.
Serena ficarei se disseres
Que na certa me olvidarás
No ventre da mata virgem,
Nas areias dos desertos
Ou no amor de outras mulheres que terás.
Não importa.
Nada temo e desejo mesmo que o faças
Para que saibas o quanto estou em teus sentidos
E que a minha forma, o meu espírito
Jamais da tua existência passa.
Se fugires pelos mares
Tu me veras na espuma leve da onda,
Me sentiras no colorido de um peixe
E a minha voz escutaras dentro de uma concha.
Se partires pelos ares,
Certamente na brancura de uma nuvem
Tu sentirás a maciez e a alvura
Das minhas carnes.
Se fores para a floresta
Hás de me ver
Na árvore mais florida e harmoniosa
Atravessando areias cálidas do deserto.
Sei que trocarias o lenitivo de um oásis
Pela certeza de me teres perto.
E nas mulheres que encontrares,
Dos seios o perfume, das nucas a palidez,
Das ancas as curvas
E das peles a cor e a tepidez,
Fica certo, não te evadirás.
Porque desde a tua sombra
Ao teu mais rápido pensamento
Não serás livre de mim
Num um momento.
(Adalgisa Nery)
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Ana Paula Ribeiro Tavares
Quantas coisas do amor
Quantas coisas do amor
P"ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos
seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.
P"ra ti guardei
Coisas simples como estar à espera
Manter o pão quente
Deixar o vinho abrir-se
Em mil sabores
Guardei-me das tentações
das sombras do desejo
das vozes
dos segredos
seria muito pedir-te
que me veles o sono
só mais uma vez.
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