Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Ana Martins Marques
O que nos aconteceu
O que nos aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema
Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava
Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu
Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade
Uma dessas coisas não aconteceu
o que não nos aconteceu
têm o mesmo peso no poema
Ontem visitamos
nosso amigo doente
era comovente ver seu esforço
para parecer melhor do que estava
Andamos um pouco pela praia
a certa altura me dei conta
de que nunca perguntei onde ele nasceu
Encontramos uma água-viva na areia
alguém disse que ser assim
indistinguível como a areia da areia
o mar do mar
deve ser algo próximo da felicidade
Uma dessas coisas não aconteceu
1 424
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLVII
Detrás de mim no ramo quero ver-te.
Pouco a pouco te converteste em fruto.
Não te custou subir das raízes
cantando com tua sílaba de seiva.
E aqui estarás primeiro em flor fragrante,
na estátua de um beijo convertida,
até que o sol e terra, sangue e céu,
te concedam a delícia e a doçura.
No ramo verei tua cabeleira,
teu sinal madurando na folhagem,
acercando as folhas a minha sede,
e tua substância encherá minha boca,
o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruta enamorada.
Pouco a pouco te converteste em fruto.
Não te custou subir das raízes
cantando com tua sílaba de seiva.
E aqui estarás primeiro em flor fragrante,
na estátua de um beijo convertida,
até que o sol e terra, sangue e céu,
te concedam a delícia e a doçura.
No ramo verei tua cabeleira,
teu sinal madurando na folhagem,
acercando as folhas a minha sede,
e tua substância encherá minha boca,
o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruta enamorada.
1 241
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLVII
Detrás de mim no ramo quero ver-te.
Pouco a pouco te converteste em fruto.
Não te custou subir das raízes
cantando com tua sílaba de seiva.
E aqui estarás primeiro em flor fragrante,
na estátua de um beijo convertida,
até que o sol e terra, sangue e céu,
te concedam a delícia e a doçura.
No ramo verei tua cabeleira,
teu sinal madurando na folhagem,
acercando as folhas a minha sede,
e tua substância encherá minha boca,
o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruta enamorada.
Pouco a pouco te converteste em fruto.
Não te custou subir das raízes
cantando com tua sílaba de seiva.
E aqui estarás primeiro em flor fragrante,
na estátua de um beijo convertida,
até que o sol e terra, sangue e céu,
te concedam a delícia e a doçura.
No ramo verei tua cabeleira,
teu sinal madurando na folhagem,
acercando as folhas a minha sede,
e tua substância encherá minha boca,
o beijo que subiu da terra
com teu sangue de fruta enamorada.
1 241
Murillo Mendes
Angústia e Reação
Há noites intransponíveis,
Há dias em que para nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à ideia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.
Há dias em que para nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à ideia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.
623
Pablo Neruda
III
Me diga: a rosa está nua
ou só tem esse vestido?
Por que as árvores escondem
o esplendor de suas raízes?
Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?
Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?
ou só tem esse vestido?
Por que as árvores escondem
o esplendor de suas raízes?
Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?
Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?
712
Pablo Neruda
Manhã - XII
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
1 420
Pablo Neruda
Manhã - XII
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra um raio.
1 420
Pablo Neruda
Aí Está o Mar?
Aí está o mar? Muito bem, que passe.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
Dá-me o grande sino, o de fenda verde.
Não esse não é, o outro, o que tem
na boca de bronze uma ruptura,
e agora,
nada mais, quero estar só
com o mar principal e o sino.
Não quero falar por um largo tempo,
silêncio, quero aprender ainda,
quero saber se existo.
1 639
Pablo Neruda
Tarde - LXII
Ai de mim, ai de nós, bem-amada,
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.
Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.
Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,
até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado.
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.
Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.
Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,
até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado.
1 231
Ana Martins Marques
cozinha
nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
1 445
Ana Martins Marques
cozinha
nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
1 445
Murillo Mendes
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
as mãos veem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
572
Murillo Mendes
Meditação de Agrigento
Quem nos domara a força vã,
quem nos sufocara o instinto
Para permanecermos
Em conformidade à linha do céu,
A estas colunas perenes,
Ao oculto mar lá embaixo.
Quem nos transformara em folha
Ou no súbito lagarto
Que se esgueira sob tuas pedras,
Templo F, sereno templo F,
Arquitetura de reserva e paz.
Transformar-se ou não, eis o problema.
Durar na zona limite da memória,
Nos limbos da vontade,
Ou submeter a pedra, cumprir o ofício rude,
Aprender do lavrador e do soldado.
Qual a forma do poeta? Qual seu rito?
Qual sua arquitetura?
Mudo, entre capitéis e cactos
Subsiste o oráculo.
A manhã doura a pedra e vagos nomes,
Agrigento me contempla, e vou-me.
quem nos sufocara o instinto
Para permanecermos
Em conformidade à linha do céu,
A estas colunas perenes,
Ao oculto mar lá embaixo.
Quem nos transformara em folha
Ou no súbito lagarto
Que se esgueira sob tuas pedras,
Templo F, sereno templo F,
Arquitetura de reserva e paz.
Transformar-se ou não, eis o problema.
Durar na zona limite da memória,
Nos limbos da vontade,
Ou submeter a pedra, cumprir o ofício rude,
Aprender do lavrador e do soldado.
Qual a forma do poeta? Qual seu rito?
Qual sua arquitetura?
Mudo, entre capitéis e cactos
Subsiste o oráculo.
A manhã doura a pedra e vagos nomes,
Agrigento me contempla, e vou-me.
704
Pablo Neruda
Desde Que Amanheceu
Desde que amanheceu
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro,
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
superpostos todos os materiais
do transcurso: — dores, existências,
direitos e deveres —
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade e cresce
e logo enfraquece seu poder.
Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.
1 098
Pablo Neruda
Ii - Assim Teria Acontecido
Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
1 064
Pablo Neruda
Ii - Assim Teria Acontecido
Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
1 064
Pablo Neruda
Ii - Assim Teria Acontecido
Assim teria acontecido, assim teria acontecido
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
se não houvesses também, quase invisível,
entrado para sempre na História.
Nos teríamos visto diariamente,
teríamos mudado certos livros que amamos,
se eu te houvesse relatado
contos de pescadores e mineiros
de minha pátria marinha,
e teríamos rido
de tal maneira que os transeuntes
achariam perigosa
nossa grande alegria.
1 064
José Saramago
17
A mais terrível arma da guerra do desprezo foi o elefante
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
Porque então haviam os ocupantes da cidade desdenhado perseguir nos campos as hordas assustadas dos homens que se arrastavam entre céu e céu
Todos os animais do jardim zoológico foram paralisados por acção de misturas químicas nunca antes vistas
E ainda vivos abertos sobre grandes mesas de dissecção esvaziados de entranhas e do sangue que jorrou por fundos canais para o interior da terra donde apenas saía para certos banhos das prostitutas principais
Desta maneira tornados pele massa muscular e esqueleto foram os animais providos de poderosos mecanismos internos ligados aos ossos por circuitos electrónicos que não podiam errar
E estando tudo isto no comprimento de onda do ordenador central foi nele introduzido o programa do ódio e a memória das humilhações
Então abriram-se as portas da cidade e os animais saíram a destruir os homens
Não precisavam de dormir nem comer e os homens sim
Não precisavam de descanso e o mais que o homem sabia era terror e fadiga
Foi essa guerra chamada do desprezo porque nem sequer o sangue lutava contra o sangue
Já foi dito que o elefante era a mais terrível máquina daquela guerra
Talvez quem sabe porque havia sido muitas vezes domesticado e ridicularizado nos circos quando a sua grande estatura se equilibrava numa bola absurda ou se levantava nas patas traseiras para cumprimentar o público
Entretanto o maior dos sábios do ocupante insiste em afirmar que há-de fazer rir o ordenador hipótese que não surpreenderá tendo em conta os factos relatados
1 036
José Saramago
Nesta Esquina do Tempo
Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
1 694
José Saramago
Nesta Esquina do Tempo
Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.
Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do teu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito
Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando,
Sobre as águas, as margens e os lírios
1 694
José Saramago
Labirinto
Em mim te perco, aparição nocturna,
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
2 230
José Saramago
Labirinto
Em mim te perco, aparição nocturna,
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.
De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.
Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.
Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tactear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?
Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.
2 230
José Saramago
27
Lavaram as feridas na água do mar e agora estão sentados na areia enquanto as sentinelas vigiam no alto das dunas
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
E este o preço da paz quando o amanhecer vem perto e o medo de morrer é esse mais humano de não viver bastante
A penumbra que ainda esconde as águas cheira a algas pisadas e a guelras e tem o poder inesperado de fazer inchar os músculos pobres
Se afastássemos o quase inaudível bater da onda poderíamos dizer que o silêncio fecha todo o horizonte e logo é absoluto quando o primeiro arco do sol começa a erguer-se
O mundo durante o minuto seguinte vai ficar rubro cereja e os homens e as mulheres parecem flutuar no interior de um forno e são imortais
Distante julgaríamos o ano de 1993 e contudo é tempo dele ainda
Mas soltas esparsas esperanças sobrevivem aos mortos intermináveis e ao sangue tanto que este sol encontra na praia uma tribo que repousa entre duas batalhas
E não já como tantas vezes antes um rebanho de carneiros fugitivos com chagas de vergonha no lugar dos cornos arrancados
Ó eloquentemente diríamos ó se não fosse preferível que percorrêssemos nós esta praia manchada de sangue dizendo algumas e discretas palavras em voz baixa meus amigos
Tanto mais que do lado do mar se aproxima voando o primeiro bando de gaivotas que desde há muito muito tempo é visto nesta terra ocupada
Sinal de que talvez nos reconheça enfim a vida e de que nem tudo se perdeu nas abjecções que consentimos algumas vezes cúmplices
Estão agora sobre nós as gaivotas pairando e deixam pender um pouco a cabeça para melhor nos fitarem e decidirem quem somos
Entretanto o sol saiu inteiro da madrugada enquanto mal feridos nos erguemos e as sentinelas gritam a reunir porque o inimigo vem perto
1 230
José Saramago
20
Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido
Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem
Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero
Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo
Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio
Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu
Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto
Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais
Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram
E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue
Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam
Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos
Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal
E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras
No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas
E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes
E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo
E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
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