Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernão Rodrigues Lobo Soropita
A uma partida
Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
571
Fernão Rodrigues Lobo Soropita
A uma partida
Partistes-vos, e [a] alma juntamente
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
Em partes desiguais se me partiu;
A melhor, que era vossa, vos seguiu;
Ficou-me a outra, fraca e descontente.
Bem sei que a natureza o não consente,
Mas Amor, que mais pode, o consentiu,
Por que a fé que em presença vos serviu,
Também vos sirva agora, estando ausente.
Eu, sem mim e sem vós, não sei que espero,
Nem com que maravilhas me sustento
Nas sombras tristes do meu bem passado.
Só sei que cada dia mais vos quero,
E que por mais que possa o esquecimento,
Nunca poderá mais que meu cuidado.
571
António Ferra
Gótica de Corpete Negro
Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!
Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,
é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.
De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.
Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.
E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
647
Nuno Gomes dos Santos
O mar é uma lonjura
O mar é uma lonjura entre dois portos
um ponto de chegada e de partida
o mar é esta noite em que dois corpos
descobrem a maré-cheia da vida
O mar é uma lágrima perdida
mil vezes retratada em corpo inteiro
uma colcha de penas estendida
na cama deste barco marinheiro
E quando a solidão não é ser mar
é ser apenas água de um ribeiro
ou então se uma jangada a naufragar
se cruza com a soberba de um veleiro
Então é que começa o mar revolto
que é esta gaivota no meu peito
e então é que o poema fica solto
liberto como um rio fora do leito
Que eu sempre hei-de dizer que navegar
não é estar no porão como quem teme
que a vida há-de ser um barco no mar
e eu um marinheiro sempre ao leme.
um ponto de chegada e de partida
o mar é esta noite em que dois corpos
descobrem a maré-cheia da vida
O mar é uma lágrima perdida
mil vezes retratada em corpo inteiro
uma colcha de penas estendida
na cama deste barco marinheiro
E quando a solidão não é ser mar
é ser apenas água de um ribeiro
ou então se uma jangada a naufragar
se cruza com a soberba de um veleiro
Então é que começa o mar revolto
que é esta gaivota no meu peito
e então é que o poema fica solto
liberto como um rio fora do leito
Que eu sempre hei-de dizer que navegar
não é estar no porão como quem teme
que a vida há-de ser um barco no mar
e eu um marinheiro sempre ao leme.
774
Herberto Helder
As Palavras 2
A pessoa escolhe a parte mais fria, e dispõe absolutamente a camélia ou a viva madeira da viola.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
663
Herberto Helder
Os Ritmos 12
Pendurada pelos cabelos, no meio do estúdio, há uma cabeça decepada que pensa: é este o meu filho?
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
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Herberto Helder
Os Ritmos 16
Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.
2 630
Alice Vieira
Taxidermias
(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
699
Alice Vieira
Taxidermias
(para o Frederico Klumb, por ocasião de um tropeço-comum)
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
que tenho eu com a gênese da beleza
tempestade de aço
se tens meu corpo e todos os seus agudos sinais
angústia dúplice
quantos nomes serão necessários
para que não tomes mais os meus órgãos
de assalto, para que não sejas o invólucro
impiedoso de todas as noites
para que não venças em teu propósito de minha
implosão fragmentária
quantos nomes serão necessários para que tuas dobras
não ultrapassem a vertigem comum dos dedos
Vênus tripartite, convocação ao delírio e à
sutura, assim não, mulher, você desata
uma música diferente de todas as outras (minha)
– Shostakóvitch? Por que tão agressiva
se inevitável, quem te adivinha a escala cromática
para que teu incômodo cumpra a inscrição
visível em minha pele
e eu te reconstitua – palha a palha –
com todo o teu direito a uma constelação
do desassossego?
699
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
676
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
676
Fernando Fitas
Deitado foi teu corpo
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
sobre a cama
na comunhão efémera
dos corpos,
na generosa entrega acontecida
E dilatando-se um corpo
noutro corpo
foi mais intensa
e mais sublime a dádiva,
foi mais belo e verdadeiro o amor
Deitado foi teu corpo
sobre a cama
onde hoje jaz inerte
o pó do tempo.
715
Matilde Campilho
Rugove
Levantei-me para o contrário disso — a tempestade
Foi como daquela vez em que morava na América
E regressei a casa para o contrário disso — a quebra
Prometeram-nos dias de sol depois após terror dos 30 dias
Disseram que fevereiro seria o contrário disto — o breu
Vesti-me a rigor para o desenho na casca dos jacarandás
Porque estava anunciado nos cartazes o contrário disto
Achei que nalgum momento a luz viria tomar conta de tudo
Que de forma ou outra lavaríamos os cabelos no mar
Mas hoje o que se vê da janela é o oposto do clarão
É mais uma volta na avenida com ombros cobertos de pavor
E eu só sei que acordamos sempre para o contrário disto
Somos os filhos do verão — somos o inverso da escuridão
Foi como daquela vez em que morava na América
E regressei a casa para o contrário disso — a quebra
Prometeram-nos dias de sol depois após terror dos 30 dias
Disseram que fevereiro seria o contrário disto — o breu
Vesti-me a rigor para o desenho na casca dos jacarandás
Porque estava anunciado nos cartazes o contrário disto
Achei que nalgum momento a luz viria tomar conta de tudo
Que de forma ou outra lavaríamos os cabelos no mar
Mas hoje o que se vê da janela é o oposto do clarão
É mais uma volta na avenida com ombros cobertos de pavor
E eu só sei que acordamos sempre para o contrário disto
Somos os filhos do verão — somos o inverso da escuridão
988
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
No bicentenário de Kant
Sim —
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
digo que foi sublime. Mas
não desse carácter que certas coisas tomam —
pores de sol numa paisagem vasta
como queria Kant
no seu entendimento extenso
quando se avolumam quando se tornam
grandes como se crescessem para lá do mensurável
e do humano. Antes um sublime
de modéstia ou de pensão barata
de cerveja
tépida num bar em rua lateral às avenidas.
Seja —
nem gestos maiores do que os mais simples
nem outra coisa que os corpos
a sua lividez
a sua bela doçura contra um fundo de ruídos
quotidianos
a sua fome sangrenta e manchada
de culpa
de pecado. Assim nada
que se comente em círculos mais híbridos
ou se diga fora de outro modo de dizer
do que esse que os mesmos corpos pedem
ansiosos
logo se reconhecem.
Na pintura talvez —
por exemplo o sábio Tiziano
velho pintor ousando
toda aquela nudez desfigurada
como se pintasse com o próprio sexo
debaixo das poses voluptuosas
de cânones ainda consentidos
em paganismo de entreter salões
outros segredos que as imagens conservaram.
Sublime então —
não de grandeza ou de terror
mas o da pele
a sibilina pele arrepiando-se
contra um frio mosaico
os joelhos nus
ajoelhando-se uma boca ávida
uma língua a inclinar-se dos dentes
como num quadro de Bacon. Ou
estremecendo um sexo
quando tocado de outro
um do outro
um no outro
um contra o outro
talvez
porque esta guerra é sublime
porque um abraço é sublime quando
transporta ao mesmo tempo a vida e a morte. Quando
contém na vida a própria morte
um espasmo — um retesar dos músculos
que se querem ainda impetuosos
mesmo se já feridos do cansaço —
isso é o sublime. O da matéria. O dos pobres
também porque de repente iguais
todos iguais a todos quando
na morte como no gesto nu
despedaçando urgente extremo
exacto o arco que se tende —
isso —
é o mais mortal
porque o mais verdadeiro.
623
Luís Filipe Castro Mendes
Música Calada
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
529
Luís Filipe Castro Mendes
Música Calada
Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.
E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.
Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar
529
Francisco Luís Amaro
Retrato
Um silêncio, um olhar, uma palavra:
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
Nasceste assim na minha vida,
Inesperada flor de aroma denso,
Tão casual e breve...
Já te visionara no meu sonho,
Imagem de segredo, esparsa ao vento
Da noite rubra, delicada, intacta.
E pressentira teu hálito na sombra
Que minhas mãos desenham, inquietas.
Existias em mim. O teu olhar
Onde cintila, pura, a madrugada,
Guardara-o no meu peito, ó invisível,
Flutuante apelo das raízes
Que teimam em prender-te, minha vida!
853
Matilde Campilho
Não É Cair: É Voar Com Estilo
I was going to right to a poem but then I didn’t. A week ago I wrote to you a tiny telegram que dizia: “I’ll be home soon! Do not cry princess.” Foi duro pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos a muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram. Sebastião, Antônio, Jorge e as multidões revolucionárias que andam ascabuçadas com a crise econômica. Às vezes, penso na fazendo do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem as barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia, mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá vai. Já é lucaraça. Fiz-me poeta para dizeres okay. “Don’t you understand?” Como dizia o rapaz na chuva: “Don’t you?”. Isto não ouviria comigo, esquece! Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e horas são. Esta noite escrevi outro sério pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas coração, mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas. Bá. Andas bem empenhado em saber porque raios é que escrevo em inglês, mas nem eu sei. Deve ser só mais fácil mentir à estrangeiro. Desde que este da poesia era tudo verdade, mas não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano e agora fica aqui sentado na minha fazenda assistindo a transição das estações. Alguém fez disso uma enorme ilusão. E olha que nem sei o que é a morte. My bad or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala é só puxar os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade o homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz uns cento e tal euros por mês. Saudade do Rio all, my friend. Saudade de tudo aqui que a gente foi um dia, mas agora só existem os poemas. A mentira dos poemas. E a tradução dos poemas feitas por heróis que julgam, sei lá, amar a história que já morreu. Guarda nuns sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.
741
Matilde Campilho
Golpe de 7 Graus
Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 250
Matilde Campilho
Golpe de 7 Graus
Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
1 250
Matilde Campilho
Golpe de 7 Graus
Há aquele poema que fala de renas
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
e do filho gigantesco
que nos atravessa as cabeças geladas
Fala de uma astrolírica saudade
que levanta a nave até ao nome
Mas olha esse nome nem é meu
porque ao meu nome lhe falta uma letra
É um poema mais ou menos de exílio
mais ou menos não
Não sei se fala do amor por alguém
e isso não me importa nem um pouco
O amor desenhado à luz das flores velhas
não me interessa mais
Não agora, não depois disto
Esta manhã a persiana do meu quarto
partiu ao meio
não deu para ver o mar da varanda
Uma porta entreaberta
não deixa ver o real
Esta manhã não sei se existiram os melros
depenicando a relva do vizinho
Não sei se vieram os cavalos
para estrumar a terra úmida
de quase dezembro
Não sei se vieram as ruas
da cidade onde já morei
Sim as ruas estiveram neste quarto
isso é mais que certo
Mas eu não sei se vieram antes
ou depois do princípio da manhã
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade sem renas
Passeava na avenida onde uma vez
um colibri se embrenhou em minha testa
na época pensei que era o sinal do amor
Fui a ver e não era sinal de nada
era só a simpatia do passarinho
e isso foi mais que suficiente
Hoje durante o sono
eu passeava na cidade
onde o filho até já pariu irmãoes
onde Carlos me ofereceu três papéis de Zbigniew
onde o cachorro andava meio adoentado
e onde precisei fazer de spiderman
para fugir ao feitiço da umbanda
Hoje durante o sono
eu me perdi nas sete estradas
ao volante de um opel Vectra
Mas rapidamente me achei
porque casa da gente a gente acha
Depois acordei
para o poema
Para o urro doloroso
da palavra Fidelidade
Para o contorno trêmulo
da letra que me falta
Para o país do azevinho
e da excitação coletiva
costurada a verde e a vermelho
Para o tom neutro do cansaço
que acontece principalmente aos domingos
quando a rena ainda não se transformou em cervo
Quando o bicho ainda não veio
comer das folhas de minhas mãos
Nem soprar seu bafo quente
para formar as folhas
que devem crescer-me nos pulmões
Acordei para o som do rádio
que não tocava triste nem fútil
não falava da morte nem dos carretos
Que só acertava os pontos
com o planeta
repetindo aquela frase
que sempre vem exatamente antes
da frase que diz
It’s lonely out in space.
Saudade, astrolírica saudade
teu nome perdeu o agá.
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