Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Alexandre S. Santos
Ao Léu
Como a escoar silente,
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
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Alexandre S. Santos
Ao Léu
Como a escoar silente,
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...
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João Maimona
Poema para Carlos Drummond de Andrade
No meio do caminho tinha uma pedra.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
C.D.A.
É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio de teu caminho.
Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.
Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.
Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste apenas uma pedra
no meio do caminho.
No caminho doloroso das coisas.
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Antero de Quental
Nox
Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
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Antero de Quental
Nox
Noite, vão para ti meus pensamentos,
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...
Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno mal , que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece, alguns momentos...
Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o mundo, te esquecesses,
E ele, o mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
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Anderson Braga Horta
Erotismo e Poesia
Neste breve discurso acerca de erotismo e poesia, desferiremos um vol doiseau sobre alguns dos mais notáveis acidentes eróticos da poesia brasileira, do Romantismo aos nossos dias. O assunto é saboroso, nossa poesia muito rica, talvez devesse eu ceder de pronto a voz aos poetas convocados, que têm muito a dizer; e muito mais poemas e poetas haveria, se espaço houvera. Mas como, afinal de contas, está comigo a palavra, não posso deixar de dizer alguma coisa própria a respeito, e é o que passo a fazer, contando com a paciência e boa vontade dos amigos.
De Eros, representaçao do Amor entre os gregos, desde o século VI a.C. cultuado principalmente como o deus da Paixão, vem erotismo. Significa paixão amorosa — o amor, não tanto no seu lado "cavalheiresco", platônico, dominante na poesia trovadoresca, por exemplo, mas antes no seu aspecto físico, sexual. A maior ou menor franqueza com que se pode, sem escândalo, falar do amor erótico, em literatura, varia de civilização para civilização; assim, obras que têm, em determinado país e tempo, serena posição nas letras, alhures ou em outra época poderão ser consideradas pornográficas. É como sói ser encarado no Ocidente o Kama-Sutra, antigo manual hindu de técnicas sexuais.
Mesmo em relação a obras da nossa cultura e do nosso tempo, é muita vez difícil a distinção entre arte e pornografia; e é verdade que a mesma obra pode agasalhar, lado a lado, ou misturados, imbricados, traços artísticos e traços pornográficos. Há de haver, sem embargo, meios ao alcance do leitor — e falo em leitor porque nos estamos cingindo à literatura, mais especificamente à poesia — para essa distinção. Tentando estabelecê-los, recorro a um breve discurso paralelo acerca do que chamo "a psicologia do palavrão".
Que vem a ser isto, um palavrão? Uma "palavra obscena ou grosseira", diz Mestre Aurélio, no seu dicionário. Mas, se temos duas palavras significando a mesma coisa, como, por que se há de associar a uma delas conotação de obscenidade, ou grosseria, e não à outra?
O que determina essa carga negativa, ou positiva, ou neutra, das palavras é a intenção. Deste modo, tem a língua, para significar os órgãos sexuais, palavras de uso restrito a meios técnicos ou científicos, e que podem ser fora daí empregadas sem susto, por serem meramente denotativas, eticamente neutras; palavras de uso familiar, carregadas de variável gama afetiva, que podemos dizer portadoras de conotação positiva; e palavras de baixo calão, que, além do significado, basicamente igual ao de suas irmãs retromencionadas, imantam-se de uma intenção negativa — de depreciação, achincalhe, deboche. Normalmente, estas últimas têm curso no escuso dos becos, em esconsos quartos ou frias salas, em meios onde os homens, vítimas da própria miséria, passam a ser uns para os outros não mais que objetos de egoístico prazer, ou sujo lucro. Por isto, não é necessariamente fruto de condenável preconceito a recusa de trânsito em níveis mais altos a certas palavras forjadas ou em curso naqueles meios; pois o que se recusa, ou deve recusar, nelas é a intenção que visa a diminuir o destinatário e que avilta o emitente. (Conseqüentemente, as palavras podem mudar de categoria, subir ou descer, degradar-se ou reabilitar-se, conforme o uso social que se lhes dê; e pode a mesma palavra pertencer a opostas categorias, em meios diversos.)
De modo semelhante, a qualificação de erótica ou pornográfica a obra literária depende do ponto de vista em que se coloque o autor (ou o leitor, o que relativiza ainda mais a questão). Transcrevo o que dizem a respeito Otto Maria Carpeaux e Sebastião Uchoa Leite, no verbete "erotismo" da Enciclopédia Mirador Internacional:
"A pornografia não provoca, em geral, questões de crítica literária; há, até, quem duvide se esses produtos pertencem à literatura em qualquer sentido da palavra. Essa dúvida atinge sobretudo as obras pornográficas que foram escritas com o único fim de estimular sensações sexuais. Mas em muitos casos a confecção de obras pornográficas serve para satisfazer os estímulos irrealizáveis dos próprios autores; trata-se, nesses casos, de fantasias de regressão infantil, de sonhos de poder sobre órgãos genitais alheios, que são o único tópico da pornografia ("pornotopia"). A exclusão de todos os outros motivos e a redução dos personagens a seus órgãos genitais são traços característicos da pornografia e indícios de que não se trata acaso de literatura propriamente dita."
Pornográfica é a obra em que se objetualiza o ser humano como pasto de paixões, reduzido o amor à bestialidade, isto é, à exacerbação e cega satisfação do instinto. E diria que a pornografia está para o erotismo assim como a prostituição está para o amor.
Não me lembra que escritor se perguntava, com real ou ficta perplexidade, por que não se dignavam os poetas de cantar os prazeres do paladar, como cantam os do amor. Sim, por que não merecerem algumas notas líricas as delícias do tutu com torresmo, o êxtase da feijoada completa, a ingenuidade da salada vegetal, os mistérios espirituais dos álcoois? (Estes até que não podem se queixar ... )
Poesia é transcendência. Por isto não canta o poeta o bom prato, a não ser no poema satírico. Por isto, ao cantar o amor, se não lhe despreza as materialidades, procura colher-lhe a volátil essência; nem é verdadeiramente poesia, senão torpe simulacro, essa, pseudo-erótica, incapaz de ultrapassar o descritivismo no âmbito da física sexual.
Uma e outra coisa existem e são necessárias. Só que não são, em si mesmas, objeto de poesia, como não o é o econômico, o técnico em geral. E, forçadas a um papel mais alto que o que lhes compete, tornam-se grotescas, ou obscenas.
Mas, esperem aí! — somos corpo e espírito, espírito e corpo. Quando sugiro espiritualização, não me entendam mal, não estou recusando o corpóreo. Nem me esqueço de que a poesia erótica ocidental tem raiz em seu livro sagrado — na Bíblia, no Velho Testamento, no Cântico dos Cânticos de Salomão. E como, nos seus cantares, se refere o rei poeta aos dotes da Sulamita? Em termos como estes, cuja sensualidade não elide a pureza:
"Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis trabalhados por
mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs."
Feito o intróito, cuja extensão espero me seja perdoada, passemos aos verdadeiros falantes desta jornada.
Álvares de Azevedo, um dos "gênios adolescentes" do nosso Romantismo, em cuja época se praticou pela primeira vez uma poesia caracterizadamente brasileira, morreu aos vinte anos, "sem na vida ter sentido nunca" — conforme se queixava no poema "Idéias Íntimas" — "na suave atração de um róseo corpo" os "olhos turvos se fechar de gozo". Não obstante, ou talvez por isso mesmo, sua lírica amorosa revela, no dizer de Antônio Soares Amora, erotismo tão explícito corno nunca antes, entre nós. É, pois, merecedor das honras da abertura. Leiam-se as estrofes iniciais de "Seio de Virgem":
"0 qu
De Eros, representaçao do Amor entre os gregos, desde o século VI a.C. cultuado principalmente como o deus da Paixão, vem erotismo. Significa paixão amorosa — o amor, não tanto no seu lado "cavalheiresco", platônico, dominante na poesia trovadoresca, por exemplo, mas antes no seu aspecto físico, sexual. A maior ou menor franqueza com que se pode, sem escândalo, falar do amor erótico, em literatura, varia de civilização para civilização; assim, obras que têm, em determinado país e tempo, serena posição nas letras, alhures ou em outra época poderão ser consideradas pornográficas. É como sói ser encarado no Ocidente o Kama-Sutra, antigo manual hindu de técnicas sexuais.
Mesmo em relação a obras da nossa cultura e do nosso tempo, é muita vez difícil a distinção entre arte e pornografia; e é verdade que a mesma obra pode agasalhar, lado a lado, ou misturados, imbricados, traços artísticos e traços pornográficos. Há de haver, sem embargo, meios ao alcance do leitor — e falo em leitor porque nos estamos cingindo à literatura, mais especificamente à poesia — para essa distinção. Tentando estabelecê-los, recorro a um breve discurso paralelo acerca do que chamo "a psicologia do palavrão".
Que vem a ser isto, um palavrão? Uma "palavra obscena ou grosseira", diz Mestre Aurélio, no seu dicionário. Mas, se temos duas palavras significando a mesma coisa, como, por que se há de associar a uma delas conotação de obscenidade, ou grosseria, e não à outra?
O que determina essa carga negativa, ou positiva, ou neutra, das palavras é a intenção. Deste modo, tem a língua, para significar os órgãos sexuais, palavras de uso restrito a meios técnicos ou científicos, e que podem ser fora daí empregadas sem susto, por serem meramente denotativas, eticamente neutras; palavras de uso familiar, carregadas de variável gama afetiva, que podemos dizer portadoras de conotação positiva; e palavras de baixo calão, que, além do significado, basicamente igual ao de suas irmãs retromencionadas, imantam-se de uma intenção negativa — de depreciação, achincalhe, deboche. Normalmente, estas últimas têm curso no escuso dos becos, em esconsos quartos ou frias salas, em meios onde os homens, vítimas da própria miséria, passam a ser uns para os outros não mais que objetos de egoístico prazer, ou sujo lucro. Por isto, não é necessariamente fruto de condenável preconceito a recusa de trânsito em níveis mais altos a certas palavras forjadas ou em curso naqueles meios; pois o que se recusa, ou deve recusar, nelas é a intenção que visa a diminuir o destinatário e que avilta o emitente. (Conseqüentemente, as palavras podem mudar de categoria, subir ou descer, degradar-se ou reabilitar-se, conforme o uso social que se lhes dê; e pode a mesma palavra pertencer a opostas categorias, em meios diversos.)
De modo semelhante, a qualificação de erótica ou pornográfica a obra literária depende do ponto de vista em que se coloque o autor (ou o leitor, o que relativiza ainda mais a questão). Transcrevo o que dizem a respeito Otto Maria Carpeaux e Sebastião Uchoa Leite, no verbete "erotismo" da Enciclopédia Mirador Internacional:
"A pornografia não provoca, em geral, questões de crítica literária; há, até, quem duvide se esses produtos pertencem à literatura em qualquer sentido da palavra. Essa dúvida atinge sobretudo as obras pornográficas que foram escritas com o único fim de estimular sensações sexuais. Mas em muitos casos a confecção de obras pornográficas serve para satisfazer os estímulos irrealizáveis dos próprios autores; trata-se, nesses casos, de fantasias de regressão infantil, de sonhos de poder sobre órgãos genitais alheios, que são o único tópico da pornografia ("pornotopia"). A exclusão de todos os outros motivos e a redução dos personagens a seus órgãos genitais são traços característicos da pornografia e indícios de que não se trata acaso de literatura propriamente dita."
Pornográfica é a obra em que se objetualiza o ser humano como pasto de paixões, reduzido o amor à bestialidade, isto é, à exacerbação e cega satisfação do instinto. E diria que a pornografia está para o erotismo assim como a prostituição está para o amor.
Não me lembra que escritor se perguntava, com real ou ficta perplexidade, por que não se dignavam os poetas de cantar os prazeres do paladar, como cantam os do amor. Sim, por que não merecerem algumas notas líricas as delícias do tutu com torresmo, o êxtase da feijoada completa, a ingenuidade da salada vegetal, os mistérios espirituais dos álcoois? (Estes até que não podem se queixar ... )
Poesia é transcendência. Por isto não canta o poeta o bom prato, a não ser no poema satírico. Por isto, ao cantar o amor, se não lhe despreza as materialidades, procura colher-lhe a volátil essência; nem é verdadeiramente poesia, senão torpe simulacro, essa, pseudo-erótica, incapaz de ultrapassar o descritivismo no âmbito da física sexual.
Uma e outra coisa existem e são necessárias. Só que não são, em si mesmas, objeto de poesia, como não o é o econômico, o técnico em geral. E, forçadas a um papel mais alto que o que lhes compete, tornam-se grotescas, ou obscenas.
Mas, esperem aí! — somos corpo e espírito, espírito e corpo. Quando sugiro espiritualização, não me entendam mal, não estou recusando o corpóreo. Nem me esqueço de que a poesia erótica ocidental tem raiz em seu livro sagrado — na Bíblia, no Velho Testamento, no Cântico dos Cânticos de Salomão. E como, nos seus cantares, se refere o rei poeta aos dotes da Sulamita? Em termos como estes, cuja sensualidade não elide a pureza:
"Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis trabalhados por
mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs."
Feito o intróito, cuja extensão espero me seja perdoada, passemos aos verdadeiros falantes desta jornada.
Álvares de Azevedo, um dos "gênios adolescentes" do nosso Romantismo, em cuja época se praticou pela primeira vez uma poesia caracterizadamente brasileira, morreu aos vinte anos, "sem na vida ter sentido nunca" — conforme se queixava no poema "Idéias Íntimas" — "na suave atração de um róseo corpo" os "olhos turvos se fechar de gozo". Não obstante, ou talvez por isso mesmo, sua lírica amorosa revela, no dizer de Antônio Soares Amora, erotismo tão explícito corno nunca antes, entre nós. É, pois, merecedor das honras da abertura. Leiam-se as estrofes iniciais de "Seio de Virgem":
"0 qu
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Jules Laforgue
Solo de Lua
Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
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Jules Laforgue
Solo de Lua
Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
1 557
1
Jules Laforgue
Solo de Lua
Fumo, de frente para o céu,
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
Sobre a imperial da carruagem;
Meu corpo aos solavancos, minh’alma dança
Como um Ariel;
Sem mel, sem fel, minha bela alma dança,
Ó colinas, ó fumaças, ó vales, ó viagem!
Minha bela alma, recapitulemos.
Nós nos amávamos como dois loucos, perdidamente,
Nos separamos sem falar a respeito.
Um spleen me mantinha ausente
E esse spleen me vinha de tudo. Perfeito.
Seus olhos diziam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém quis dar o primeiro passo,
Querendo demais cair juntos num abraço.
(Entende?)
Onde está ela agora?
Talvez ela chora...
Onde está ela agora?
Ah! Cuide-se ao menos, senhora!
O frescor dos bosques ao longo da avenida,
O xale de melancolia, toda alma está um pouco à espia,
Pois minha vida
É malquerida!
Esta imperial da carruagem tem certa magia.
O irreparável acumulemos!
Nossa sorte desafiemos!
Há mais estrelas do que grãos de areia no mar,
Onde outros viram seu corpo se banhar;
Mas tudo acaba morto.
Não há porto.
Os anos vão passar,
Cada um vai teimar,
E muitas vezes, já posso imaginar,
Vamos dizer: "Se eu tivesse sabido..."
Mas se tivéssemos casado, não teríamos dito:
"Se eu tivesse sabido, se eu tivesse sabido!..."?
Ah! Encontro maldito!
Ah! Meu coração encurralado!...
Tenho-me mal comportado.
Maníacos por felicidade,
Então, que vamos fazer? Eu com a espiritualidade,
Ela com sua falível pouca idade?
Ó pecadora a envelhecer,
Oh! Quantas noites infame vou-me fazer
Para teu prazer!
Seus olhos piscavam: "Entende?
Por que você não entende?"
Mas ninguém deu o primeiro passo
Para cairmos juntos, ah!, num abraço.
A lua se eleva,
Ó estrada de grande sonho!...
Passamos as fiações, a serraria,
Mais que os marcos do caminho,
Nuvenzinhas de um rosa de confeitaria,
Enquanto um fino crescente de lua se eleva,
Ó nenhuma música, ó estrada de sonho...
Nesses bosques de pinho
Onde desde o começo do mundo
É sempre treva,
Que quarto limpo e profundo!
Oh! Para uma noite de mudança!
E eu os povôo e neles me vejo,
E é um casal de amantes, num beijo,
Que fora da lei dança.
E eu passo e os deixo,
E torno a me deitar frente ao céu.
A roda gira, sou Ariel,
Ninguém me espera, visitas desleixo,
Sou amigo só dos quartos de hotel.
A lua ascende,
Ó grande sonho de estrada,
Ó estrada sem escopo,
Eis a parada,
Onde a lanterna se acende,
Onde se bebe um copo
De leite, e fustiga o postilhão,
No estrilo dos grilos,
Sob as estrelas de verão.
Ó luar,
Festa de fogos de artifício afogando meu penar,
As sombras dos choupos sobre o caminho...
Ouve-se o borburinho...
Do riacho a cantar...
Do rio Lete a inundar...
Ó Solo de lua,
Desafias minha pluma,
Oh! Esta noite na estrada:
Ó estrelas, vocês dão medo, por nada,
E estão todas aí! todas agora!
Ó fugacidade desta hora...
Oh! Se eu pudesse bem
Proteger a alma até o outono que vem!
Faz frio, muito frio a esta hora,
Oh! se também agora,
Ela vai pelas florestas,
Sua desgraça afogar
Nas festas do luar!...
(Ela gosta tanto de passear a esta hora!)
Deve ter esquecido de se agasalhar,
Vai ficar doente, dada a beleza da hora!
Oh! Cuida-te, senhora!
Oh! Essa tosse não quero mais escutar!
Ah! Por que não caí de joelhos!
Ah! Por que não desmaiaste em meus joelhos!
Eu teria sido um marido modelo!
Como o frufru do teu vestido é o frufru modelo.
1 557
1
Alberto de Serpa
Espetáculo
Passa a tropa na rua e abrem-se as janelas de repente,
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
Debruçam-se bustos sobre a rua sem importância.
O sol põe resplendores no ouro falso das bandeiras
E rebrilha nas baionetas erguidas para o céu.
Alarga-se no ar um hino de guerra e de heroísmo,
E a marcha certa dos soldados hirtos e compenetrados
de que são outros homens
Faz, a seu compasso resoluto, bater
O coração dos habitantes da rua sossegada ...
Os meninos vêem finalmente marchar os seus soldados de chumbo ...
As moças sonham desfalecer nos braços dos heróis
E agitam os seus lenços ao vento da manhã...
Só dentro de uma janela que há de abrir-se na noite,
Uma mulher triste olha para longe sem ver
E leva o lenço aos olhos encharcados ...
1 485
1
Alberto de Serpa
Mar Morto
A noite caiu sobre o cais, sobre o mar, sobre mim...
As ondas fracas, contra o molhe, são vozes calmas de afogados.
O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,
mas os barcos que saem podem procurar mais noite,
e com as suas luzes vão pôr mais estrelas além ...
O vento foi para outros cais levar o medo,
e as mulheres, que vêm dizer adeus e cantar,
hoje sabem canções com mais esperança,
canções mais fortes que a ressaca,
canções sem pausas onde passe uma sombra da morte...
Velhos marítimos — a terra é já a sua terra —
olham o mar mais distante e têm maior saudade...
Pára o rumor duns remos...
Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...
Penso em todos os que foram e andam no mar,
em todos os que ficam e andam no mar também ...
E a luz do farol, lá longe, diz talvez...
As ondas fracas, contra o molhe, são vozes calmas de afogados.
O luar marca uma estrada clara e macia nas águas,
mas os barcos que saem podem procurar mais noite,
e com as suas luzes vão pôr mais estrelas além ...
O vento foi para outros cais levar o medo,
e as mulheres, que vêm dizer adeus e cantar,
hoje sabem canções com mais esperança,
canções mais fortes que a ressaca,
canções sem pausas onde passe uma sombra da morte...
Velhos marítimos — a terra é já a sua terra —
olham o mar mais distante e têm maior saudade...
Pára o rumor duns remos...
Não vão mais às estrelas as canções com noite, amor e morte...
Penso em todos os que foram e andam no mar,
em todos os que ficam e andam no mar também ...
E a luz do farol, lá longe, diz talvez...
1 912
1
João José Cochofel
Breve
Breve
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
1 747
1
Antero de Quental
Uma amiga
Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
2 863
1
Antero de Quental
Uma amiga
Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
2 863
1
Antero de Quental
Uma amiga
Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que a noite evoca o sentimento...
Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim... mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!
Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!
Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!
2 863
1
Giselda Medeiros
Tua Voz
Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
1 098
1
Giselda Medeiros
Tua Voz
Sons cismarentos
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
de nebulosos sinos
distantes.
Sugestões de languidez
e de sândalos
dormentes.
Fluidez de espadas
golpeando, trêmulas,
os tímpanos das minhas dores.
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José Vasconcelos
Um Novo Dia
Vejo-me nos seus olhos
no silêncio desta manhã que nasce
renovando belezas,
despertando relvas novas,
vivificando a terra.
Vivamos este instante
de restos de orvalho,
de folhas verdes,
cheiro de mato novo,
e fertilidades vindouras.
Deixemo-nos envolver
neste encanto harmônico,
nesta paisagem inundada de luz,
de horizontes bonitos,
cheios de paz e distâncias,
relembrando um passado,
uma saudade,
um querer que é todo amor,
que é todo nosso,
que mora em mim,
em você.
Que nos embriaga de aromas
em manifestações de desejos
místicos e físicos;
que nos unem agora
em beijos úmidos,
carícias ternas,
sob a luz
de UM NOVO DIA.
no silêncio desta manhã que nasce
renovando belezas,
despertando relvas novas,
vivificando a terra.
Vivamos este instante
de restos de orvalho,
de folhas verdes,
cheiro de mato novo,
e fertilidades vindouras.
Deixemo-nos envolver
neste encanto harmônico,
nesta paisagem inundada de luz,
de horizontes bonitos,
cheios de paz e distâncias,
relembrando um passado,
uma saudade,
um querer que é todo amor,
que é todo nosso,
que mora em mim,
em você.
Que nos embriaga de aromas
em manifestações de desejos
místicos e físicos;
que nos unem agora
em beijos úmidos,
carícias ternas,
sob a luz
de UM NOVO DIA.
865
1
Mário de Sá-Carneiro
Crise Lamentável
Gostava
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe ...
E não há forma: cada vez mais perdida
Mas a destreza de saber pegar-lhe.
Viver em casa como toda a gente,
Não Ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês com as
Despesas pagas religiosamente.
Não Ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha torre ebúrnea abrir janelas
Numa palavra, e não fazer mais cenas.
Ter força um dia para quebrar as roscas
Desta engrenagem que emperrando vai.
– Não mandar telegramas ao meu pai
– Não andar por Paris, como ando , às moscas.
Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prá rua.
Pôr termo a isto de viver na lua,
– perder a frousse das correntes de ar.
Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa de amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias duvidosas
Que em fantasia apenas argumento.
Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o oiro em chumbo se derrete
Por meu azar ou minha zoina suada ...
5 570
1
Ronald de Carvalho
Uma noite em Los Andes
"Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.
De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...
Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.
A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.
Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.
Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...
Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."
Andes eu amei como nunca o Brasil.
De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...
Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.
A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.
Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.
Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...
Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."
2 203
1
Ronald de Carvalho
Uma noite em Los Andes
"Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.
De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...
Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.
A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.
Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.
Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...
Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."
Andes eu amei como nunca o Brasil.
De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...
Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.
A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.
Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.
Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...
Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."
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Alberto Augusto Miranda
Saída
Saída
mulher a fazer vento espantada
da falta do mesmo
assim não se pranteando
em ligeiros indícios com a mão lenta
e um pé semovente um pouco à frente
do que antes
ter uma fé em suave detérmino
devagar abandonando abandonos
finíssima brisa nascendo em si
sobrecalando rugidos, pancadas em rumor, gritos
por detrás de onde a vemos sair agora
em todos os lados o luar se faz divino
sopro.
mulher a fazer vento espantada
da falta do mesmo
assim não se pranteando
em ligeiros indícios com a mão lenta
e um pé semovente um pouco à frente
do que antes
ter uma fé em suave detérmino
devagar abandonando abandonos
finíssima brisa nascendo em si
sobrecalando rugidos, pancadas em rumor, gritos
por detrás de onde a vemos sair agora
em todos os lados o luar se faz divino
sopro.
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Amélia Rodrigues
A Minha Rosa
Passeando em meu jardim,
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
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