Natália Correia

Natália Correia

1923–1993 · viveu 69 anos PT PT

Natália Correia foi uma escritora, poetisa e ativista política portuguesa, conhecida por sua obra transgressora, sensual e engajada, que abordava temas como o amor, a morte, a liberdade e a identidade feminina. Sua poesia, marcada pela força expressiva, pelo humor e pela crítica social, a tornou uma figura icônica da contracultura em Portugal. Foi também uma defensora ardorosa da democracia e dos direitos humanos.

n. 1923-09-13, Fajã de Baixo · m. 1993-03-16, Lisboa

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Creio nos anjos que andam pelo mundo

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Natália de Oliveira Correia nasceu em Azinhaga, concelho de Golegã, Portugal. Foi uma figura multifacetada: poeta, escritora, dramaturga, ensaísta, político e ativista. Sua obra é marcada por uma forte intervenção na realidade social e política de Portugal, especialmente durante o Estado Novo e a transição para a democracia. Sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Cresceu em Lisboa, onde frequentou o liceu e revelou desde cedo um espírito rebelde e uma inteligência aguçada. Estudou Direito na Universidade de Lisboa, curso que concluiu em 1953. Durante a sua formação, absorveu influências da literatura clássica e contemporânea, bem como de movimentos filosóficos e artísticos que questionavam o status quo.

Percurso literário

Natália Correia iniciou sua carreira literária nos anos 1950, publicando poemas em jornais e revistas. Seu primeiro livro de poesia, "O Surrealismo em Portugal" (1956), era um ensaio crítico, mas foi com "Comunicação" (1959) que se afirmou como poeta. Sua obra evoluiu de forma ousada, explorando a transgressão e a liberdade formal e temática. Foi uma figura central nos círculos literários que desafiavam a censura do regime salazarista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais importantes estão "Comunicação" (1959), "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" (1974), "O Seio e a Sombra" (1961), "As Maiores Penas do Mundo" (1975), "Canções de Fazer-se Amor Sem Deus" (1977) e "Mar Novo" (1978). Sua poesia aborda temas como o amor carnal e espiritual, a morte, a revolta contra a opressão, a liberdade de expressão e a condição feminina. O estilo de Natália Correia é caracterizado pela força expressiva, pela musicalidade, pelo uso de metáforas ousadas e pelo humor. Sua voz poética é simultaneamente lírica, satírica, erótica e combativa. A linguagem é rica, por vezes coloquial, mas sempre precisa e impactante. Ela não se prendeu a formas fixas, explorando o verso livre e experimentando com a estrutura poética. Introduziu uma forte componente de erotismo e de crítica social em sua obra, desafiando tabus e convenções.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Natália Correia viveu imersa no contexto político e cultural português do século XX, marcado pela ditadura do Estado Novo e pela posterior transição para a democracia. Foi uma voz dissonante e contestatária, que se opôs firmemente à censura e à repressão. Pertenceu a uma geração de intelectuais e artistas que lutaram pela liberdade de expressão e pela modernização do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal foi intensa e marcada por fortes convicções. Foi casada e teve filhos, mas sempre manteve uma independência intelectual e pessoal notável. Sua postura desafiadora e sua defesa intransigente de seus ideais lhe renderam admiração e controvérsia. Foi uma figura pública atuante, participando ativamente da vida política e cultural de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Natália Correia foi uma figura proeminente e controversa em vida. Sua poesia, por vezes chocante para a época, encontrou um público que a admirava pela sua coragem e autenticidade. Recebeu diversos prémios e distinções, e sua obra é hoje amplamente reconhecida como um marco da literatura portuguesa moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como Fernando Pessoa e Camões, Natália Correia soube criar uma obra original e transgressora. Seu legado é o de uma poeta que ousou dizer o indizível, que lutou pela liberdade e que deu voz às mulheres e aos oprimidos. Sua obra continua a inspirar pela sua força, inteligência e pela sua capacidade de fundir o pessoal com o político.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Natália Correia é frequentemente analisada como um manifesto pela liberdade em todas as suas formas: sexual, política e existencial. Sua poesia é um convite à reflexão sobre os limites da moralidade, a opressão e a busca incessante pela emancipação humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Natália Correia foi uma das escritoras que mais desafiou a censura do Estado Novo, muitas vezes utilizando o humor e a ironia para contornar as proibições. Sua participação ativa na Revolução dos Cravos e sua eleição como deputada demonstraram seu compromisso com a democracia. Era conhecida por sua inteligência viva e por seu humor ácido.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Natália Correia faleceu em Lisboa. Sua memória é celebrada como a de uma das mais importantes e corajosas vozes da literatura e da cultura portuguesa do século XX, uma mulher que viveu e escreveu com a intensidade de quem não teme confrontar o mundo.

Poemas

38

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

de Poemas (1955)

2 498

Guerra santa

Não estou aqui para que Deus me ignore
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.

de O Dilúvio e a Pomba(1979)

1 627

Num domingo em que passaste na minha rua

Num domingo em que passaste na minha rua
e os prédios se afastaram para que
me raptasses por cima das árvores 

Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.

Apareces e logo adquires
em minha eclíptica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.

Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.

Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.

de O Vinho e a Lira(1966)

2 822

O Livro dos Amantes I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

2 146

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

2 948

O Livro dos Amantes IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

1 912

Véspera do Prodígio

Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?

Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?

Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.

Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 973

Poema II

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
1 405

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Comentários (4)

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Tomás Lopes

Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.

Matilde
Matilde

Simplesmente magnífica!

Marco Antônio Rodrigues de Oliveira
Marco Antônio Rodrigues de Oliveira

Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!