Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Adélia Prado
Mandala
Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
1 194
Adélia Prado
Mandala
Minha ficção maior é Jonathan,
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
mas, como é poética, existe
e porque existe me mata
e me faz renascer a cada ciclo
de paixão e de sonho.
1 194
Adélia Prado
O Tesouro Escondido
Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
1 630
Adélia Prado
Adoração Noturna
É como um olhar,
como um olhar imóvel.
Beijam-me quando assim me tomas,
admirados
de que não repila a comiseração:
‘Não é a que tem desejos e sandálias?’
Vossos pés me ocupam, vossos dedos
cuja perfeição esgota a eternidade.
Quem mais adora quando me arrebatas?
Meus sapatos são os vossos,
de ouro,
iguais são nossos joelhos,
as rótulas sobre as quais
— eu, ou vós? — descansamos as mãos.
Necessária como Deus,
coberta de meus pecados resplandeço.
como um olhar imóvel.
Beijam-me quando assim me tomas,
admirados
de que não repila a comiseração:
‘Não é a que tem desejos e sandálias?’
Vossos pés me ocupam, vossos dedos
cuja perfeição esgota a eternidade.
Quem mais adora quando me arrebatas?
Meus sapatos são os vossos,
de ouro,
iguais são nossos joelhos,
as rótulas sobre as quais
— eu, ou vós? — descansamos as mãos.
Necessária como Deus,
coberta de meus pecados resplandeço.
1 181
Adélia Prado
Trindade
Deus só me dá o sonho.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
1 350
Adélia Prado
Trindade
Deus só me dá o sonho.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
O resto me toma, indiferente aos gritos,
porque o sonho é Ele próprio travestido de Jonathan
e sua cara de mármore inalcançável.
Minhas bravatas! Nunca fui além de seus dedos
por debaixo do pires:
Mais café, Jonathan? Mais café?
Ele me achando ousada porque olhei seus sapatos
e em seguida a janela
para que lesse nessa linha oblíqua
a urgência da minha alma.
Me beijou algum dia ou foi sonho, excessivo desejo?
Deus me separa de Deus, é frágua seu coração
ardendo de amor por mim que ardo de amor por Jonathan
que observa Orion, impassível como um rochedo.
“Tomai cuidado, vossas fantasias se cumprem.”
Imagino que peço a Jonathan:
me deixa ferir teu lábio pra me provares que existes.
Jonathan que amo é divino,
acho que é humano também.
Um dia vai tomar minha cabeça com insuspeitada doçura.
Então,
eu Te amo, Deus,
contra mim mesma é o que direi,
Te amo.
1 350
Adélia Prado
Pedido de Adoção
Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.
1 620
Adélia Prado
Sesta Com Flores
Temporal para Ofélia
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
é chuva que dura tempos.
Voltou de novo, no ouvido,
o barulhinho de telégrafo.
Vaca é nome invasivo,
o nome só, a vaca é boa.
Sofro de aristocracismo,
logo eu,
nascida em Córrego da Ferrosa.
Invadi filho uma vez,
quero ficar sem minha língua,
a repetir o que fiz.
À porta da escola
um menino doente
ajudava o outro a subir,
homem é muleta de Deus.
Não há descanso aqui,
estamos no exílio,
edificando móbiles na areia.
Os galos sabem,
cantam fora de hora
querendo apressar o dia,
tem deus, tem deus, tem deus
gritam os recém-nascidos
e as dálias
com seu cheiro de morte e virgindade.
O barulhinho de telégrafo continua,
mas até faz dormir:
tem deus, tem deus, tem deus.
1 232
Adélia Prado
Formas
De um único modo se pode dizer a alguém:
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.
‘não esqueço você’.
A corda do violoncelo fica vibrando sozinha
sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados.
Meu coração causa pasmo porque bate
e tem sangue nele e vai parar um dia
e vira um tambor patético
se falas no meu ouvido:
‘não esqueço você’.
Manchas de luz na parede,
uma jarra pequena
com três rosas de plástico.
Tudo no mundo é perfeito
e a morte é amor.
1 495
Adélia Prado
Não-Blasfemo
Deus não tem vontade. Eu, sim,
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
1 297
Adélia Prado
Pastoral
Quando, por demasiada,
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
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Adélia Prado
Pastoral
Quando, por demasiada,
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
a saudade de Jonathan me perturba
eu vou pra roça.
Nas ruas de café,
entre canas de milho e folhas de bugre lustrosas,
sua presença anímica me acalma.
O cheiro dele é resinas, sua doçura,
escondida em cupins, cascas de pau,
mel que nunca provei.
Meu coração implora à ordem amorosa do mundo:
vem, Jonathan. E aparece um besouro
com o mesmo jeito dele caminhar.
Descubro que passarinhos
só fazem o que lhes dá gosto
e me incitam do bambual:
Você também, pequena mulher,
deve cumprir seu destino.
Há um sacramento chamado
da Presença Santíssima, um coração
dizendo o mesmo que o meu:
vem, vem, vem.
Conheci a cólera de Deus,
agora, seu vigilante ciúme.
Até a raiz das touceiras,
até onde vejo e não vejo,
rastro imperceptível de formigas,
Ele, Jonathan, e eu,
faca, doçura e gozo,
dor que não deserta de mim.
1 284
Adélia Prado
Tal Qual Um Macho
Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
1 031
Adélia Prado
Tal Qual Um Macho
Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
1 031
Adélia Prado
O Demônio Tenaz Que Não Existe
A glória de Deus é maior que este avião no céu.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
E Seu amor, de onde o meu medo vem,
mar de delícias onde caem aviões e barcos naufragam,
eu sei, eu sei
e sei também a coisa desastrosa, ser o corpo do tempo,
existir,
o intermitente pavor.
Jonathan, a morte é amor
e por que, se tenho certeza, ainda temo?
Por que um peixe é feliz e eu não sou?
É esquisito ser gente.
Quando abri a porta de noite,
lá estava um sapo de pulsante papo,
um pacífico sapo.
Pensei: é Jonathan disfarçado, veio aqui me visitar.
Ainda assim empurrei-o com a vassoura
e fui ver televisão.
Sob céu estrelado, ficarei sem dormir, admirada.
O amor de Deus é Sua Beleza,
igualam-se.
Quero ser santa como santa é Agnes,
a que voa nas asas dos besouros,
cantando pra me acalmar com sua voz de menina:
“desvencilha-te das cadeias que te prendem o pescoço,
ó filhinha cativa de Sião”.
Os aviões causam medo porque Deus está neles.
Me abraça, Deus, com Teu braço de carne,
canta com Tua boca pra eu ficar inocente.
1 386
Adélia Prado
Carta
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
1 358
Adélia Prado
Carta
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
1 358
Adélia Prado
Carta
Jonathan,
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
por sua causa
começam a acontecer coisas comigo.
Ando cheia de medo.
Quero me mudar daqui.
Enfarei dos parentes,
do meu cargo na paróquia
e cismei de arrumar os cabelos
como certas cantoras.
Não tenho mais paciência
com assuntos de quem morreu,
quem casou,
caí no ciclo esquisito de quando te conheci.
Fico sem comer por dias,
meu sono é quase nenhum,
ensaiando diálogos
pra quando nos encontrarmos
naquele lugar distante
dos olhos da Marcionília
que perguntou com maldade
se vi passarinho verde.
Me diga a que horas pensa em mim,
pra eu acertar meu relógio
pela hora de Madagascar,
onde você se aguenta
sem me mandar um postal.
A não ser o Soledade e minha querida irmã,
ninguém sabe de nós.
Só a eles conto o meu desvario.
Bem podia você telefonar,
escrever,
telegrafar,
mandar um sinal de vida.
Há o perigo de eu ficar doente,
me surpreendi grunhindo,
beijando meu próprio braço.
Estou louca mesmo.
De saudade.
Tudo por sua causa.
Me escreve.
Ou inventa um jeito
de me mandar um recado.
Da janela do quarto onde não durmo
fico olhando Alfa e Beta,
que, na minha imaginação,
representam nós dois.
Você me acha infantil, Jonathan?
Pediram insistentemente
para eu saudar o Embaixador.
Respondi: não.
Com todas as letras: não.
Só pra me divertir, expliquei
que aguardo na mesma data
visita da Manchúria,
professor ilustre vem saber
por que encho tantos cadernos
com este código espelhado:
OMAETUE NAHTANOJ.
Torço pra estourar uma guerra
e você se ver obrigado
a emigrar para Arvoredos.
Me inspecionam.
Devo ter falado muito alto.
Beijo sua unha amarela
e seus olhos que finge distraídos
só para aumentar minha paixão.
Sei disso e ainda assim ela aumenta.
Alfa querido, ciao.
Sua sempre Beta.
1 358
Adélia Prado
Arguição da Soberba
O que de pronto se mostra
palpitante e acabado
vazando precioso entre cacófatos
se ri do poeta
ocupado em limpar textículos:
ó truão,
no poema como no quadro
os olhos estão no umbigo.
palpitante e acabado
vazando precioso entre cacófatos
se ri do poeta
ocupado em limpar textículos:
ó truão,
no poema como no quadro
os olhos estão no umbigo.
1 018
Adélia Prado
O Aprendiz de Ermitão
É muito difícil jejuar.
Com a boca decifro o mundo, proferindo palavras,
beijando os lábios de Jonathan que me chama Primora,
nome de amor inventado.
Flauta com a boca se toca,
do sopro de Deus a alma nasce,
dor tão bonita que eu peço:
dói mais, um pouquinho só.
Não me peça de volta o que me destes, Deus.
Meu corpo de novo é inocente,
como a pastos sem cerca amo Jonathan,
mesmo que me esqueça.
Ó mundo bonito!
Eu quero conhecer quem fez o mundo
tão consertadamente descuidoso.
Os papagaios falam, Jonathan respira
e tira do seu alento este som: Primora.
“Tomai e comei.”
Vosso Reino é comida?
Eu sei? Não sei.
Mas tudo é corpo, até Vós,
mensurável matéria.
O espírito busca palavras,
quem não enxerga ouve sons,
quem é surdo vê luzes,
o peito dispara a pique de arrebentar.
Salve, mistérios! Salve, mundo!
Corpo de Deus, boca minha,
espanto de escrever arriscando minha vida:
eu te amo, Jonathan,
acreditando que você é Deus e
me salvará a palavra dita por sua boca.
Me saúda assim como à Aurora Consurgens:
Vem, Primora.
Falas como um homem,
mas o que escuto é o estrondo
que vem do Setentrião.
Me dá coragem, Deus, para eu nascer.
Com a boca decifro o mundo, proferindo palavras,
beijando os lábios de Jonathan que me chama Primora,
nome de amor inventado.
Flauta com a boca se toca,
do sopro de Deus a alma nasce,
dor tão bonita que eu peço:
dói mais, um pouquinho só.
Não me peça de volta o que me destes, Deus.
Meu corpo de novo é inocente,
como a pastos sem cerca amo Jonathan,
mesmo que me esqueça.
Ó mundo bonito!
Eu quero conhecer quem fez o mundo
tão consertadamente descuidoso.
Os papagaios falam, Jonathan respira
e tira do seu alento este som: Primora.
“Tomai e comei.”
Vosso Reino é comida?
Eu sei? Não sei.
Mas tudo é corpo, até Vós,
mensurável matéria.
O espírito busca palavras,
quem não enxerga ouve sons,
quem é surdo vê luzes,
o peito dispara a pique de arrebentar.
Salve, mistérios! Salve, mundo!
Corpo de Deus, boca minha,
espanto de escrever arriscando minha vida:
eu te amo, Jonathan,
acreditando que você é Deus e
me salvará a palavra dita por sua boca.
Me saúda assim como à Aurora Consurgens:
Vem, Primora.
Falas como um homem,
mas o que escuto é o estrondo
que vem do Setentrião.
Me dá coragem, Deus, para eu nascer.
1 376
Adélia Prado
A Santa Ceia
Começou dizendo: o amor...
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
1 364
Adélia Prado
A Santa Ceia
Começou dizendo: o amor...
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
mas não pôde concluir
pois alguém o chamava.
O amor... como se me tocasse,
falava só para mim,
ainda que outras pessoas estivessem à mesa.
O amor... e arrastou sua cadeira
pra mais perto.
Não levantava os olhos, temerosa
da explicitude do meu coração.
A sala aquecia-se
do meu respirar de crepitação e luzes.
O amor...
Ficou só esta palavra do inconcluído discurso,
alimento da fome que desejo perpétua.
Jonathan é minha comida.
1 364
Adélia Prado
Festa do Corpo de Deus
Como um tumor maduro
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“O crux ave, spes unica
O passiones tempore.”
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo, amor.
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“O crux ave, spes unica
O passiones tempore.”
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta árvore de execração
o que dizes é amor,
amor do corpo, amor.
1 365
Adélia Prado
As Seis Badaladas do Entardecer
Cantores populares no Brasil
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
1 310