Lista de Poemas

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

1 888

O Livro dos Amantes I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2 123

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

5 701

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

2 923

O espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indene ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

2 323

Mocinhas gráceis

Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Soi, porém, as irreiais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.

Lá no fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.

Enleais, mas de enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
– Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas –,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transparência.
2 107

Cosmocópula

I

Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras

II

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.

3 882

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

de Poemas (1955)

2 469

Escrito numa ânfora grega

É o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.

de Inéditos(1966/68)

2 125

Num domingo em que passaste na minha rua

Num domingo em que passaste na minha rua
e os prédios se afastaram para que
me raptasses por cima das árvores 

Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.

Apareces e logo adquires
em minha eclíptica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.

Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.

Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.

de O Vinho e a Lira(1966)

2 779

Comentários (4)

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tomaslopes

Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.

Matilde
Matilde

Simplesmente magnífica!

Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
Marco Antônio Rodrigues de Oliveira

Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!

Identificação e contexto básico

Natália de Oliveira Correia nasceu em Azinhaga, concelho de Golegã, Portugal. Foi uma figura multifacetada: poeta, escritora, dramaturga, ensaísta, político e ativista. Sua obra é marcada por uma forte intervenção na realidade social e política de Portugal, especialmente durante o Estado Novo e a transição para a democracia. Sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Cresceu em Lisboa, onde frequentou o liceu e revelou desde cedo um espírito rebelde e uma inteligência aguçada. Estudou Direito na Universidade de Lisboa, curso que concluiu em 1953. Durante a sua formação, absorveu influências da literatura clássica e contemporânea, bem como de movimentos filosóficos e artísticos que questionavam o status quo.

Percurso literário

Natália Correia iniciou sua carreira literária nos anos 1950, publicando poemas em jornais e revistas. Seu primeiro livro de poesia, "O Surrealismo em Portugal" (1956), era um ensaio crítico, mas foi com "Comunicação" (1959) que se afirmou como poeta. Sua obra evoluiu de forma ousada, explorando a transgressão e a liberdade formal e temática. Foi uma figura central nos círculos literários que desafiavam a censura do regime salazarista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais importantes estão "Comunicação" (1959), "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (1974), "O Seio e a Sombra" (1961), "As Maiores Penas do Mundo" (1975), "Canções de Fazer-se Amor Sem Deus" (1977) e "Mar Novo" (1978). Sua poesia aborda temas como o amor carnal e espiritual, a morte, a revolta contra a opressão, a liberdade de expressão e a condição feminina. O estilo de Natália Correia é caracterizado pela força expressiva, pela musicalidade, pelo uso de metáforas ousadas e pelo humor. Sua voz poética é simultaneamente lírica, satírica, erótica e combativa. A linguagem é rica, por vezes coloquial, mas sempre precisa e impactante. Ela não se prendeu a formas fixas, explorando o verso livre e experimentando com a estrutura poética. Introduziu uma forte componente de erotismo e de crítica social em sua obra, desafiando tabus e convenções.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Natália Correia viveu imersa no contexto político e cultural português do século XX, marcado pela ditadura do Estado Novo e pela posterior transição para a democracia. Foi uma voz dissonante e contestatária, que se opôs firmemente à censura e à repressão. Pertenceu a uma geração de intelectuais e artistas que lutaram pela liberdade de expressão e pela modernização do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal foi intensa e marcada por fortes convicções. Foi casada e teve filhos, mas sempre manteve uma independência intelectual e pessoal notável. Sua postura desafiadora e sua defesa intransigente de seus ideais lhe renderam admiração e controvérsia. Foi uma figura pública atuante, participando ativamente da vida política e cultural de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Natália Correia foi uma figura proeminente e controversa em vida. Sua poesia, por vezes chocante para a época, encontrou um público que a admirava pela sua coragem e autenticidade. Recebeu diversos prémios e distinções, e sua obra é hoje amplamente reconhecida como um marco da literatura portuguesa moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Fernando Pessoa e Camões, Natália Correia soube criar uma obra original e transgressora. Seu legado é o de uma poeta que ousou dizer o indizível, que lutou pela liberdade e que deu voz às mulheres e aos oprimidos. Sua obra continua a inspirar pela sua força, inteligência e pela sua capacidade de fundir o pessoal com o político.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Natália Correia é frequentemente analisada como um manifesto pela liberdade em todas as suas formas: sexual, política e existencial. Sua poesia é um convite à reflexão sobre os limites da moralidade, a opressão e a busca incessante pela emancipação humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Natália Correia foi uma das escritoras que mais desafiou a censura do Estado Novo, muitas vezes utilizando o humor e a ironia para contornar as proibições. Sua participação ativa na Revolução dos Cravos e sua eleição como deputada demonstraram seu compromisso com a democracia. Era conhecida por sua inteligência viva e por seu humor ácido.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Natália Correia faleceu em Lisboa. Sua memória é celebrada como a de uma das mais importantes e corajosas vozes da literatura e da cultura portuguesa do século XX, uma mulher que viveu e escreveu com a intensidade de quem não teme confrontar o mundo.