Emoções e Sentimentos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cidade Suja, Restos de Vozes E Ruídos
Que nem a própria noite resgatou.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Profetas Falsos Vieram Em Teu Nome
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras
Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tudo Me É Uma Dança Em Que Procuro
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.
À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar…
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Não Procures Verdade No Que Sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim Os Claros Filhos do Mar Largo
Caíram de um só golpe sobre a terra
E foram possuídos pela morte.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jardim
«Aqui antigamente houve roseiras» —
Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Puro Espírito do Êxtase E do Vento
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Puro Espírito do Êxtase E do Vento
Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Aérea e dispersa eu dançava
Enquanto a luz azul se dividia.
Escuros e longos eram
Os corredores vazios
O chão brilhava e dormia.
E pela sua mão levou-me o dia.
O mapa na parede desenhava
Verde e cor-de-rosa a geografia:
Aérea e dispersa eu vivia
No colo das viagens que inventava.
Outro rosto nascia
No interior das horas
Prisioneiro e velado
Por incertas demoras.
Das páginas dos livros escorriam
Antigas e solenes histórias
Como um rio meu coração descia
O curso das memórias.
E pela sua mão levou-me o dia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Exílio
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Exílio
Imagino e contemplo.
Num país sem flores onde o mar não é mar
E enigma são os navios,
Eu não entendo o sentido das velas
Tenho fome e sede de horizontes frios.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
Sophia de Mello Breyner Andresen
Viii. Não Te Chamo Para Te Conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nevoeiro
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
Sem um gesto, sem gritos, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
E que sabor de morte lento e amargo
Sugaram todo o sangue dos meus braços —
O sangue que era sede do mar largo.
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
À luz dum pôr de sol enlouquecido.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Aquelas Cujos Ombros Se Extinguiram
Onde há uma janela voltada para longe
Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas
Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.
Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E que nos cegos deuses confiaram.
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. a Memória Longínqua de Uma Pátria
Eterna mas perdida e não sabemos
Se é passado ou futuro onde a perdemos
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Tempo Dividido
Tardes inertes morrem no jardim.
Esqueci-me de vós e sem memória
Caminho nos caminhos onde o tempo
Como um monstro a si próprio se devora.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quadro
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quadro
Aureolado de espanto e de desastres
Em busca do seu corpo dividido
Todas as sombras se erguem das esquinas
E o seguem devagar nas ruas verdes
São como cães no rastro dos seus passos
Aberta a porta o quarto grave surge
E os espaços oscilam nas janelas.
Adélia Prado
Feira de São Tanaz
de suas postas sangrentas.
Falta modéstia às frutas.
De ponta a ponta, barracas,
quero fugir dali
acossada pelos tomates
de inadequado esplendor.
Compro dois nabos para comê-los crus,
feito um eremita em sua horta.
Não por virtude,
por orgulho talvez travestido do júbilo
que me vendeu o diabo
em sua tenda de enganos.