Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Marina Colasanti
O gosto que se foi
Quando eu era menina
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
gostava de sugar nas flores de glicínia
no exato centro
no protegido ponto que as pétalas escondem:
o pistilo.
Tinha um tanto de açúcar
parecia
e era crocante.
Adulta
inutilmente busco
o mesmo gosto.
Estala em minha boca
a carne tenra
a língua escarva
sem que nada me chegue
nem o açúcar da infância
nem gosto de lembrança.
1 005
Marina Colasanti
Em 1943, ventre abaixo
As leis da inércia perdem
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
1 004
Marina Colasanti
Quem saberá?
Aqui
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
luz de montanha fria como um espelho
e como espelho límpida e
cortante
blocos de luz que varam as
vidraças da casa sem cortinas e
sem panos
arestas claras navalhando sombras.
Há um remador num quarto
inseto de madeira gigantesco
libélula sem asas
pousada
sobre o brilho do chão
rígida água.
Além dos vidros
o vale azul é poço
inalcançável
e o olhar despenca nas escarpas
nuas.
Aqui
onde não sou filha
onde não sou parte
menina de tranças
como tantas meninas de tranças
quem saberá quem sou
se o ônibus
que acabou de levar a minha mãe
não regressar?
1 097
Marina Colasanti
Tão clara a água
Naquele verão
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
um homem afogou-se
no meu mar de criança.
Disseram que uma câimbra
que um mal súbito
que um peixe
uma água-viva.
Procuraram desculpas
para morte
em tão límpidas águas.
Eu não me perguntei por que
mas onde,
procurando no claro
a escuridão.
E até o fim do verão
não mergulhei no mar
adentrei numa tumba.
1 042
Manuel Bandeira
A Vida assim nos Afeiçoa
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 100
Manuel Bandeira
A Vida assim nos Afeiçoa
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 100
Manuel Bandeira
A Vida assim nos Afeiçoa
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 100
Manuel Bandeira
Voz de Fora
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
1 463
Marina Colasanti
Quando a fome
Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
679
Marina Colasanti
Todo campo de trigo
Cheguei tarde demais
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
o trigo foi ceifado
e esta estrada navega
em campos glabros
doces dorsos leoninos
espraiados sobre a falsa savana.
Todo campo de trigo
é o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em qualquer tempo
pássaros e papoulas junto aos talos
fugir de asas
filas de formigas
e o serralhar dos grilos sol adentro.
Todo campo de trigo é
o mesmo campo
o mesmo campo sempre
em outros corpos.
E a carícia de pluma das espigas
o apartar-se das hastes contra o peito
o fino farfalhar daqueles campos
que atravessei com passos de menina
chegam-me intactos
dos trigais despidos
que cruzo agora
sem sair do carro.
Ravello, 2001
1 153
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 083
Marina Colasanti
No dia prescrito
Entrei no escritório e a vi
vestida de gato,
malha preta e salto alto.
O computador ligado
ela atendendo o telefone
com séria presteza
- bom dia, quem deseja? -
de bigodes pintados
orelhas de pelúcia
e mancha preta na ponta do nariz.
Porque era o Dia das Bruxas
estava fantasiada sem estar,
cumprindo seu dever mais uma vez
ela
que nunca havia brincado no serviço.
Levantou-se para atender o chefe
e eficiente sempre
deu com o calcanhar um chute leve
evitando o perigo de tropeçar na cauda.
Não percebeu
que o laço vermelho do arremate
havia caído
ficando abandonado para trás.
Austin, Texas, 1998
vestida de gato,
malha preta e salto alto.
O computador ligado
ela atendendo o telefone
com séria presteza
- bom dia, quem deseja? -
de bigodes pintados
orelhas de pelúcia
e mancha preta na ponta do nariz.
Porque era o Dia das Bruxas
estava fantasiada sem estar,
cumprindo seu dever mais uma vez
ela
que nunca havia brincado no serviço.
Levantou-se para atender o chefe
e eficiente sempre
deu com o calcanhar um chute leve
evitando o perigo de tropeçar na cauda.
Não percebeu
que o laço vermelho do arremate
havia caído
ficando abandonado para trás.
Austin, Texas, 1998
1 034
Manuel Bandeira
Dentro da Noite
Dentro da noite a vida canta
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
2 278
Manuel Bandeira
Dentro da Noite
Dentro da noite a vida canta
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
E esgarça névoas ao luar...
Fosco minguante o vale encanta.
Morreu pecando alguma santa...
A água não pára de chorar.
Há um amavio esparso no ar...
Donde virá ternura tanta?...
Paira um sossego singular
Dentro da noite...
Sinto no meu violão vibrar
A alma penada de uma infanta
Que definhou do mal de amar...
Ouve... Dir-se-ia uma garganta
Súplice, triste, a soluçar
Dentro da noite...
2 278
Manuel Bandeira
A Fina, a Doce Ferida...
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 227
Manuel Bandeira
A Fina, a Doce Ferida...
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 227
Manuel Bandeira
Poemeto Irônico
O que tu chamas tua paixão,
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
2 113
Manuel Bandeira
Poemeto Irônico
O que tu chamas tua paixão,
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
2 113
Marina Colasanti
De quem hoje penso
Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 107
Manuel Bandeira
A Canção de Maria
Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
1 432
Manuel Bandeira
A Canção de Maria
Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
1 432
Manuel Bandeira
A Canção de Maria
Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...
Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,
Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.
Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?
Clavadel, 1913
1 432