Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Affonso Romano de Sant'Anna
Estranhamento
Estranho
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
que depois dos 40
esteja aprendendo
o que é o amor.
Que tolo então eu era
achando
que já sabia tudo de cor
pensando
que nesta matéria
não sentiria mais dor
pois dor e alegria me abalam
e humilde
– reaprendo quem sou.
Talvez pensasse
já ter resolvido a questão
quando na adolescência
morto de amor
vivi a ressurreição.
Mas o amor revém
com seu mistério sobre um homem
que em breve
será velho. Revém
e me humilha. Me humilha
e glorifica
me deixa doce e perplexo
enquanto minha carne
se estremece
– e maravilha.
1 168
Allen Ginsberg
Meu triste Eu
Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
746
Allen Ginsberg
Meu triste Eu
Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
746
Allen Ginsberg
Meu triste Eu
Certas vezes quando meus olhos estão vermelhos
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
eu subo até o alto do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan —
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
— na Quinta Avenida embaixo a qual também está presente
na minha mente
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã —
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina de Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas —
meus amores mais tarde na 15a Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante —
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem —
—o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade —
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e detenho-me atordoado
diante da vitrine da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5? Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento pára
& eu caminhe na tristeza atemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça —no crepúsculo —
quanto nffo sinto mais
qualquer desejo —
de bombons —ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto —
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem batalhando nas ruas
com pacotes, jornais,
gravatas, temos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas —
E toda essas ruas levando,
tSo intrincadas, buzinadas, alongadas
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas
nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tio dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda a Manhattan que eu vi tiver desaparecido
NY, 1958
746
Affonso Romano de Sant'Anna
Jardinagem
Amadureço na morte alheia a minha morte.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
Olho na lombada dos livros
os que se foram
e nos vazios endereços a amizade
que do outro lado evaporou-se.
Às vezes me penso um coveiro
semeando lápides em crônicas e poemas,
outras,
buscando flores e perfumes no que enterrei
– um aplicado jardineiro.
1 041
Allen Ginsberg
Relato de um sonho:
Uma noite bêbado na minha casa com um
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
1 043
Allen Ginsberg
Relato de um sonho:
Uma noite bêbado na minha casa com um
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
garoto, San Francisco:deitado dormindo:
escuridío:
voltei para Cidade do México
e vi Joan Burroughs debruçada
para a frente numa cadeira de jardim, braços
nos joelhos. Examinou-me com
límpidos olhos e sorriso abatido, seu
rosto reconstituído na refinada beleza
que a tequilla e o sal haviam tornado estranha
antes da bala na sua testa.
Falamos sobre a vida desde então.
Bem, o que Burroughs está fazendo agora?
Bill na terra, ele está na África do Norte.
Oh, e Kerouac? Jack continua por aí
com o mesmo gênio Beat de antes,
cadernos de anotações cheios de Buda.
Espero que ele consiga, ela riu.
E Huncke, ainda está em cana? Não,
da última vez que o vi foi em Times Square.
E como vai Kenney? Casado, bêbado
e cheio da grana no Leste. E você? Novos
amores no Oeste -
Então soube
que ela era um sonho: e perguntei-lhe
-Joan, que espécie de sabedoria têm
os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?
Ela
apagou-se à minha frente - No momento seguinte
eu vi seu túmulo encardido pela chuva
atrás um epitáfio ilegível
sob o ramo nodoso de uma pequena
árvore no capim selvagem
de um jardim abandonado no México.
1 043
Allen Ginsberg
Um estranho chalé novo em Berkeley
A tarde toda colhendo amoras pretas junto a uma cambaleante cerca marrom
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
1 410
Allen Ginsberg
Um estranho chalé novo em Berkeley
A tarde toda colhendo amoras pretas junto a uma cambaleante cerca marrom
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada.
1 410
Allen Ginsberg
Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
1 055
Allen Ginsberg
Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.
1 055
Allen Ginsberg
Europa! Europa!
Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
1 683
Allen Ginsberg
Europa! Europa!
Mundo mundo mundo
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
sentado em meu quarto
imagino o futuro
põe-se o sol em Paris
estou só ninguém
cujo amor seja perfeito
o homem está louco o amor
do homem não é perfeito eu
não chorei o bastante
meu peito pesará
até a morte as cidades
são espectros das roldanas
da guerra as cidades são
trabalho & tijolo & ferro &
fumaça da fornalha do
ego que deixa os olhos sem
lágrimas vermelhos em Londres mas
nenhum olho encontra o sol
Cujo clarão lançado
pelo céu bate no
moderno branco sólido
prédio de papel de lorde
Beaverbrook225 reclinado
na rua de Londres para
receber os derradeiros raios
amarelos que velhas senhoras
distraidamente fitam
através da neblina para o céu
os pobres vasos na janela
derramam flores na rua
a fonte de Trafalgar respinga
pombos aquecidos pelo meio-dia
eu mesmo irradiando êxtase de
selvageria na catedral de St. Paul
olhando a luz em Londres
ou aqui em Paris na cama
clarão do sol pela alta janela
batendo no gesso da parede
Embaixo a multidão humilde
santos morrem miseráveis
mulheres da rua enfrentam o desamor
sob lampiões de gás e néon
mulher alguma em casa amando
marido na unidade da flor
nem garoto suavemente amando garoto
com a política do fogo no peito
a eletricidade atemoriza a cidade
o rádio clama por dinheiro
luz da polícia na tela da TV
risos à meia-luz das lâmpadas
em quartos vazios tanques desabam
em crateras de bombas nenhum sonho
do prazer humano é filmado
a fábrica do pensamento passa drogas
carros com seu sonho de Eros de lata
a mente come sua própria carne
numa fome simulada e nenhuma
foda humana é sagrada pois
o trabalho humano é principalmente guerra
a fome da China Esquelética é
lavagem cerebral na hidroelétrica
a América esconde carne louca
na geladeira a Inglaterra
cozinha Jerusalém por demasiado tempo
a França come petróleo e morte
saladas de braços & pernas na África
ruidosamente devoram a Arábia
negros e brancos lutando
contra a núpcia dourada
a indústria da Rússia alimenta
milhões mas nenhum bêbado pode
sonhar o suicídio de Maiakovski
arco-íris sobre a maquinaria
e a resposta para o sol
Estou na cama na Europa
só numa velha roupa de baixo
vermelha simbólica do desejo
de união com a imortalidade
mas o amor do homem não é perfeito
chove em fevereiro
como outrora para Baudelaire
há cem anos
aviões roncam no ar
carros correm pelas ruas
sei para onde vão
vão para a morte mas tudo bem
é que a morte chega antes
da vida que nenhum homem
chegou a amar perfeitamente ninguém
chega à beatitude no tempo a nova
humanidade ainda não nasceu que
eu chore por essa velharia
e saúde o milênio
pois eu vi o sol atlântico
raiar de uma vasta nuvem
em Dover nos penhascos à beira-mar
um petroleiro do tamanho de uma formiga
pendurado sobre o oceano sob a brilhante
nuvem e as gaivotas voando
através das intermináveis escadarias
da luz do sol escorrendo na Eternidade
para as formigas na miríade de campos
da Inglaterra para os girassóis
inclinados comendo o instante
do infinito delfins dourados saltando
pelos arco-íris mediterrâneos
Fumaça branca e vapor nos Andes
os rios da Ásia cintilando
poetas cegos a fundo na solidão
brilho de Apoio nas encostas das colinas
atulhadas de túmulos vazios
Paris, 1958
1 683
Allen Ginsberg
Sutra do girassol
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco, nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake –
minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe, carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha, Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira –
industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um
adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
1 134
Allen Ginsberg
Ácido lisérgico
Ele é um monstro múltiplo de um milhão de olhos
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
1 516
Affonso Romano de Sant'Anna
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
1 005
Affonso Romano de Sant'Anna
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
1 005
Allen Ginsberg
Um supermercado na Califórnia
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
1 867
Allen Ginsberg
Um supermercado na Califórnia
Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
Em meu cansaço faminto, fazendo o shopping das imagens, entrei no
supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?
Eu o vi, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.
Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?
Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.
Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados, sem nunca passar pelo caixa.
Aonde vamos, Walt Whitman? As portas se fecharão em uma hora. Que
caminhos aponta tua barba esta noite?
(Toco teu livro e sonho com nossa odisseia no supermercado e me sinto absurdo.)
Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.
Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?
Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e você desceu na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?
1 867
Affonso Romano de Sant'Anna
Pier Della Vigna
Passo por San Miniato – onde viveu Pier della Vigna
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
a quem Dante meteu no Inferno
por ter se suicidado
ao não suportar a inveja,
a maledicência
e as traições na corte.
Duplo equívoco.
Dante não deveria meter no Inferno
quem no Inferno já vivia.
Quanto a você, caro Pier,
melhor fora que em vez da morte
te houvesses vingado com tua vida
vivendo-a
– além da corte,
recebendo, a salvo, notícias
de como no serpentário do poder
os que rastejam se envenenam
e lentamente começam a morrer.
1 132
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
789
Allen Ginsberg
Para um velho poeta no Peru
Porque nos encontramos ao escurecer
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
Debaixo da sombra do relógio
da estação
Quando minha sombra visitava Lima
E seu espectro morria em Lima
rosto velho precisando fazer a barba
E minha barba juvenil brotando
magnífica como os cabelos dos mortos
nas areias de Chancay
Porque por engano pensei que você estava
melancólico
Saudando seu pé de 60 anos de idade
com o cheiro de morte
das aranhas no assoalho
E você saudando meus olhos
com sua voz de anisete
Por engano aChando-me genial
por eu ser tffo moço
(meu rock and roll é o movimento de um
anjo voando na cidade moderna)
(seu obscuro arrastar os pés é o movimento
de um serafim que perdeu
suas asas)
Beijo-o na sua gorda bochecha (mais uma vez amanhã
Debaixo do esplêndido relógio de Disaguaderos)
Antes de eu partir para minha morte num desastre aéreo
na América do Norte (há muito tempo)
E você partir para seu ataque do coração numa rua
indiferente da América do Sul
(Ambos rodeados pelos gritos
de comunistas com flores
enfiadas no cu)
—você muito antes de mim —
ou numa longa noite só num quarto
no velho hotel do mundo
observando uma porta negra
...rodeado de pedaços de papel
MORRE COM GRANDEZA NA TUA SOLIDÃO
Velho ,
Eu profetizo a Recompensa
Mais vasta que as areias de Pachacamac
Mais brilhante que uma máscara de ouro batido
Mais doce que o gozo dos exércitos nus
fodendo no campo de batalha
Mais rápida que um tempo passado entre
a velha noite de Nasca e a nova Lima
ao anoitecer
Mais estranha que nosso encontro junto ao Palácio
Presidencial em um café
fantasmas de uma velha ilusSo, fantasmas
do amor indiferente —
A OFUSCANTE INTELIGÊNCIA
Emigra da morte
Para oferecer-te novamente um sinal da Vida
Bravia e bela como uma trombada de automóveis
na Plaza de Armas
Eu juro que vi essa Luz
Não deixarei de beijar sua horrenda bochecha
quando seu caixão for fechado
E os carpidores humanos partirem
para seu velho e cansado
Sonho.
E você despertar no Olho do
Ditador do Universo.
Outro milagre estúpido! Estou
enganado mais uma vez!
Sua indiferença! meu entusiasmo!
Eu insisto! Você tosse!
Perdidos no vagalhão de Ouro que
escorre através do Cosmos.
Argh, estou cansado de insistir! Até logo,
eu vou para Pucalpa
para ter visões.
Seus límpidos sonetos?
Eu quero ler seus mais sujos
e secretos rascunhos,
sua Esperança,
na Sua mais obscena Magnificência. Meu Deus!
19 de Maio de 1960
958
Allen Ginsberg
Transcrição de música de órgão
A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.
Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.
O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém
e o céu contém meu jardim,
abro minha porta
O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido
para pensar ao sol
Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?
A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.
O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...
Meus livros empilhados à minha frente para meu uso
aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o
tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.
Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.
Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...
Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.
Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –
toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.
A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.
O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.
O Pai é piedoso.
O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...
A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.
A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.
Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.
Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.
A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...
O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –
Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.
E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.
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Allen Ginsberg
Garatuja
Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
bigode tagarela
flores jorrando
da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
só ficou o Deus do amor
sorrindo
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