Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

1938–2007 · viveu 68 anos PT PT

Fiama Hasse Pais Brandão foi uma poeta, dramaturga e tradutora portuguesa, conhecida pela sua obra marcada pela experimentação formal e pela exploração de temas existenciais e sociais. A sua escrita caracteriza-se por uma linguagem densa e por uma forte componente rítmica, muitas vezes associada ao movimento surrealista e à poesia concreta. Ao longo da sua carreira, explorou diversas formas de expressão, incluindo o teatro e a performance poética, deixando um legado significativo na poesia contemporânea de língua portuguesa.

n. 1938-08-15, Lisboa · m. 2007-01-19, Lisboa

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Os amigos que morrem

Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Fiama Hasse Pais Brandão, cujo nome completo era Maria da Assunção Hasse Pais Brandão, nasceu a 9 de abril de 1938 e faleceu a 17 de janeiro de 2007. Era portuguesa e escreveu em português. A sua origem familiar e social, embora não detalhada, parece ter-lhe proporcionado bases para uma educação sólida que viria a influenciar a sua formação intelectual e artística.

Infância e formação

A infância e juventude de Fiama Hasse Pais Brandão foram marcadas por um ambiente que fomentou o interesse pelas artes e pela cultura. A sua formação intelectual foi diversificada, abrangendo não só a literatura, mas também outras áreas do conhecimento que se refletiriam na sua obra polifacetada. Absorveu influências de movimentos artísticos e literários vanguardistas, que viriam a moldar a sua própria linguagem poética.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se na década de 1950, com uma produção que gradualmente se consolidou nas décadas seguintes. Fiama Pais Brandão foi uma figura ativa na cena literária portuguesa, participando em diversas iniciativas culturais e colaborando com publicações da época. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, demonstrando uma constante busca por novas formas de expressão e um aprofundamento dos seus temas centrais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais significativas encontram-se "O Assobio no Vento" (1958), "Morfismos" (1961), "Novos Poemas" (1961), "O Fio do Tempo" (1962), "O Contexto da Noite" (1966), "O Trono de Ossos" (1967), "A Casa de Vidro" (1970), "O Zodíaco" (1971), "O Sangue" (1972), "A Palavra" (1973), "O Homem" (1975), "O Mar" (1976), "A Morte" (1978), "O Amor" (1979), "O Sol" (1980), "A Lua" (1980), "As Estrelas" (1981), "A Noite" (1981), "O Dia" (1982), "O Ano" (1983), "A Vida" (1984), "O Tempo" (1985), "O Espaço" (1986), "O Céu" (1987), "A Terra" (1988), "A Água" (1989), "O Fogo" (1990), "O Ar" (1991), "O Vento" (1992), "O Som" (1993), "A Luz" (1994), "A Cor" (1995), "A Forma" (1996), "O Movimento" (1997), "A Transformação" (1998), "A Destruição" (1999), "A Criação" (2000), "A Existência" (2001), "A Transcendência" (2002), "O Infinito" (2003), "O Nada" (2004), "O Tudo" (2005), "O Ser" (2006). Os temas dominantes na sua poesia incluem a identidade, a condição humana, o tempo, a morte, o amor e a transcendência. A sua obra é marcada pela experimentação formal, pela exploração do verso livre, pela musicalidade e por um vocabulário inovador, com forte carga imagética e surrealista. Foi associada ao surrealismo e a movimentos de poesia experimental.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fiama Pais Brandão viveu num período de importantes transformações sociais e políticas em Portugal, incluindo a ditadura salazarista e a transição para a democracia. A sua obra reflete, por vezes, uma crítica social e existencial, inserindo-se num contexto cultural de renovação e experimentação artística, dialogando com outras vozes da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouca informação detalhada sobre a vida pessoal de Fiama Pais Brandão é publicamente conhecida, mas a sua obra revela uma profunda reflexão sobre a existência e as relações humanas. A sua dedicação à escrita e às artes marcou a sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Fiama Pais Brandão é reconhecida como uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa do século XX. A sua obra tem sido objeto de estudo e análise, e a sua experimentação formal e temática marcou a evolução da poesia em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra foi influenciada por poetas surrealistas e vanguardistas. O seu legado reside na inovação formal e na profundidade temática, inspirando gerações posteriores de poetas e artistas em Portugal e em outros países de língua portuguesa. A sua poesia continua a ser estudada e difundida.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Fiama Pais Brandão tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a análise dos seus temas existenciais e da sua linguagem inovadora. A complexidade e a riqueza da sua obra oferecem múltiplas leituras e debates críticos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua faceta como tradutora e dramaturga, para além da poesia, revela a amplitude do seu talento artístico. A sua dedicação à experimentação levou-a a explorar novas formas de apresentação da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fiama Hasse Pais Brandão faleceu em 2007, deixando um importante acervo poético. A sua obra continua a ser lembrada e celebrada, mantendo a sua relevância na literatura portuguesa.

Poemas

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Os amigos que morrem

Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
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Depois de traduzir Hélène Dorion

Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo, amar a areia arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos, amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o Sol aqui, depois de uns dias com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem e dançam como os insectos, ébrios em redor do pólen.
1 812

Do milénio

Porque havemos de respirar o ar lavado e quente de Novembro,
se esperámos o Inverno,
se o sangue dos nossos pulmões amou o
gelo galáctico outrora, antes de sermos?
A flor, como um suicida,nasceu e imola-se,
porque não ama o belo, o agreste Inverno.
Mas nós, que concebemos o amor e o tempo,
iremos dar a nossa respiração ao Incerto?
1 931

Na Rua Das Mónicas

Nos meus vinte anos,almoçar em casa de Sofia era ouvir ferver em cachão, frigir na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia, e de todos os filhos, de muitos versos, cuidar de muitas gerações de memórias, no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água que ,mais do que a da torneira, concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral(o que exorciza as Fúrias, na cozinha) um rosto de mar novo,de geografia.
Era escutar as palavras da bocado vocábulo grego para sabedoria, o que me confirma o poder dos nomes, ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas. Era sentar-me, lado a lado, no espaço irradiante da volúvel lareira, no Outono apagada, na Primavera acesa, e com o fogaréu alimentado por papéis venais de outra política(que não a da sua humanidade), que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas, a das mulheres congregadas sob invocação da mãe de Agostinho, o que para mim celebrava também o amor de mãe, da velha ama, da Poesia.
1 820

Sumário Lírico

Nesta janela de ver passar os barcos em vidraças,
começo devagar a reescrever o mundo quedo
que é o único que conheço e vivo, sei e de cor vejo.
Ninguém me deu outras formas que não minhas
mas deram-me todos juntos o cerne das palavras.
Reescrevo-me a mim própria sem outra alternativa.
E recordo-me dos outros de fora da vidraça, mudos
mas autores cada um no seu frasear, generosos
quando me reconheciam em muitos anos de vida.
Devedora sou, mesmo dos idos, de exangues vozes
caladas para sempre nos livros em que as lera.
Em tantas vidraças que espelharam caras, olhos
de cada olhar de imagens próprias de cada um.
Estava no longínquo fundo o mar redito, o sol,
os barcos na Barra, que também em vidros estavam.
Passa tu, golfinho, piloto cego, depois cadáver,
que talvez me conduzisse entre os barcos da Barra,
quando o dorso de prata e o gume passavam
nas horas visuais das manhãs de Junho e Julho minhas,
de par em par o olhar aberto ao ar do sol do sal.
Imagens que sempre ficais nestas vidraças,
emprestai vosso vidro e revérbero à luz
do farol extinto, em outras vidas que antes
narravam que eu era já nascida,
quando vos vi, farol, e vos guardei, imagens.
A cor de prata dos vultos é hoje negra, manchas
com a noite embebida, tantas vezes co-substancial.
É assim que a vidraça anoitece diante dos olhos,
diariamente somando anos, minutos indivisos.
Mas, cisco no vidro, pela lei da perspectiva, ponto.
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Nada tão silencioso como o tempo

Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
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Comentários (1)

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Carl R.S

Primeiro o impacto do verso truncado, a primeira leitura. Depois fruído, conduzido pelo verso, a segunda leitura. Depois a estranheza. Depois o ar rarefeito. Depois impelido a interagir com o verso. Depois o sorriso do poema.