Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Bocage
Meu Ser Evaporei na Luta Insana
Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
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Bocage
Meu Ser Evaporei na Luta Insana
Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos
Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
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Bulhão Pato
A Mãe e o Filho Morto
A pobre da mãe cuidava
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertavas
O coração que batia
Era o dela, e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei, e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo dalma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! — que dor expressou!
Pensei então: a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"
Que o filhinho inda vivia,
E nos braços o apertavas
O coração que batia
Era o dela, e não do filho,
Que já do sono da morte
Havia instantes dormia.
Olhei, e fiquei absorto
Na dor daquela mulher
Que tinha, sem o saber,
Nos braços o filho morto!
Rezava, e do fundo dalma!
Enquanto a infeliz rezava
O pobre infante esfria
Quando gelado o sentira,
O grito que ela soltou,
Meu Deus! — que dor expressou!
Pensei então: a mulher,
Para alcançar o perdão
De quantos crimes tiver,
Na fervorosa oração,
Basta que Possa dizer:
"Tive um filhinho, Senhor,
E o filho do meu amor
Nos braços o vi morrer!"
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Altemar Pontes de Oliveira
Nu
Primeiro lugar no concurso do
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
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Altemar Pontes de Oliveira
Nu
Primeiro lugar no concurso do
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.
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Castro Alves
A Minha Irmã Adelaide
Q UANDO SOZINHO e triste... em horas de amargura,
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
Tu sentes de meu seio a tempestade escura
As asas encurvar, no fúnebre oceano!...
Quando a esponja de fel embebe-me a lembrança!...
... Levantas-te de leve, é límpida criança!...
E deixas tuas mãos correrem no piano...
— Tualma — terna e meiga inclina-se inquieta
No abismo funeral das mágoas do poeta,
E sonda aquele pego... e rasga aquele arcano!
Após Nesse arquejar da vida, que me pesa,
Ouço... longe, uma voz que no infinito reza! ...
Na terra um soluçar choroso... É teu piano!
Quando no desviver das horas de atonia,
Das noites tropicais na morna calmaria,
Da mocidade o canto arrojo ao vento — insano...
E, perto de morrer, o amor anseio ainda!...
Que mulher me soletra essa harmonia infinda?
... É tua mão quempresta umalma ao teu piano...
E enquanto a flor rebenta à face da lagoa
E a lua vagabunda o céu percorre à toa,
Mirando na corrente o seio leviano;
Inda a terra minspira um sonho de ternura!...
... O gênio da desgraça, o gênio da loucura,
Tu sabes, qual Davi, curar no teu piano.
Criança! Que não vês como é sublime e santo
Fazer irmãos no amor e cúmplices no pranto
Mozart, o homem do Norte, e Verdi, o Italiano
Despertar ao relento o idílio de Bellini!
Fazer dançar Sevilha, ao toque de Rossini...
E o bolero estalar... nas teclas do piano!
Ai! toca! No meu ser acorda ainda um estro
À voz de Gottschalck — o esplêndido maestro —
Aos lampejos de luz — do Moço Paulistano —
Ai! toca!... Enche de sons o derradeiro dia
Daquele que só tem por sonho — uma harmonia!
Por única riqueza... a ti... e ao teu piano!
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1
Castro Alves
Prometeu
Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther, voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.
ÉSQUILO
Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.
Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.
Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...
Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.
E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...
Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.
ÉSQUILO
Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.
Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.
Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...
Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.
E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...
Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...
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Bento Prado Júnior
Casa Destelhada
A casa é um templo humilde, em cujo tecto
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.
Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.
Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!
Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...
há goteiras que choram, noite e dia;
o seu recinto todo está repleto
do verde musgo, que a humanidade cria.
Oculta um monge de sereno aspecto
na solidão do templo, a luz sombria.
Vota-lhe o monge singular afeto,
que lhe aviventa a fonte da poesia.
Nunca lhe entre os humbrais alma profana!
Lugar tão venerando dessa forma,
ofendê-lo-á, por certo, a vista humana!
Pois se procede, nesse ambiente sério,
ao milagre da dor, que se transforma,
no cadinho do amor, em refrigério...
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Castro Alves
Rmorsos
Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
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Castro Alves
Rmorsos
Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
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Castro Alves
Rmorsos
Em que pensa Carlota após a valsa,
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
No tapete
Atirando o bournous quando descalça...
Ou melhor... quando rompe a luva, a fita,
Se a presilha, o colchete,
Em leve resistência a mão lhe irrita...
Em que pensa Carlota após a valsa?
Em que sonha Carlota à madrugada,
Quando aperta
Ao travesseiro a boca perfumada.
E afoga o seio sob a cruz de prata,
Pela camisa aberta,
Que um movimento lânguido desata...
Em que sonha Carlota à madrugada?
Com quem fala Carlota ao sol poente,
Na sombria alameda,
Quando os cisnes se arrufam na corente...
E o vento pelas grutas cochichando
Uns noivos arremeda,
Que estão como dois pombos arrulando...
Com quem fala Carlota ao sol poente?
Por que chora Carlota ao meio-dia,
Quando nua de adorno,
Cobrindo os pés... co’a trança luzidia,
Entrega o corpo ao vacilar da rede,
E olhando o campo morno,
Os lábios morde... pr’a matar a sede.
Por que chora Carlota oa meio-dia?
O que cisma, o que sente, por quem chora
A soberba Carlota?
A rainha das salas já descora...
Foge o cetro do leque aos dedos frouxos,
E a turba alegre nota
O fundo circ’lo de seus olhos roxos.
Que não diz o que cisma e porque chora...
Quem te mata, Carlota, são remorsos
De algum divino crime?
São ciúmes que escondem teus esforços?
Tens vergonha talvez deste rosário
Que tua mão comprime,
Porque um sopro roçou no relicário?
E desmaias, Carlota, de remorsos?!
Se é por isso não pises tanto os olhos...
Formosa criatura!
O mundo é um mar de pérfidos escolhos,
Quem te pode lançar primeiro a pedra?
Amor! e formosura!
Deus não corta a roseira porque medra...
Se é por isso não pises tanto os olhos!
Mas não! Chora! Teu mal é sem remédio...
Serás mártir sem palma,
Pregada numa cruz... na cruz do tédio!
Fria Carlota! Cobre-te de pejo...
Mataste à sede um’alma!
Fizeste o crime... de negar um beijo!
Chora! Que este remorso é sem remédio!!...
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Bráulio de Abreu
Volta da Pesca
A tarde vai morrendo mansa e boa...
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
Tudo é recolhimento, nostalgia.
Lá ma torre da Ajuda um sino soa,
Enche o espaço de sons da Ave Maria.
A sombra cai. Um Pássaro não voa.
Vão-se os violáceos tons do fim do dia.
Sobre, singrando o rio, uma canoa:
Volta Manuel Monção da pescaria.
Com seus oitenta esplêndidos janeiros,
Frente à casa da rua dos coqueiros,
Fundeia, apanha o cofo, o remo, a vela
E à noite, após o cafezinho quente,
Fuma e cochila, sossegadamente,
Sentado no sofá, junto à janela.
822
1
Arnaldo Jabor
Escrevo hoje um artigo sobre quase nada
O poeta Manoel de Barros lançou um novo livro: "Livro sobre Nada" é o nome. Esse surrealista-minimalista- pantaneiro, poeta das insignificâncias, dos detritos, descobre dramas na vida dos caramujos e nos ovos de formiga e faz os sapos do lodo denunciar nossa fragilidade. Leia este seu poema antigo, onde a morte de uma lacraia furada de espinho tem a pungência da morte de Isolda: "Chega de escombros, centopeia antúria!
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.
leia obra Poética de Manoel de Barros
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Tamara Baroni
Carmem
Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
699
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Tamara Baroni
Carmem
Suor entre os seios umidade
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
lunar entre as coxas e
tac! de um leque de desafio
tac! de um açoite na ardente praça
tac! dos teus saltos andaluses ruiva mulher
de Espanha de renda preta cortante sobre
os negros cílios, decotada no candor
e agora
o rito
açoitando a nudez da espera
o rito
dançando um touro e um flamengo
o rito
com relâmpagos roxos se cumpre
chicote e baque
violentando os olhos da costa ao sol.
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Marcelo Batalha
Quase Paixão
Busco um rosto por entre as vozes
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
863
1
Marcelo Batalha
Quase Paixão
Busco um rosto por entre as vozes
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
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Marcelo Batalha
Quase Paixão
Busco um rosto por entre as vozes
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
Vejo uma luz por entre os cantos
Sinto a vontade penetrar meus poros
Doce ilusão que me afaga as costas
Me sussurra - de longe - à nuca
Me devolve ilusões escondidas
E então o brilho do sonho renasce
A visão da juventude me aquece
Uma face clara me ilumina
Cabelos negros ou quase molham meus olhos
Bombeiam meus orgãos
Vermelham meu coracao
Há via expressa pavimentada de desejos agora
Placas que sinalizam atenção
E claros sinais de verde esperança e rubra paixão
O que fazer ? O que dizer ? Como sentir ?
Como concorrer com raps, como nao repetir versos,
O que voce pode oferecer, pobre trovador ?
Tenho apenas meu sonho encantado
Meu beijo molhado
Meu verso, meu canto
E essa vontade louca
De apaixonar.
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Bento Prado Júnior
A Lua-Cheia
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
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Bento Prado Júnior
A Lua-Cheia
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
lembrança do nosso Lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
A lua-cheia de outrora
tinha muito mais poesia!
São Jorge de bota e espora,
-que soberba montaria!-
Lá, lança em riste, feria
o feio e feroz dragão,
que o duro ferro mordia,
nas ânsias da convulsão!
A lua-cheia, hoje em dia,
é simples bola vazia
que rola pela amplidão...
Despojo de terra, fria,
alma vivente não cria,
nem sequer vegetação!
A lua-cheia, hoje em dia,
não tem significação!
Minha mãe, doce velhinha,
que vontade de chorar!
Saudade que me espezinha,
Lembraça do nosso lar...
Nosso sítio...a moradia...
o arvoredo do quintal,
que a lua-cheia cobria
com seu delgado sendal...
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Bocage
O céu, de opacas sombras abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
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Bocage
O céu, de opacas sombras abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
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Bocage
O céu, de opacas sombras abafado
O céu, de opacas sombras abafado,
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
Tornando mais medonha a noite fea,
Mugindo sobre as rochas, que saltea,
O mar, em crespos montes levantado;
Desfeito em furacões o vento irado;
Pelos ares zunindo a solta area;
O pássaro nocturno, que vozea
No agoireiro cipreste além pousado;
Formam quadro terrível, mas aceito,
Mas grato aos olhos meus, grato à fereza
Do ciúme e saudade, a que ando afeito.
Quer no horror igualar-me a Natureza;
Porém cansa-se em vão, que no meu peito
Há mais escuridade, há mais tristeza.
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Bruno KKC
Uns e Outros
Uns dizem que sim
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
Outros dizem que vim
Uns dizem que nao
Outros dizem paixao
Uns dizem que espero
Outros dizem que quero
Uns dizem morte
Outros dizem sorte
Uns dizem lento
Outros dizem momento
Uns dizem dor
Outros dizem flor
Desejando o teu sim
Desde do instante em que vim
Para nao dizer nao
A esta paixao
Sera que tudo que espero
E com forca quero
Ira me livrar da morte
De um encontro de sorte ?
Neste lento momento de dor
Quando nasce mais uma flor...
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