Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Afonso X
Dom Rodrigo, Moordomo, Que Bem Pôs a 'L-Rei a Mesa
Dom Rodrigo, moordomo, que bem pôs a 'l-rei a mesa
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
558
Airas Nunes
Oí Hoj'eu Ua Pastor Cantar
Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".
E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".
E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".
Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".
E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".
E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".
Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
827
Airas Nunes
Oí Hoj'eu Ua Pastor Cantar
Oí hoj'eu ũa pastor cantar
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".
E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".
E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".
Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
u cavalgava per ũa ribeira,
e a pastor estava senlheira
e ascondi-me pola ascuitar;
e dizia mui bem este cantar:
"Sô lo ramo verd'e frolido
vodas fazem a meu amigo,
e choram olhos d'amor".
E a pastor parecia mui bem,
e chorava e estava cantando,
e eu mui passo fui-mi achegando
pola oír e sol nom falei rem;
e dizia este cantar mui bem:
"Ai estorninho do avelanedo,
cantades vós e moir'eu e pen'
e d'amores hei mal".
E eu oí-a sospirar entom,
e queixava-se estando com amores,
e fazi'[ũ]a guirlanda de flores,
des i chorava mui de coraçom
e dizia este cantar entom:
"Que coita hei tam grande de sofrer:
amar amig'e non'ousar veer!
E pousarei sô lo avelanal".
Pois que a guirlanda fez a pastor,
foi-se cantando, indo s'en manselinho,
e tornei-m'eu logo a meu caminho,
ca de a nojar nom houve sabor;
e dizia este cantar bem a pastor:
"Pela ribeira do rio
cantando ia la virgo
d'amor:
«quem amores há
como dormirá,
ai bela frol?»".
827
Afonso X
Dom Gonçalo, Pois Queredes Ir Daqui Pera Sevilha
Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.
E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.
E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.
E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.
E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
744
Afonso X
Fui Eu Poer a Mão Noutro Di
Fui eu poer a mão noutro di-
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.
U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!
Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.
Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.
E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.
U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!
Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.
Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.
E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!
764
Afonso X
Fui Eu Poer a Mão Noutro Di
Fui eu poer a mão noutro di-
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.
U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!
Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.
Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.
E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!
a a ũa soldadeira no tonom,
e disse-m'ela: - Tolhed'alá, Dom
[..............................................]
ca nom é est'a de Nostro Senhor
paixom, mais é-xe de mim, pecador,
por muito mal que me lh'eu mereci.
U a voz começastes, entendi
bem que nom era de Deus aquel som,
ca os pontos del no meu coraçom
se ficarom, de guisa que log'i
cuidei morrer, e dix'assi: - Senhor,
beeito sejas tu, que sofredor
me fazes deste marteiro por ti!
Quisera-m'eu fogir logo dali,
e nom vos fora mui[to] sem razom,
com medo de morrer e com al nom,
mais nom púdi, tam gram coita sofri;
e dixe log'entom: - Deus, meu Senhor,
esta paixom sofro por teu amor,
pola tua, que sofresti por mim.
Nunca dê'lo dia 'm que eu naci
fui tam coitada, se Deus me perdom;
e com pavor aquesta oraçom
comecei logo e dixe a Deus assi:
- Fel e azedo bevisti, Senhor,
por mim, mais muit'est aquesto peior
que por ti bevo, nem que acevi.
E por en, ai Jesu Cristo, Senhor,
eno Juízo, quand'ante ti for,
nembre-ch'esto que por ti padeci!
764
Afonso X
O Genete
O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
661
Afonso X
Maria Pérez Vi Muit'assanhada
[Maria Pérez vi muit'assanhada,]
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
646
Afonso X
Maria Pérez Vi Muit'assanhada
[Maria Pérez vi muit'assanhada,]
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
646
Afonso X
Maria Pérez Vi Muit'assanhada
[Maria Pérez vi muit'assanhada,]
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
646
Afonso X
Bem Sabia Eu, Mia Senhor
Bem sabia eu, mia senhor,
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
que pois m'eu de vós partisse
que nunc' haveria sabor
de rem, pois vos eu nom visse,
porque vós sodes a melhor
dona de que nunca oísse
homem falar;
ca o vosso bom semelhar
sei que par
nunca lh'homem pod'achar.
E pois que o Deus assi quis,
que eu som tam alongado
de vós, mui bem seede fiz
que nunca eu sem cuidado
en viverei, ca já Paris
d'amor nom foi tam coitado
[e] nem Tristam;
nunca sofrerom tal afã,
nen'[o] ham
quantos som, nem seeram.
Que farei eu, pois que nom vir
o mui bom parecer vosso?
Ca o mal que vos foi ferir
aquel é [meu] x'est o vosso;
e por ende per rem partir
de vos muit'amar nom posso;
nen'[o] farei,
ante bem sei ca morrerei,
se nom hei
vós que [já] sempr'am[ar]ei.
879
Afonso X
Joam Rodriguiz Foi Desmar a Balteira
Joam Rodriguiz foi desmar a Balteira
sa midida, per que colha sa madeira;
e disse: - Se [o] bem queredes fazer,
de tal midida a devedes colher
[assi] e não meor, per nulha maneira.
E disse: - Esta é a madeira certeira,
e, de mais, nõn'a dei eu a vós sinlheira;
e pois que s'em compasso há de meter,
atam longa deve toda [a] seer
[que vaa] per antr'as pernas da 'scaleira.
A Maior Moniz dei já outra tamanha,
e foi-a ela colher logo sem sanha;
e Mari'Airas feze-o logo outro tal,
e Alvela, que andou em Portugal;
e já x'as colherom [e]na montanha.
E diss': - Esta é a midida d'Espanha,
ca nom de Lombardia nem d'Alamanha;
e porque é grossa, nom vos seja mal,
ca delgada para gata rem nom val;
e desto mui mais sei eu [i] ca boudanha.
sa midida, per que colha sa madeira;
e disse: - Se [o] bem queredes fazer,
de tal midida a devedes colher
[assi] e não meor, per nulha maneira.
E disse: - Esta é a madeira certeira,
e, de mais, nõn'a dei eu a vós sinlheira;
e pois que s'em compasso há de meter,
atam longa deve toda [a] seer
[que vaa] per antr'as pernas da 'scaleira.
A Maior Moniz dei já outra tamanha,
e foi-a ela colher logo sem sanha;
e Mari'Airas feze-o logo outro tal,
e Alvela, que andou em Portugal;
e já x'as colherom [e]na montanha.
E diss': - Esta é a midida d'Espanha,
ca nom de Lombardia nem d'Alamanha;
e porque é grossa, nom vos seja mal,
ca delgada para gata rem nom val;
e desto mui mais sei eu [i] ca boudanha.
579
Afonso X
Vi Um Coteife de Mui Gram Granhom
Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
639
Afonso X
Pois Que M'hei Ora D'alongar
Pois que m'hei ora d'alongar
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.
Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.
E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.
Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.
E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
715
Afonso X
Pois Que M'hei Ora D'alongar
Pois que m'hei ora d'alongar
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.
Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.
E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
de mia senhor, que quero bem,
porque me faz perder o sem,
quando m'houver del'a quitar,
direi, quando me lh'espedir:
de mui bom grado queria ir
log'e nunca [m'end'ar] viir.
Pois me tal coita faz sofrer,
qual sempr'eu por ela sofri,
des aquel dia 'm que a vi,
e nom se quer de mim doer
atanto lhi direi por en:
moir'eu e moiro por alguém
e nunca vos mais direi en.
E já eu nunca veerei
prazer com estes olhos meus,
de[s] quando a nom vir, par Deus,
e com coita que haverei,
chorando lhi direi assi:
moir'eu porque nom vej'aqui
a dona que nom vej’aqui.
715
Airas Nunes
Par Deus, Coraçom, Mal Me Matades
Par Deus, coraçom, mal me matades
e prol vossa nem minha nom fazedes,
e pouco, se assi for, viveredes;
e a senhor por que mi assi matades
al cuida, ca nom no vosso cuidar.
Mal dia forom meus olhos catar
a fremosura por que me matades!
Ora que eu moiro, com quem ficades?
Vós com ela, par Deus, nom ficaredes,
e, se eu moiro, migo morreredes,
ca vós noit'e dia migo ficades.
Mais vosso cuidado pode chegar
u est a dona que rem nom quer dar
por mim, ca sempre comigo ficades.
e prol vossa nem minha nom fazedes,
e pouco, se assi for, viveredes;
e a senhor por que mi assi matades
al cuida, ca nom no vosso cuidar.
Mal dia forom meus olhos catar
a fremosura por que me matades!
Ora que eu moiro, com quem ficades?
Vós com ela, par Deus, nom ficaredes,
e, se eu moiro, migo morreredes,
ca vós noit'e dia migo ficades.
Mais vosso cuidado pode chegar
u est a dona que rem nom quer dar
por mim, ca sempre comigo ficades.
643
Afonso X
Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer
- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
602
Airas Nunes
Amor Faz a Mim Amar Tal Senhor
Amor faz a mim amar tal senhor,
mais fremosa de quantas hoj'eu sei,
e faz-m'alegre e faz-me trobador
cuidand'em bem sempr'; e mais vos direi:
u se pararom de trobar,
trob'eu e nom per antolhança,
mais por que sei mui lealmente amar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança,
mal venh'a quem se del desasperar!
Ca per amor cuid'eu mais a valer;
e os que del desasperados som
nom podem nunca nẽum bem haver,
nem fazer bem. E per esta razom,
com amor quero-me alegrar;
e quem tristur'ou mal andança
quer, nom lhe dê Deus al, pois s'en pagar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança,
mal venh'a quem se del desasperar!
Cousecem mim os que amor nom ham
e nom cousecem si, vedes que mal!
Ca trob'e canto por senhor, de pram,
que sobre quantas hoj'eu sei mais val
de beldad'e de bem falar,
e é cousida, sem dultança.
Atal am'eu e por seu quer'andar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança
mal venh'a quem se del desasperar!
mais fremosa de quantas hoj'eu sei,
e faz-m'alegre e faz-me trobador
cuidand'em bem sempr'; e mais vos direi:
u se pararom de trobar,
trob'eu e nom per antolhança,
mais por que sei mui lealmente amar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança,
mal venh'a quem se del desasperar!
Ca per amor cuid'eu mais a valer;
e os que del desasperados som
nom podem nunca nẽum bem haver,
nem fazer bem. E per esta razom,
com amor quero-me alegrar;
e quem tristur'ou mal andança
quer, nom lhe dê Deus al, pois s'en pagar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança,
mal venh'a quem se del desasperar!
Cousecem mim os que amor nom ham
e nom cousecem si, vedes que mal!
Ca trob'e canto por senhor, de pram,
que sobre quantas hoj'eu sei mais val
de beldad'e de bem falar,
e é cousida, sem dultança.
Atal am'eu e por seu quer'andar.
Pois mim amor nom quer leixar
e dá-m'esforç'e asperança
mal venh'a quem se del desasperar!
897
Afonso X
De Grado Querria Ora Saber
De grado querria ora saber
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
644
Afonso X
Par Deus, Senhor,
Par Deus, senhor,
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
365
Afonso X
Par Deus, Senhor,
Par Deus, senhor,
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
enquant'eu for
de vós tam alongado,
nunc'em maior
coita d'amor,
[e] nem atam coitado
foi en'o mundo
por sa senhor
homem que fosse nado,
penado, penado.
Se[m] nulha rem,
sem vosso bem,
que tant'hei desejado
que já o sem
perdi por en,
e viv'atormentado;
sem vosso bem,
de morrer en
[eu] ced'é mui guisado,
penado, penado.
Ca log'ali
u vos eu vi,
fui d'amor aficado
tam muit'em mi
que nom dormi,
nem houve gasalhado;
se m'este mal
durar assi,
eu nunca fosse nado,
penado, penado.
365
Airas Nunes
Falei Noutro Dia Com Mia Senhor
Falei noutro dia com mia senhor
e dixe-lh'o mui grand'amor que lh'hei
e quantas coitas por ela levei
e quant'afã sofro por seu amor.
Foi sanhuda e nunc'a tanto vi:
e foi-se e sol nom quis catar por mi,
e nunca mais pois com ela falei.
Mentr'eu com ela falava em al,
eu nunca molher tam bem vi falar;
e pois lh'eu dixe a coita e o pesar
que por ela sofro e o mui gram mal,
foi sanhuda e catou-me em desdém;
e des ali nom lh'ousei dizer rem,
nem ar quis nunca pois por mi catar.
E muitas vezes oí eu dizer:
"quisque[m] se coita há, costas lhe dá";
e eu receei esto grand'er'há;
mais porque me vejo em coitas viver
dixe-lh'o bem que lhe quer'e entom
[e]stranhou-mi-o de guisa que sol nom
me quis falar; e de mi que será?
e dixe-lh'o mui grand'amor que lh'hei
e quantas coitas por ela levei
e quant'afã sofro por seu amor.
Foi sanhuda e nunc'a tanto vi:
e foi-se e sol nom quis catar por mi,
e nunca mais pois com ela falei.
Mentr'eu com ela falava em al,
eu nunca molher tam bem vi falar;
e pois lh'eu dixe a coita e o pesar
que por ela sofro e o mui gram mal,
foi sanhuda e catou-me em desdém;
e des ali nom lh'ousei dizer rem,
nem ar quis nunca pois por mi catar.
E muitas vezes oí eu dizer:
"quisque[m] se coita há, costas lhe dá";
e eu receei esto grand'er'há;
mais porque me vejo em coitas viver
dixe-lh'o bem que lhe quer'e entom
[e]stranhou-mi-o de guisa que sol nom
me quis falar; e de mi que será?
710
Airas Nunes
Falei Noutro Dia Com Mia Senhor
Falei noutro dia com mia senhor
e dixe-lh'o mui grand'amor que lh'hei
e quantas coitas por ela levei
e quant'afã sofro por seu amor.
Foi sanhuda e nunc'a tanto vi:
e foi-se e sol nom quis catar por mi,
e nunca mais pois com ela falei.
Mentr'eu com ela falava em al,
eu nunca molher tam bem vi falar;
e pois lh'eu dixe a coita e o pesar
que por ela sofro e o mui gram mal,
foi sanhuda e catou-me em desdém;
e des ali nom lh'ousei dizer rem,
nem ar quis nunca pois por mi catar.
E muitas vezes oí eu dizer:
"quisque[m] se coita há, costas lhe dá";
e eu receei esto grand'er'há;
mais porque me vejo em coitas viver
dixe-lh'o bem que lhe quer'e entom
[e]stranhou-mi-o de guisa que sol nom
me quis falar; e de mi que será?
e dixe-lh'o mui grand'amor que lh'hei
e quantas coitas por ela levei
e quant'afã sofro por seu amor.
Foi sanhuda e nunc'a tanto vi:
e foi-se e sol nom quis catar por mi,
e nunca mais pois com ela falei.
Mentr'eu com ela falava em al,
eu nunca molher tam bem vi falar;
e pois lh'eu dixe a coita e o pesar
que por ela sofro e o mui gram mal,
foi sanhuda e catou-me em desdém;
e des ali nom lh'ousei dizer rem,
nem ar quis nunca pois por mi catar.
E muitas vezes oí eu dizer:
"quisque[m] se coita há, costas lhe dá";
e eu receei esto grand'er'há;
mais porque me vejo em coitas viver
dixe-lh'o bem que lhe quer'e entom
[e]stranhou-mi-o de guisa que sol nom
me quis falar; e de mi que será?
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