Lista de Poemas
Poema II
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Véspera do Prodígio
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
Violentámos a natureza
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
A demiurgia do riso
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.
Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.
Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.
E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.
de Passaporte(1958)
London from a tear top
como algo que se esconde atrás do nevoeiro
e deste lado tem um tricórnio de pombos
na cabeça que foi de um almirante pernalta
e estranhamente estão sempre a sair do mar
muitos chapéus de coco e o céu é o estaleiro
de uma luz que ficou ali por consertar
e do fundo da noite que é o sexo à deriva
da bailarina nua vem uma estrela húmida
onde passa a correr uma mulher em chamas
montando um cavalinho que fugiu de uma libra
e uma avestruz predica na igreja anglicana
e o baptista vai haver uma guerra na esquina
com muitos guarda-chuvas à volta num domingo
e uma coisa com sete cornos sai da bíblia
e às tantas num jardim uma fonte de chá
e os que apertam no bolso uma fada morgana
que daqui a Gondwana temos muito que andar
mas então não sabiam que isto dos continentes
está sempre a deslizar mas então não sabiam
e nisto há uma torre de cabeças cortadas
que depois aparecem com um olhar de carne
em figuras de cera e numa profecia
com óxido de ferro os corvos pingam preto
e dois leões de pé discutem a carniça
e em verdade vos digo o big ben remember
o pub vai fechar a estrela de absinto
vai cair é uma lágrima que não põde enxugar
o deus que de outras águas incumbiu o tamisa
e o comércio depressa e as orquídeas de fumo
perseguidoras altas que envenenam o ar
e os anjos já içaram a ponte levadiça
e em verdade vos digo um homem jovem leva
às costas uma música e os seus cabelos crescem
para esse lugar onde ele leva a música
e por fim no relvado um assunto de amor
os amantes que são o último veleiro
e estão sempre a partir num tapete voador
e estão sempre a chegar à sua eternidade
que tudo lhes devolve atrás do nevoeiro
de O anjo do Ocidente à entrada do ferro(1973)
Nictofagia
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,
Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las
E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,
Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!
Guerra santa
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
O Livro dos Amantes
Comentários (4)
Grandiosa
Um mulher de uma grande alma e pensamentos. Consegui lutar contra os tabus da época. Grandiosa e Correta no que escrevi e dizia.
Simplesmente magnífica!
Grandiosa! Estupenda! Completa! Magnífica! Estonteante!
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