Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
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Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
597
Antônio Olinto
O crime da máquina
A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
569
Antônio Olinto
O crime da máquina
A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
569
Mário-Henrique Leiria
Origem dos sonhos esquecidos
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
679
Sidónio Muralha
A Caminhada
Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.
Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.
Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.
1 014
Baltazar Dias
Auto do Nascimento
VELHA:
Praza deos que má doença
e que má dor despinhela
mau quebranto de canela
má caganeira e corença
mau inchaço de guela;
má caidura de sela
mau couce de ferradura,
má febre e má quentura,
má dentada de cadela.
Má dor de gota coral
e de pedra e de virilha,
e mau vinho, com mau sal
e má sardinha de pilha
que te faça embebedar.
E má cor de ourinar
que te falte na bexiga
e mau frio na barriga
mau quebranto no padar,
mau trabalho, má fadiga.
Hua velha amargurada
que anda em vias de parir,
com a barriga pejada
diz que por força há-de ir
por tal neve e tal geada.
Má dor de praga raivada
venha pelo Imperador,
pois tal costume quis pôr
má corença abreviada
lhe entre no salvanor.
Que farei triste, coitada
com tal trabalho e marteiro,
má dor de gata escaldada
lhe atravesse o pousadeiro,
permeta da comiada.
Mau inchaco de queixada
má dor de dente queixal,
mal trabalho corporal
que lhe entre na buchada
que o môa como sal.
Quero me ora assentar
que já me não posso ter,
e a quem me assim faz cansar
inda o veja deitar
para nunca mais se erguer.
Que não abasta inscrever
senão pagar-lhe tributo
os que não têm que comer;
mau proveito e mau fruito,
lhe faça quanto tiver.
Hir-se-á a Velha e entra Nossa Senhora e Joseph e diz:
NOSSA SENHORA
Meu esposo mui amado
se a vós vos parece bem
pelo que está ordenado
eu tenho determinado
que vamos nós a Belém.
Bem sabeis que nos convém
de irmos a obedecer
a César e seu poder,
pois que não fica ninguém
que se não vá inscrever.
E, portanto, ordenemos
esposo, de caminhar,
e, também determinemos
do tributo lhe pagar
desta pobreza que temos.
JOSEPH
Senhora, mui bem faremos
mas de que se pagará?
NOSSA SENHORA
O nosso boi venderemos
que depois Deus nos dará
com que nos remediemos.
JOSEPH
Senhora, pois assim é,
vamos, não tardemos nada;
mas é comprida jornada,
não podereis ir a pé,
porque estais muito pejada.
Praza deos que má doença
e que má dor despinhela
mau quebranto de canela
má caganeira e corença
mau inchaço de guela;
má caidura de sela
mau couce de ferradura,
má febre e má quentura,
má dentada de cadela.
Má dor de gota coral
e de pedra e de virilha,
e mau vinho, com mau sal
e má sardinha de pilha
que te faça embebedar.
E má cor de ourinar
que te falte na bexiga
e mau frio na barriga
mau quebranto no padar,
mau trabalho, má fadiga.
Hua velha amargurada
que anda em vias de parir,
com a barriga pejada
diz que por força há-de ir
por tal neve e tal geada.
Má dor de praga raivada
venha pelo Imperador,
pois tal costume quis pôr
má corença abreviada
lhe entre no salvanor.
Que farei triste, coitada
com tal trabalho e marteiro,
má dor de gata escaldada
lhe atravesse o pousadeiro,
permeta da comiada.
Mau inchaco de queixada
má dor de dente queixal,
mal trabalho corporal
que lhe entre na buchada
que o môa como sal.
Quero me ora assentar
que já me não posso ter,
e a quem me assim faz cansar
inda o veja deitar
para nunca mais se erguer.
Que não abasta inscrever
senão pagar-lhe tributo
os que não têm que comer;
mau proveito e mau fruito,
lhe faça quanto tiver.
Hir-se-á a Velha e entra Nossa Senhora e Joseph e diz:
NOSSA SENHORA
Meu esposo mui amado
se a vós vos parece bem
pelo que está ordenado
eu tenho determinado
que vamos nós a Belém.
Bem sabeis que nos convém
de irmos a obedecer
a César e seu poder,
pois que não fica ninguém
que se não vá inscrever.
E, portanto, ordenemos
esposo, de caminhar,
e, também determinemos
do tributo lhe pagar
desta pobreza que temos.
JOSEPH
Senhora, mui bem faremos
mas de que se pagará?
NOSSA SENHORA
O nosso boi venderemos
que depois Deus nos dará
com que nos remediemos.
JOSEPH
Senhora, pois assim é,
vamos, não tardemos nada;
mas é comprida jornada,
não podereis ir a pé,
porque estais muito pejada.
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Mário-Henrique Leiria
ÚLTIMA TENTAÇÃO
E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
570
Mário-Henrique Leiria
ÚLTIMA TENTAÇÃO
E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
570
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
912
Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
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Mário-Henrique Leiria
Um poeta
Um poeta
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
cara amiga
é como uma noite escura
com olheiras
Tem cuidado querida
tem cuidado quando abrires a janela
olha que os poetas
como certos pássaros e mosquitos
entram logo por ela
aos bandos aos molhos
às mãos cheias
como uma recordação de infância
como um sinal de perigo
em curva deslizante
Olha querida
o melhor será não fazeres isso
tranca-te bem fecha-te à chave
respira numa bolha
que te isole
vê bem
protege a tua paz o teu sossego
Um poeta
não é coisa aceitável
é obviamente como já se sabe
uma catástrofe tão arrepelante
que até pode
que tragédia minha querida
fazer cair dignidades
comprometer consciências repousantes
envenenar a água tão solenemente calma
da paz quotidiana
um desastre irreparável
Mas olha amiga minha
ai que desgosto
terás p’ra toda a vida
que saudade desesperante
de não teres encontrado um dia algum
Mas antes isso
do que vê-los
… isso nunca…
912
Mário-Henrique Leiria
claridade dada pelo tempo
I
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
680
Mário-Henrique Leiria
claridade dada pelo tempo
I
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
e as tonturas que a planície me dá
são feitas por nós
de propósito
para irritar aqueles que não sabem
subir e descer as montanhas geladas
são feitas por nós
para nunca nos esquecermos
da beleza dum corpo
cintilando fulgurantemente
para nunca nos esquecermos
do abraço que nos foi dado
por um braço desconhecido
nós sabemos
tu e eu
que depois de tudo
apenas existem os nossos corpos
rutilantes
até se perderem no
limite do olhar
dá-me um cigarro
mesmo que seja só um
já me basta
desde que seja dado por ti
mas não me leves
não me tires
as tonturas que eu teria
que eu terei
sempre que penso cá de cima
duma altura vertiginosa
onde a própria águia
nada mais é que um minúsculo
objecto perdido
onde a nuvem
mais alta de todas
se agasalha como um cão de caça
leva-me a recordação
apenas a recordação
da vida martelada
que em mim tem ficado
como herança dada há mil e
duzentos anos
deixa que eu fique
muito afastado
silencioso
e único
no alto daquela nuvem
que escolhi
ainda antes de existir
680
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Mário-Henrique Leiria
canção do mundo novo
Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
545
Mário-Henrique Leiria
Quando fez a primeira comunhão
Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
477
Mário-Henrique Leiria
Não me chamem senhor
Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
627
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
968
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
968
João Lobeira
Senhor gentil
Senhor gentil,
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
655
João Lobeira
Senhor gentil
Senhor gentil,
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
mi tormenta
voss'amor em maneira tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal mágoa voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
655
Samarone Lima de Oliveira
Formas do dia
Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
694