Emoções e Sentimentos
Reynaldo Bessa
uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"
Mário de Sá-Carneiro
Inter-Sonho
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…
Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
…………………………………………………………….
Tateio… dobro… resvalo…
…………………………………………………………….
Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
…………………………………………………………….
Que pesadelo tão bom…
…………………………………………………………….
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
Mário de Sá-Carneiro
Inter-Sonho
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…
Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
…………………………………………………………….
Tateio… dobro… resvalo…
…………………………………………………………….
Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
…………………………………………………………….
Que pesadelo tão bom…
…………………………………………………………….
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
Mário de Sá-Carneiro
Inter-Sonho
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…
Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
…………………………………………………………….
Tateio… dobro… resvalo…
…………………………………………………………….
Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
…………………………………………………………….
Que pesadelo tão bom…
…………………………………………………………….
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
Marcus Vinicius Quiroga
ARQUITETURA E ASAS
não superfícies fechadas, paredes
não toldos, telhas, tetos, mas áreas
que se soltam das linhas das maquetes
No ofício de ver o ainda invisível,
argamassa desejos com pó de asa,
porque dentro de toda pedra vive
o avesso da pedra, de nome audácia
Quem habita, joga no espaço uma âncora,
sente o peso do porão e fantasmas,
entra em contato com o que havia antes,
que o tempo é também uma espécie de casca
Logo quem habita uma casa, habita
os dias que se abrem em quartos, salas
com janelas de fundos, cuja vista
é paisagem interna, temporária
Quem planeja, desenha perspectivas,
não supõe o inesperado despejo,
interdito de muros, cerca viva,
separação sem recurso ou apelo,
traça no papel a vida viável,
o chão que nasce através dos passos,
com arquitetura que se sabe ave
e não se prende às regras da sintaxe
Quem as habita, habita limiares
como se para além da régua e compasso
houvesse a morada solta nos ares
dentro de insuspeitos tempos e espaços
Quem do concreto um dia se desgarra
faz casas só de sonhos e presságios
Filipa Leal
O minuto certo
Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te
que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas
em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia,
o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas
caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se
fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde
alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu
nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas
que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri
as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos,
de cigarro na mão. Eu nunca me
comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses,
entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto
certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses
certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu
nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de
ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da
viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te
disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca
quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses
para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por
dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.
Filipa Leal
O minuto certo
Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te
que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas
em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia,
o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas
caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se
fecha para o amor. Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde
alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu
nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas
que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri
as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos,
de cigarro na mão. Eu nunca me
comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses,
entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto
certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses
certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu
nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de
ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da
viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te
disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca
quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses
para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por
dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.
Martha Medeiros
Relações virtuais
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
Friedrich Hölderlin
Curso da vida
A todos vence, a dor curva ainda mais,
E não é em vão que o nosso círculo
Volta ao ponto donde veio!
Para cima ou para baixo! Não sopra em noite sagrada,
Onde a Natureza muda medita dias futuros,
Não domina no Orco mais torto
Um direito, uma justiça também?
Foi isso que aprendi. Pois nunca, como os mestres mortais,
Vós, ó celestiais, ó deuses que tudo mantendes,
Que eu saiba, nunca com cuidado
Me guiastes por caminho plano.
Tudo experimente o homem, dizem os deuses,
Que ele, alimentado com forte mantença, aprenda a ser grato por tudo,
E compreenda a liberdade
De partir para onde queira.
Lebenslauf
Größers wolltest auch du, aber die Liebe zwingt
All uns nieder, das Leid beuget gewaltiger,
Doch es kehret umsonst nicht
Unser Bogen, woher er kommt.
Aufwärts oder hinab! herrschet in heilger Nacht,
Wo die stumme Natur werdende Tage sinnt,
Herrscht im schiefesten Orkus
Nicht ein Grades, ein Recht noch auch ?
.
Dies erfuhr ich. Denn nie, sterblichen Meistern gleich,
Habt ihr Himmlischen, ihr Alleserhaltenden,
Daß ich wüßte, mit Vorsicht
Mich des ebenen Pfades geführt.
.
Alles prüfe der Mensch, sagen die Himmlischen,
Daß er, kräftig genährt, danken für Alles lern,
Und verstehe die Freiheit,
Aufzubrechen, wohin er will.
– Friedrich Hölderlin. “Lebenslauf”/”Curso da vida”. in: Hölderlin: Poemas. (organização e tradução Paulo Quintela). Coimbra: Atlântida, 1959.
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Martha Medeiros
Relacionamento à distância
Relacionamento a distância — não são todos assim, hoje? Em vez de conviver, viramos uns bisbilhoteiros. Compreensível, já que esse troço chamado rede social captura mesmo. Se você é seguidor de gente interessante, então, é um vício, pois são muitos textos bem escritos, fotos originais, comentários divertidos, dicas de livros e filmes. Ainda assim, moderação e tino: ninguém é tão estupendo como se apresenta no mundo virtual. Onde foi parar nosso lado sombrio?
Fraquezas, angústias, dúvidas: não há espaço para eles no Instagram e no Facebook. Dá a impressão de que ninguém chora ou se atrapalha no cotidiano — são raros os que expõem sua bad trip (o ego não deixa). Normal, mas é bom lembrar que quem aprisiona sua dor não se relaciona, não para valer. Intimidade se atinge com divisão de fardo, troca. Paixões e amigos dão sentido à nossa vida porque ajudam a nos passar a limpo, a colarmos nossas fraturas, a nos tornarmos pessoas melhores. Cultuo a solidão, como já disse mil vezes, mas ela é um pit-stop, apenas. Se escolho estar só o tempo inteiro, sem interagir com as emoções dos outros e sem expressar as minhas inquietudes de viva voz, não evoluo, nada evolui.
Meu amigo conhecia profundamente sua namorada capixaba? Pouco, pois o WhatsApp não dá conta da nossa humanidade, não substitui olhares e abraços. Difícil demonstrar nossos desconfortos através de mensagens on-line, então dá-lhe oba-oba. Resultado: depressão virou epidemia e os suicídios se sucedem porque, entre outros motivos, as pessoas se sentem inadequadas por estar sofrendo, o que é um absurdo. Sofrer é adequado. Sofrer é normal. Todo mundo sofre, mesmo que não pareça. E não parece mesmo, pela tremenda distância estabelecida entre o nosso eu real e o real dos outros.
Do quarto dos pais ao quarto dos filhos pode existir um corredor de 2.000km a separá-los. Entre a minha cadeira no restaurante e a sua, abre-se uma cratera a cada vez que colocamos o celular sobre a mesa e ficamos checando as redes em vez de conversar, rir, fazer confidências. Relacionamento à distância é silêncio a dois, pode estar acontecendo aí mesmo dentro do seu casamento perfeito.
Ana Marques Gastão
Coração sexual
e, no entanto, Lisboa tem vergonha do poço
e do orifício, do labor do ofício, de um entra
e sai peregrino, implodindo de oprimido.
A ser quase coração, afirma-se no combate
dos glóbulos felinos entre o verbo carmim
de encarnado e o azul de um nobre fardo, mas
o labirinto passa pelo corpo de curta mente;
tudo se faz, nada se sente, viaja-se pela rede
das veias, artérias, do oxigénio vendido ao
interesse dos demais. Tu assim em meu ouvido,
as buzinas estalando, zumbindo, e eu dizendo
em modo hi-phone, «está lá, não oiço, diz-me
onde estás?» Lisboa não anda a pé, perde o
autocarro, esconde-se no assento do carro,
o músculo pulsando no furor dos sentidos,
caminhando por entre pontes cavadas e portões.
Lisboa de qualquer barco, do leito sem jeito,
atada ao faz que sim de um telemóvel, também
quando se grita por maior salário, não sabendo
quando passará a turbulência. Quem nos dera um
fingido verdadeiro discurso, o tal amor venenoso
da aorta ascendente surgindo; que o espírito
empurrasse o corpo, numa variação de beijo
caído sem sombra de ideal; quem nos dera esse
circuito, essa pressão, esse bombear, esse ser de
roda do outro para ser mais feliz. O que conta é,
porém, o excesso de realismo – o «não posso,
talvez um dia um café», esse tão brando, fácil,
elegante e puro sentir do «não estás cá e eu aqui»,
mas já nem do fixo se telefona, do auscultador
resta a dor, e da janela sobram as cavidades do cais.
Marcelo Montenegro
Bruxismo
exemplo. NÃO, não uma bebedeira, mas o começo
encantador da embriaguez. Um dia bom, qualquer
motivo, a vida irrigando o corpo com nicotina.
Podia ser uma baleia encalhada na praia
do amor. Um pote de raiva esquecido no sótão.
Podia ser uma antena em estado de coma.
Ou cacos de vidro num fliperama. Um fotógrafo
desolado por não estar com sua câmera
naquele momento. Ou um menino sentado
na ponte, balançando os pés ao som de si mesmo.
Podia ser uma seleção de crônicas publicadas
em lugar nenhum. Um deus discotecando
instantes. Um hidrante aberto no agora.
Podia ser uma mulher suspendendo a barra
da calça para saltar uma poça. Aqueles insetos
que morrem após a picada. Uma adega de
ausências que o tempo elabora. Podia ser
um exame que, buscando uma coisa, diagnostica
outra. SIM, podia ser isso tudo. Uma solidão
acesa no abajur da melodia. Um macaco
se olhando na água no primeiro dia do mundo.
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
Isabel Mendes Ferreira
da viagem secreta
Leonardo Aldrovandi
no andar de um homem perdido
um reflexo de luz sem pontas acena sob as névoas de nada
na cantoneira de couro suave, um novo minério da crise
projeta sua sombra virgem no silêncio leve de uma luneta
a gota de leite de vaca na lapela do ouriço bem comportado
inerte ao passo de uma ursa menor, gerente de hotelaria
a torcida freme e reluz diante do grande olaria
responde ao cansaço de tijolo que a redime e a acusa
na pia de gotas e cascas, o hormônio do frango empapuçado
num esfregaço de mel e cúrcuma, a conselho da doce fada
e no livro de faces morenas com outros botões de proveta
badejo-de-areia e garoupa em sobraço de um novo release
alguma sabedoria dos bálsamos renova o nosso expertise
a inteligência dos grunhidos e os abajures de ouvidoria
tapiocas alagoanas, joelhos sob o vento e a prancheta
a laje do salão de dança no balanço do chapéu medusa
entre véu, pombo e lençol, raspa, concepção imaculada
onde a colheita de Pentecostes repreende o atestado
os mesmos passos vazios que acompanham um caixão lacrado
retomam o salpicar dos pés na chegada à grande marquise
sem mais o vinco da calça branca ou qualquer bandeira alada
alguma matriz reformada que o sopro de Aelius alivia
no leme invisível do mangue que ora se usa e desusa
sargo de beiço aprumado com lábios largos cor violeta
sempre a doce imagem, do cancro ao lírio e à buceta
moletom mais lycra na água fluvial do abotoado
tanga de cinzas no céu blefado da vinha lusa
mais baunilha, menos tanino, à sombra do porta-valise
lampião da noitada vendendo joelhos em disritmia
e a nau feita em cuspe no museu atual da jangada
como esfiapar o pé-de-moleque, forma referendada
invadindo o rastro da festa em algum sacomã mais careta
embalando na forma adequada e sem qualquer covardia
as novas receitas mineiras com vinagre e pão recheado
será a tua confissão das letras apenas um seriado em reprise
nos pântanos menos circulados por vaca escovada e intrusa?
Num monte bem verde, o sonho de mais outra vida reclusa
recoberto de lordoses imaginadas da longa e triste remada
e na base do sinal de cão-bravo, pão, mel, gim, mazarize
Josely Vianna Baptista
RIVUS
de clepsidras, no sobrecéu ascendem (como anjos suspensos
numa casa barroca), e em presença de ausências o tempo
se distende. Uns seios de perfil, sono embalando
a rede, campânula encurvada pelas águas da chuva.
No horizonte invisível, dobras de anamorfoses;
sombras que se insinuam, a matéria mental.
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
Daniel Francoy
Este jardim foi construído
e não seja mais do que alguns botões secos de rosas
ainda presos aos ramos ou um punhado de pétalas secas
ao redor das raízes – um idílico cenário para que nele
vivêssemos jovens e não tivéssemos terror maior
do que os animais que desconhecem a palavra morte
e foi construído tendo como alicerce um princípio fundamental
para a tranquilidade de nossa agonia: o princípio da distração,
mas agora há um espelho diante do jardim
e ninguém consegue ser distraído de um espelho.
No começo, a atenção sobre cada detalhe do jardim refletido
causa certo encantamento: a beleza da louça do chá da tarde,
a placidez no semblante das estátuas, a ascensão tortuosa
e dolorosa das flores que buscam o céu com um sentimento
de profunda irmandade, a clareira de grama gasta e batida
no local em que dançamos, certos efeitos de claridade
nas horas em que sol parece evocar a pureza da água,
nós mesmos sentados – deuses que riem.
É preciso algum tempo – mas não tempo maior
do que o percurso de uma tarde – para que a imagem refletida
comece a causar certo incômodo. Então são moscas
que pousam sobre o resto de comida nos pratos
e voam em torno de nossas cabeças? E este bolor
no coração das estátuas não é incompatível
com o clima de sol perpétuo? Há também galhos
quebrados, com trapos sujos de sangue presos
aos espinhos, como que a delimitar o local
onde ocorreu uma cena de violência pouco comentada
durante o sarau. E sob o chão da clareira
não há sinais da presença de um formigueiro
e isso não explica por que nunca dançamos descalços
e por que enterramos os mortos em caixões?
José Mário Rodrigues
Lamento
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
José Mário Rodrigues
Lamento
subindo aos céus num trem de nuvens.
Lá se foi Margarida Alves
pelas veredas dos canaviais
na dança desnorteada dos ventos.
Não lamento as respirações interrompidas
sobre as pedras.
A morte é limpa e afirmativa
e suas vidas tiveram sentido.
Lamento os que ficam
sem sentido algum
e inúteis, covardes e impassíveis,
esperam apodrecer em seus domínios.
Daniel Francoy
Para pichar nos muros da cidade sitiada
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?