Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mário-Henrique Leiria
CONFRATERNIZAÇÃO
A anca bem tostada
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
um rim na grelha
e ainda
a bexiga recheada
tudo com arroz
é evidente
e um notável molho
picante e sapiente
foi o que me coube
ah esquecia-me
também um olho
com champignon
ao natural
estava bom
nada de muito excepcional
mas comia-se
a contento
foi um jantar
bem agradável
todos louvámos
aquela sangria tão gelada
era um portento
no fim
após a marmelada
a aguardente
e o cafezinho fumegante
oferecemos
os sapatos o casaco
as calças e o penante
àquele pobrezinho
refugiado búlgaro
fugido à vacina
a camisa foi pró lixo
estava imprestável
suja
com manchas
nada fina
dá-la ao pobre búlgaro
seria imperdoável
462
Mário-Henrique Leiria
Triângulo cabalístico
Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
710
Mário-Henrique Leiria
Triângulo cabalístico
Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
710
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
701
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
701
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
701
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
701
Mário-Henrique Leiria
W
tudo o que existiu
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
entre mim e o que tu serias
foi como a nuvem
ligeira muito rápida
veloz e diferente
a única verdade que poderia
trazer-nos o encontro
dos nossos corpos por existir
o ódio a raiva
trópico claro
exaustivamente procurado
como um braço que se prolonga
até ao infinito
a ti
que foste real como as aves que partem para o ignoto
toda a minha solidão
a ti
que foste a única que verdadeiramente existiu
todo o meu sangue
toda a minha ânsia
tu a primeira
que só para mim és
a herança do meu ódio
para ser conservada só por nós dois
para continuar mesmo depois de eu existir
para continuar mesmo sem tu existires senão para mim
para ti
a recordação perdida
do que nunca existiu
porque seria demais se aparecesse
para ti
o meu grande amor
leito de encontro
já desfeito há séculos
701
Mário-Henrique Leiria
Cinegética
Um caçador
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
perdeu a cedilha
e por isso
sua mulher
nunca mais
quis ir à caça
com ele
sem cedilha
799
Mário-Henrique Leiria
A CIDADE ADORMECIDA
Foi decretada a mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
787
Mário-Henrique Leiria
A CIDADE ADORMECIDA
Foi decretada a mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
787
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
687
Mário-Henrique Leiria
TELEFONEMA
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade
906
Mário-Henrique Leiria
POEMA
eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
1 066
Mário-Henrique Leiria
POEMA
eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins
aí
o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos
1 066
Sidónio Muralha
Menina fútil
A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…
– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…
A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …
… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )
Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;
– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
677
Mário-Henrique Leiria
CANÇÃO DA MANHÃ
como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
827
Mário-Henrique Leiria
CANÇÃO DA MANHÃ
como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
827
Mário-Henrique Leiria
CANÇÃO DA MANHÃ
como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
827
Mário-Henrique Leiria
Depois de fuzilado
Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva de revolução
392
Antônio Olinto
Infância
Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
611
Manuel da Silva Gaio
Soneto de Amor
Ainda o mundo uma vez lembre, Senhora,
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
Aquele ermo abandono e sorte escura
Do verme que morreu na vã tortura
De certa Estrela amar - tão alta embora!
Porque desde que sinto, como agora,
Quanto de mim sois longe - Astro da Altura! -
Com sua inconsolável desventura
A minha já comparo, a cada hora.
Maior é, todavia, o meu quinhão
Na mágoa semelhante: se jamais,
De mudo,espalhou ele a próprio dor,
Inutilmente vara a solidão
A queixa que me ouvis, pois duvidais
De que eu também por vós morra de amor.
864
Mário-Henrique Leiria
A Estratégia
Vejamos
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
636
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
597