Lista de Poemas

Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
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Ode à Paz

Pela
verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego, dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa
passar a Vida!
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Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

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Andar?! Não me custa nada!

Andar?! Não me custa nada!...

Mas estes passos que dou

Vão alongando uma estrada

Que nem sequer começou.

Andar na noite?!Que importa?...

Não tenho medo da noite

Nem medo de me cansar:

Mas na estrada em que vou,

Passo sempre à mesma porta...

E começo a acreditar

No mau feitiço da estrada:

Que se ela não começou

Também não foi acabada!

Só sei que,neste destino,

Vou atrás do que não sei...

E já me sinto cansada

Dos passos que nunca dei.

de Rio de Nuvens (1947)

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Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

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Cântico do País Emerso

Os previdentes e os presidentes tomam de ponta
Os inocentes que têm pressa de voar
Os revoltados fazem de conta fazem de conta...
Os revoltantes fazem as contas de somar.

Embebo-me na solidão como uma esponja
Por becos que me conduzem a hospitais.
O medo é um tenente que faz a ronda
E a ronda abre sepulcros fecha portais;

Os edifícios são malefícios da conjura
Municipal de um desalento e de uma Porta.
Salvo a ranhura para sair o funeral
Não há inquilinos nos edifícios vistos por fora

Que é dos meninos com cataventos na aérea
Arquitetura de gargalhadas em cornucópia?
Almas bovinas acomodadas à matéria
Pastam na erva entre as ruínas da memória,

Homens por dentro abandalhados em unhas sujas
Que desleixaram seu coração num bengaleiro;
Mulheres corujas seriam gregas não fossem as negras
Nódoas deixadas na sua carne pelo dinheiro;

Jovens alheios à pulcritude do corpo em festa
Passam por mim como alamedas de ciprestes
E a flor de cinza da juventude é uma aresta
Que me golpeia abrindo vácuos de flores silvestres

E essa ansidedade de mim mesma me virgula
Paula de pátria entressonhada. É um crisol.
E, o fruto agreste da linfa ardente que em mim circula
Sabe-me a sol. Sabe-me a pássaro. Pássaro ao sol.

Entre mim e a cidade se ateia a perspectiva
De uma angústia florida em narinas frementes.
Apalpo-me estou viva e o tacto subjectiva-me
a galope num sonho com espuma nos dentes.

E invoco-vos, irmãos, Capitães-Mores do Instinto!
Que me acenais do mar com um lenço cor da aurora
E com a tinta azulada desse aceno me pinto.
O cais é a urgência. O embarque é agora.

6 401

Encontro

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se Deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se Deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor
3 767

Insónia

Insónia.Abro a janela.Esvaimento
No abismo da solidão estrelada.
É inquietante a paz e um sentimento
De hora nenhuma vai da lua ao nada.
Tem nisto um deus sinistro o instrumento
De submeter-me em morte figurada?
Silêncio astral.Estático tormento
No eterno insone que inspira a hora parada.
Suga-me o sangue um polvo agonizante.
Marginam o pensamento delirante
Espectros de prostitutas na avenida.
Pesam as pálpebras.Apodrece a ideia
De adormecer.O dia já clareia
Num galho tenro da árvore da vida.

de Inéditos (1985/90)

3 619

De Amor nada Mais Resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
3 755

Mãe Ilha

Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.

A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.

A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.

E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina.

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Comentários (4)

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tomaslopes

Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.

Matilde
Matilde

Simplesmente magnífica!

Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
Marco Antônio Rodrigues de Oliveira

Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!

Identificação e contexto básico

Natália de Oliveira Correia nasceu em Azinhaga, concelho de Golegã, Portugal. Foi uma figura multifacetada: poeta, escritora, dramaturga, ensaísta, político e ativista. Sua obra é marcada por uma forte intervenção na realidade social e política de Portugal, especialmente durante o Estado Novo e a transição para a democracia. Sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Cresceu em Lisboa, onde frequentou o liceu e revelou desde cedo um espírito rebelde e uma inteligência aguçada. Estudou Direito na Universidade de Lisboa, curso que concluiu em 1953. Durante a sua formação, absorveu influências da literatura clássica e contemporânea, bem como de movimentos filosóficos e artísticos que questionavam o status quo.

Percurso literário

Natália Correia iniciou sua carreira literária nos anos 1950, publicando poemas em jornais e revistas. Seu primeiro livro de poesia, "O Surrealismo em Portugal" (1956), era um ensaio crítico, mas foi com "Comunicação" (1959) que se afirmou como poeta. Sua obra evoluiu de forma ousada, explorando a transgressão e a liberdade formal e temática. Foi uma figura central nos círculos literários que desafiavam a censura do regime salazarista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais importantes estão "Comunicação" (1959), "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (1974), "O Seio e a Sombra" (1961), "As Maiores Penas do Mundo" (1975), "Canções de Fazer-se Amor Sem Deus" (1977) e "Mar Novo" (1978). Sua poesia aborda temas como o amor carnal e espiritual, a morte, a revolta contra a opressão, a liberdade de expressão e a condição feminina. O estilo de Natália Correia é caracterizado pela força expressiva, pela musicalidade, pelo uso de metáforas ousadas e pelo humor. Sua voz poética é simultaneamente lírica, satírica, erótica e combativa. A linguagem é rica, por vezes coloquial, mas sempre precisa e impactante. Ela não se prendeu a formas fixas, explorando o verso livre e experimentando com a estrutura poética. Introduziu uma forte componente de erotismo e de crítica social em sua obra, desafiando tabus e convenções.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Natália Correia viveu imersa no contexto político e cultural português do século XX, marcado pela ditadura do Estado Novo e pela posterior transição para a democracia. Foi uma voz dissonante e contestatária, que se opôs firmemente à censura e à repressão. Pertenceu a uma geração de intelectuais e artistas que lutaram pela liberdade de expressão e pela modernização do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal foi intensa e marcada por fortes convicções. Foi casada e teve filhos, mas sempre manteve uma independência intelectual e pessoal notável. Sua postura desafiadora e sua defesa intransigente de seus ideais lhe renderam admiração e controvérsia. Foi uma figura pública atuante, participando ativamente da vida política e cultural de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Natália Correia foi uma figura proeminente e controversa em vida. Sua poesia, por vezes chocante para a época, encontrou um público que a admirava pela sua coragem e autenticidade. Recebeu diversos prémios e distinções, e sua obra é hoje amplamente reconhecida como um marco da literatura portuguesa moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Fernando Pessoa e Camões, Natália Correia soube criar uma obra original e transgressora. Seu legado é o de uma poeta que ousou dizer o indizível, que lutou pela liberdade e que deu voz às mulheres e aos oprimidos. Sua obra continua a inspirar pela sua força, inteligência e pela sua capacidade de fundir o pessoal com o político.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Natália Correia é frequentemente analisada como um manifesto pela liberdade em todas as suas formas: sexual, política e existencial. Sua poesia é um convite à reflexão sobre os limites da moralidade, a opressão e a busca incessante pela emancipação humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Natália Correia foi uma das escritoras que mais desafiou a censura do Estado Novo, muitas vezes utilizando o humor e a ironia para contornar as proibições. Sua participação ativa na Revolução dos Cravos e sua eleição como deputada demonstraram seu compromisso com a democracia. Era conhecida por sua inteligência viva e por seu humor ácido.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Natália Correia faleceu em Lisboa. Sua memória é celebrada como a de uma das mais importantes e corajosas vozes da literatura e da cultura portuguesa do século XX, uma mulher que viveu e escreveu com a intensidade de quem não teme confrontar o mundo.