Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Carlos Drummond de Andrade
Aos Santos de Junho
Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 108
Carlos Drummond de Andrade
Entrevista (Exclusiva)
— Marechal, o senhor, que é candidato
ainda não registrado mas de fato,
poderá nos dizer o seu programa?
— Ah, quem dorme de pé não cai da cama.
Eu lhe dou, não promessas, mas decretos,
pois, pelos vaticínios mais corretos,
já ganhei a eleição na maciota,
já sou o presidente, tome nota.
— Mas, como assim?
— Pois o senhor não vê
que até perdendo ganha o PSD?
Napoleão, como sabe, era lotista,
e eu sou, eu sempre fui um pessedista.
— Já o era no 11 de Novembro?
— Bem, com franqueza, disso não me lembro.
— Suas ideias, marechal, quais são?
— Procedo, no momento, à seleção.
Do Josué chegou todo um caixote,
do Benedito veio-me outro lote.
O embrulhinho que pus a congelar
são as do meu compadre João Goulart.
(Acho meio cacete este serviço
de escolher, criticar. Não dou pra isso.)
E depois, em havendo precisão,
valho-me do ideário do Falcão:
boa-praça, tão hábil camarada,
que torna doce o fio de uma espada.
— Marechal, a reforma…
— Eu sei, agrária.
Depende, quer dizer, pois é tão vária
a condição rural, porém, contudo…
Fui claro, como vê, e disse tudo.
— E a inflação, marechal?
— É, a inflação!
Muita pedida e pouca produção,
foi o que me explicou ontem, por fim,
o doutor Zé Maria do Alkmim.
Repare que eu me informo. Em poucos dias
(escreveu-me, assombrado, o velho Bias)
fiquei sabendo mais que o Santos Vahlis
e o próprio embaixador Moreira Salles.
— E que me diz do deficit de escolas?
— Primeiro vou cuidar é das bitolas,
para uniformizá-las: trem de ferro,
soldado, jornalista… Dá-se um berro
e tudo entra nos trilhos, que o uniforme
(nos outros) significa um bem enorme:
ninguém pode falar, e assim calados
serão tranquilamente governados,
no mais perfeito e rijo enquadramento.
— Marechal, os partidos…
— Um momento.
O nome já revela: estão partidos,
mas saberei torná-los bem unidos
— pegue o mote —
num só e majestoso: o PDLote.
26/07/1959
ainda não registrado mas de fato,
poderá nos dizer o seu programa?
— Ah, quem dorme de pé não cai da cama.
Eu lhe dou, não promessas, mas decretos,
pois, pelos vaticínios mais corretos,
já ganhei a eleição na maciota,
já sou o presidente, tome nota.
— Mas, como assim?
— Pois o senhor não vê
que até perdendo ganha o PSD?
Napoleão, como sabe, era lotista,
e eu sou, eu sempre fui um pessedista.
— Já o era no 11 de Novembro?
— Bem, com franqueza, disso não me lembro.
— Suas ideias, marechal, quais são?
— Procedo, no momento, à seleção.
Do Josué chegou todo um caixote,
do Benedito veio-me outro lote.
O embrulhinho que pus a congelar
são as do meu compadre João Goulart.
(Acho meio cacete este serviço
de escolher, criticar. Não dou pra isso.)
E depois, em havendo precisão,
valho-me do ideário do Falcão:
boa-praça, tão hábil camarada,
que torna doce o fio de uma espada.
— Marechal, a reforma…
— Eu sei, agrária.
Depende, quer dizer, pois é tão vária
a condição rural, porém, contudo…
Fui claro, como vê, e disse tudo.
— E a inflação, marechal?
— É, a inflação!
Muita pedida e pouca produção,
foi o que me explicou ontem, por fim,
o doutor Zé Maria do Alkmim.
Repare que eu me informo. Em poucos dias
(escreveu-me, assombrado, o velho Bias)
fiquei sabendo mais que o Santos Vahlis
e o próprio embaixador Moreira Salles.
— E que me diz do deficit de escolas?
— Primeiro vou cuidar é das bitolas,
para uniformizá-las: trem de ferro,
soldado, jornalista… Dá-se um berro
e tudo entra nos trilhos, que o uniforme
(nos outros) significa um bem enorme:
ninguém pode falar, e assim calados
serão tranquilamente governados,
no mais perfeito e rijo enquadramento.
— Marechal, os partidos…
— Um momento.
O nome já revela: estão partidos,
mas saberei torná-los bem unidos
— pegue o mote —
num só e majestoso: o PDLote.
26/07/1959
804
Carlos Drummond de Andrade
Dominicália
Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
862
Carlos Drummond de Andrade
Dominicália
Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
862
Carlos Drummond de Andrade
Lira da Apuração
Cruzada
— Oposição, meta suprema!
diz, empunhando o seu archote,
o bravo Abelardo Jurema.
— A Jânio Quadros? — Não, a Lott.
Linguagem das flores
No jardim de Barbacena,
o cravo acordou mais cedo
para saber da açucena
quem perdeu: Bias? Tancredo?
Explosão nuclear
Vasconcelos Torres, prudente,
e Benedito Valadares
recolhem diligentemente
cacos do PSD nos ares.
O que se deve ler
Quer dedicar-se a leituras
nosso caro Marechal?
Procure nas Escrituras
o Eclesiastes: legal.
Nova indústria
Nova meta se concebe
neste difícil momento
nos corredores do ISEB:
quer-se o desenvolvimento
de indústria que torne rico
o Brasil, não mais escrava
a pátria, pelo fabrico
de vassouras de piaçava.
Más companhias
De Lott explica-se a perda
(era claro o vaticínio).
Teve Prestes pela esquerda
e, pela direita, Plínio.
Molière em Minas
Tancredo Neves a cena
deixa pelo camarim:
artes de Ribeiro Pena
e fourberies de Alkmim.
Estado do Rio
Silveira junta-se a Peixoto
para vencerem por cem mil.
Treme a terra em doido alvoroto…
— E ganharam? — É, por um til.
Decepção
O reduto de Brizola,
petebista vero e audaz,
cuê-pucha! era uma grampiola
de pura charla, no más.
09/10/1960
— Oposição, meta suprema!
diz, empunhando o seu archote,
o bravo Abelardo Jurema.
— A Jânio Quadros? — Não, a Lott.
Linguagem das flores
No jardim de Barbacena,
o cravo acordou mais cedo
para saber da açucena
quem perdeu: Bias? Tancredo?
Explosão nuclear
Vasconcelos Torres, prudente,
e Benedito Valadares
recolhem diligentemente
cacos do PSD nos ares.
O que se deve ler
Quer dedicar-se a leituras
nosso caro Marechal?
Procure nas Escrituras
o Eclesiastes: legal.
Nova indústria
Nova meta se concebe
neste difícil momento
nos corredores do ISEB:
quer-se o desenvolvimento
de indústria que torne rico
o Brasil, não mais escrava
a pátria, pelo fabrico
de vassouras de piaçava.
Más companhias
De Lott explica-se a perda
(era claro o vaticínio).
Teve Prestes pela esquerda
e, pela direita, Plínio.
Molière em Minas
Tancredo Neves a cena
deixa pelo camarim:
artes de Ribeiro Pena
e fourberies de Alkmim.
Estado do Rio
Silveira junta-se a Peixoto
para vencerem por cem mil.
Treme a terra em doido alvoroto…
— E ganharam? — É, por um til.
Decepção
O reduto de Brizola,
petebista vero e audaz,
cuê-pucha! era uma grampiola
de pura charla, no más.
09/10/1960
554
Carlos Drummond de Andrade
Abrilmente
Abril, rosa e gazel em nome de il:
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
dá-nos tempo melhor que o mês de março.
Torna o Rio mais doce, meigo abril,
chega de lama e de calor esparso.
Prorrogar esta coisa é tão atroz
como o que vem tramando o Antônio Horácio:
prorrogar os mandatos… Ai de nós,
e que virá depois de tal prefácio?
Vem o fim deles mesmos, prorrogados,
autoeleitos, em autos reluzentes,
enquanto que o eleitor — os tristes gados —
vai no calcante e sonha um Tiradentes.
O cai-não-cai das casas vê se evitas,
que já ficou difícil de morar
entre zonas seguras e interditas,
e garantia, mesmo, só no mar.
De mim não peço muito: alguns instantes
em que eu possa ficar lendo, enlevado,
as nuvens de Ipanema, tal como antes
a Madona de Cedro, de Callado.
Traze um pouco de fé ao bom Negrão,
alcaide nosso um tanto já blasé,
que se queixa de um ano todo “não”.
Dureza — ensina — escreve-se com dê.
(Dê duro nas mazelas, feche a cara,
pouse na chapeleira o seu Gelot
e faça reflorir na Guanabara
a esperança que há muito se apagou.)
Eleição em São Paulo? Está-se vendo
o que, presságio escuro, pinta no ar.
Todo acionista cobra dividendo:
a rima de Ademar é João Goulart.
Quero telefonar, mas a tarifa
(a meu Anjo da Guarda) não dá jeito.
Cismo, no Posto 6, uma outra rifa
da nossa igreja. Prêmio: um bom prefeito.
Mas, salve, morador de Barbacena!
Numa cooperativa telefônica,
ele faz o serviço, e a voz amena
inda me traz assunto para crônica.
Imaginar não custa: o bom exemplo,
como caxumba, pega; e aqui no Rio,
água, transporte, lixo — o que contemplo
é de desvanecer cá o titio.
Tudo limpo, ordenado, satisfeito…
Houve revolução, pelo Brasil?
Não (sorrio daqui ao meu prefeito):
este é dia primeiro. E o mês, abril.
31/03/1957
1 168
Carlos Drummond de Andrade
A Outra Face
Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 274
Carlos Drummond de Andrade
A Outra Face
Por onde erra Jules Laforgue,
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
que não vem cantar a seu jeito
— Lune bénie, blanc médaillon
des Endymions —
a segunda face da lua?
Só há fotógrafos eletrônicos
e supersônicos repórteres?
Pergunto à amiga, e ela pergunta
por sua vez: “Quando, cronista,
haverá desfiles de modas
na segunda face da lua?
Quero entrar na primeira lista
de convidados, não te esqueças”.
No apartamento aqui ao lado,
o disco “Olhe o tempo passado”
filtra, na chuva da manhã,
uma lembrança melancólica:
a voz de Dolores Duran.
A boa chuva criadeira
vai lambendo, suave e metódica,
a minha nova amendoeira.
Chuva, anuncias-me novembro,
e já leio nos vespertinos
a tabela triste de flores
das almas:
roxos agapantos, saudades,
margaridas campistas, palmas
de provinciais variedades,
dessas humilíssimas cores
(“xangai”, dizem decoradores),
que no seu cimério destino
são felizes no cemitério.
Este ano — tudo falso — a dor
amortece com cibalena
de mentira, e a morte, ladina,
toma gotas de coramina,
estimulante circulatório
do movimento funerário.
Morre uma vaca atropelada
em Madureira; logo cada
passante corta um naco, e em breve
seu esqueleto fica leve
de toda carne, horror… O dono,
alertado por um vizinho,
pupilas úmidas de sono,
acode e nem sequer os ossos
pode salvar para um caldinho.
— Esta fila não anda, irmão?
— Mas é claro: seus componentes,
na busca inútil do feijão,
viram todos postes da Light.
A cidade, postificada,
que espera da Cofap? Nada.
Qual novo infante Dom Henrique,
resta explorar, de nossa rua,
em imaginário lunique,
a segunda face da lua.
01/10/1959
1 274
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 173
Carlos Drummond de Andrade
Aqui, Ali
Cinco horas. Livraria São José.
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:
O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.
Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:
O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.
Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
677
Carlos Drummond de Andrade
Isto E Aquilo
“Zefa, chegou o inverno”, diz o Poeta.
Chegou mesmo? chegada tão discreta
que pouca gente viu e tomou nota.
Esse frio que aí está não vale um iota.
O tempo, como tudo, anda inseguro,
até parece o Lott, que seu futuro
indaga en effeuillant la marguerite:
“Aceito ou não aceito esse convite
que o Último de Carvalho me apresenta
para a pátria salvar, firme, em 60?
Que dizem os partidos?” (Os partidos
disfarçaram, com seus rabos torcidos.)
E para seduzir o PSD,
o PTB e o P não sei o quê,
redige-se um anúncio longo e exato:
“Quem quer um marechal pra candidato?
Não é muito falante nem grandíloquo,
mas a gente contrata um bom ventríloquo.
Se ele é meio zangado? Ora, com jeito
se leva quem nos quer levar no peito.
E é hora de aprender a regra esconsa:
quem não tem mesmo cão caça com onça”.
Os pobres dos partidos, assustados,
quanto mais inquiridos, mais calados,
e, quanto mais calados, mais partidos
em mil pedaços, mil indecisões
de outras tantas mimosas ambições.
JK, pairando alto, em serenata,
deixa cair, sob o luar de prata,
uma jura de amor, meiga, solene,
por sobre a donzelice da UDN.
A Bahia e o Palácio da Alvorada
namoram-se da noite na calada.
Pra casar ou pra quê? Altos mistérios,
elucidai-os vós, cronistas sérios.
Medita Jango uma reforma agrária
em que, graças à Empresa Funerária,
seja a terra de todos — loteamento
com casinhas de mármore e cimento
em lugares tranquilos, onde grilos
não irrompam munidos de escrituras.
Votantes, ocupai as sepulturas!
E que mais, na semana? Amigo, se
a água te falta, vai a Meriti,
leva tua moringa, fura um cano,
e volta ao Rio, abastecido e ufano.
Eu bebo de outra fonte, linfa eterna,
e curvo-me à Poesia: não governa
o mundo hostil, mas torna a vida cheia
de suave tremor. Fino Correia,
nobre Raimundo, salve: nos teus versos
há mágicos, ocultos universos
de musical melancolia errante…
Penso em ti com ternura, neste instante.
17/05/1959
Chegou mesmo? chegada tão discreta
que pouca gente viu e tomou nota.
Esse frio que aí está não vale um iota.
O tempo, como tudo, anda inseguro,
até parece o Lott, que seu futuro
indaga en effeuillant la marguerite:
“Aceito ou não aceito esse convite
que o Último de Carvalho me apresenta
para a pátria salvar, firme, em 60?
Que dizem os partidos?” (Os partidos
disfarçaram, com seus rabos torcidos.)
E para seduzir o PSD,
o PTB e o P não sei o quê,
redige-se um anúncio longo e exato:
“Quem quer um marechal pra candidato?
Não é muito falante nem grandíloquo,
mas a gente contrata um bom ventríloquo.
Se ele é meio zangado? Ora, com jeito
se leva quem nos quer levar no peito.
E é hora de aprender a regra esconsa:
quem não tem mesmo cão caça com onça”.
Os pobres dos partidos, assustados,
quanto mais inquiridos, mais calados,
e, quanto mais calados, mais partidos
em mil pedaços, mil indecisões
de outras tantas mimosas ambições.
JK, pairando alto, em serenata,
deixa cair, sob o luar de prata,
uma jura de amor, meiga, solene,
por sobre a donzelice da UDN.
A Bahia e o Palácio da Alvorada
namoram-se da noite na calada.
Pra casar ou pra quê? Altos mistérios,
elucidai-os vós, cronistas sérios.
Medita Jango uma reforma agrária
em que, graças à Empresa Funerária,
seja a terra de todos — loteamento
com casinhas de mármore e cimento
em lugares tranquilos, onde grilos
não irrompam munidos de escrituras.
Votantes, ocupai as sepulturas!
E que mais, na semana? Amigo, se
a água te falta, vai a Meriti,
leva tua moringa, fura um cano,
e volta ao Rio, abastecido e ufano.
Eu bebo de outra fonte, linfa eterna,
e curvo-me à Poesia: não governa
o mundo hostil, mas torna a vida cheia
de suave tremor. Fino Correia,
nobre Raimundo, salve: nos teus versos
há mágicos, ocultos universos
de musical melancolia errante…
Penso em ti com ternura, neste instante.
17/05/1959
1 605
Carlos Drummond de Andrade
De Ontem, de Hoje
E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
993
Carlos Drummond de Andrade
O Deus de Cada Homem
Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
1 405
Carlos Drummond de Andrade
O Deus de Cada Homem
Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
1 405
Carlos Drummond de Andrade
Ao Sol da Praia
Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 403
Carlos Drummond de Andrade
Verão
Pedes, amigo, novas da cidade
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
tão faladora quanto Xerazade
e tão sensual que a própria Sulamita
a seu lado parece que faz fita.
E eu te direi que o grande ajuntamento
de pessoas e casas, no momento,
não pensa no que pensas. O importante
neste dezembro, sob o sol flamante,
não são os fins humanos da energia,
rosa a desabrochar na guerra fria,
nem a luta do homem contra o câncer,
começando a ganhar (seria vã, cer-
tamente a pretensão de dar-lhe rima);
nem tampouco a assembleia dissolvida
na terra da Greco, nem a renhida
peleja entre os irmãos do Oriente Médio,
a que o siso não sabe dar remédio;
nem o preço da carne, que, subindo,
famílias de faquir vai constituindo.
Não, amigo, sinucas e pesares
fogem de nossa mente, pelos ares,
que a grande novidade, o caso sério
é o verão que chegou, é seu império.
As ruas já são outras, e as pessoas
remoçam junto a praias e lagoas,
e é uma festa, meu caro, de vestidos
translúcidos, abstratos, coloridos,
e de curvas morenas ou bronzeadas
a florescer na luz, pelas calçadas.
Se visses, meu compadre, às seis e meia,
um disco sobre o mar, a lua cheia,
ainda rubra de sol, e os corpos louros
desatando na areia seus tesouros!
Mas a qualquer momento, em qualquer ponto,
a cor se casa ao ritmo, e põe-me tonto.
Sacando a esferográfica do seio
(Posto 6), a moça entra no Correio.
Vai à praia, depois? Vai a comprinhas,
de biquíni, ray-ban e outras coisinhas.
Não desejo estender-me no decote,
para poupar-te a sede sem o pote.
(Às vezes não se sabe onde ele acaba:
quem adivinha o bicho na goiaba?)
A hora não é de ação, mas de sorvete;
deixa o ministro o chato gabinete:
um mergulho na fluida turmalina,
e eis que se entrega à pesca submarina.
(Entre arpões, aqualungas, aquaplanos,
quem fisga menos são os veteranos.)
A noite é fogo, mas aberta em bares,
e a penumbra requinta os mais vulgares.
Se o calor a uns enerva e a outros abate,
é um consolo a Teresinha Solbiati,
que São Paulo emprestou — não devolvemos!
Vote o Congresso, urgente, o que escrevemos.
Enfim, meu velho, o mar, que é puro e bom,
os inocentes banha, no Leblon.
E, se acaso nos faltam pão e amor,
resta a felicidade do calor.
04/12/1955
2 431
Carlos Drummond de Andrade
Musa Domingueira
Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
506
Carlos Drummond de Andrade
Musa de Outubro
— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.
Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?
Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.
Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.
Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.
Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.
Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?
Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.
Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.
Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.
Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 161
Carlos Drummond de Andrade
Destino: Brasília
Vou no rumo de Brasília,
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.
Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.
Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.
Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.
Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.
Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.
Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.
Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.
Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.
Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?
Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.
Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?
Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.
Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.
É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…
Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.
Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,
Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.
Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.
E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.
Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
não é aqui meu lugar.
A liberdade, no exílio,
já começa a definhar.
Já não posso ouvir meu rádio
dizer as coisas comuns.
Lá fundarei uma arcádia
e comerei jerimuns.
Lá não chegam portarias
do titular da Viação.
Lá correm livres os rios
e livre é meu coração.
Sobe o imposto de consumo?
Ônibus mais caro, trem?
Lá, sem condução alguma,
sento no chão com meu bem.
Vou no rumo de Brasília,
para bem longe do mar.
A selva é meu domicílio,
tão mais fácil de habitar.
Adeus, fumaça, adeus, fila,
adeus, carro matador.
Prefiro orquestra de grilo
ao silêncio do censor.
Se a lei contra a imprensa pega,
jornal vira boletim
meteorológico, cego,
surdo, mudo, chocho enfim.
Escola? a da natureza.
Prato do dia? arganaz.
Vou redescobrir, surpreso,
no mato, a prístina paz.
Vou no rumo de Brasília,
que o Rio está de amargar.
Da inquisição o concílio
me proíbe até pensar.
Se o governo vai malito
e pensa que vai melhor,
quem mais lhe desmancha a fita
de pobre vestida à Dior?
Se chamo alguém de plagiário
(provando-o), me salta a lei:
Direto à Penitenciária,
por injúria grave! Eu sei.
Ladinos do bairro Fátima,
inocentes do Leblon,
que resta — dizei, num átimo —,
salvo Glorinha Drummond?
Vou no rumo de Brasília,
o Catete vai ficar.
Se ele for, eu rogo auxílio
a Exu, monarca do ar.
Em Brasília ninguém tenta
espalhar promessa vã.
Transporte? ao tapa do vento,
monto na besta alazã.
É seu maior privilégio
a vida sem pose, ao sol,
a simplicidade egrégia
da relva como lençol…
Orquídea, lontra, cachoeiro
em sussurro musical.
Não há, nem de brincadeira,
Polícia Municipal.
Vou no rumo de Brasília,
e, para me deliciar,
levo meu compadre Emílio
Moura, de brando falar,
Cyro, Cruls, Gilberto Amado,
Aníbal, mago sutil,
Rodrigo M. F., apurada
essência do meu Brasil.
Não são fantasias bobas:
Portinari e seu pincel;
em vez de Orfeu, Villa-Lobos.
Bandeira — of course —: Manuel.
E amigos, amigas, certa
saudade do que era azul,
pois mesmo longe está perto
meu norte — da Zona Sul.
Vou no rumo de Brasília.
21/10/1956
1 599
Carlos Drummond de Andrade
Violinha
IRGA
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
As mangas de fora pôs
para servir-nos a boia:
Brizola nos vende arroz
como se fosse uma joia.
Atacadistas
Dizia o bico-de-lacre
àquela rolinha sura:
— Já viu como a rua Acre
virou rua da Amargura?
PTB
Programa tão alto e puro
quando seus frutos dará?
Ao povo — só no futuro;
ao pelego — desde já.
Previsão
Seria mais sábio o aviso
se falasse francamente:
Em vez de “chuva e granizo”:
“Amanhã, dia de enchente”.
Modéstia
Candidato, eu? Errado!
Exclama Lott, afinal.
Não sou mais do que um soldado
(no posto de marechal).
Lembrete
Urgência de candidato?
Ninguém se faz preferido?
Num Viscount ou turbojato,
há um, embora servido.
Socialismo
Distribuição de terrenos?
É bossa do PTB.
A terra de todos! (Menos
a de Jango, já se vê.)
Atraso
No fundo de sua cova,
Sacco e Vanzetti, perdoados,
acolhem a boa nova:
— Já morremos. Obrigados.
Obituário
Na esperança de que escape
do enterro ao custo elevado,
o cadáver da Cofap
inda não foi sepultado.
Reforma
Uma reforma de base
pede Jango, decidido.
E alguém, ouvindo-lhe a frase:
— Começa por seu partido?
Defesa
Os barbudos de Fidel,
mal se lhes vê o nariz:
das barbas fazem broquel
contra seus próprios fuzis.
05/04/1959
553
Carlos Drummond de Andrade
A Semana
Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 017
Carlos Drummond de Andrade
Desfile
Já fatigado de escrever em prosa,
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
este vago cronista pede ao verso
que de mansinho desabroche em rosa
e a Rachel de Queiroz hoje se oferte
pelo muito que amamos os seus livros
fraternos e pungentes, seres vivos.
Uma rosa a Rachel? Mas é tão pouco
uma flor por um mundo que começa
no Ceará e chega às Três Marias!
Falta evidentemente paridade,
como hoje se diz em cada esquina,
praia, bar, escritório da cidade.
— Falar nisso: qual é o seu salário,
meu doutor-marechal? quinhentos mil?
— Eu mesmo já nem sei, mas vou a jato
saber do último abono extraordinário
e daquele projeto que aposenta
o servidor com um dia de exercício
para ceder lugar a mais quarenta.
Ainda bem que, entre tudo que nos falta,
falta igualmente número ao Congresso…
Mas quem pode aguentar meia semana
em Brasília, onde a vida anda em recesso?
Se a Capital não volta para o Rio,
pois nem o Rio a quer (Inês é morta),
e na praça tristonha os Três Poderes
semelham um deserto fundo de horta,
o jeito, Juscelino, é por decreto
extinguir-se o governo da República,
o que não faz lá muita diferença
e formalmente fica mais correto.
Difícil é extinguir essa doença
chamada camarite vereadora,
ou, dizendo melhor, devoradora,
que já no corpo em flor da Guanabara,
perfumado a lavanda de esperanças,
coloca a nódoa espúria de uma tara.
Aproveitando a rima: e as duas Franças?
Uma, livre, querendo livre a Argélia,
outra, buscando em ferros conservá-la.
Ai, ganância cruel que assim repele a
voz da razão e o senso de justiça!
O que vibra na gente de sensível,
de reto e inconformado, neste mundo
indeciso entre trágicos destinos,
o que há de mais leal e mais profundo,
pulsa convosco, amigos argelinos.
E nessa americana poranduba,
um verso irmão lá vai, direto a Cuba,
onde o sonho dos homens se elabora,
confuso, dolorido… até que um dia
a vida, se não doce como cana,
pelo menos se torne mais humana.
03/12/1960
1 104
Carlos Drummond de Andrade
Reisado do Partido Novo
Vamos repartir
o novo partido?
Boa ideia, gente,
pois o presidente
já está eleito,
e, se ele vem no peito,
vai ser um alvoroço,
não nos sobra um osso.
O lombo mais fino,
diz João Agripino
com jeito solene,
será da UDN.
O Cabral (Castilho)
merece o lombilho.
Ao PDC por ora
cabe a chã-de-fora.
Quanto à chã-de-dentro,
ou antes, do centro,
logo, já se vê,
boca o PSD.
Se é bom que nem frango,
salta vivo o Jango.
Mocotó do pé
não sei de quem é.
Mocotó da mão
dá-se à oposição.
A Mário Martins
nem bofe nem rins.
A concha do ouvido
é de Osvaldo Penido.
Nada a Raul Pila,
ausente da fila.
O duro cangote
ficará pro Lott.
Um naco bonito
pede Benedito.
Briga Vitorino,
toma de Etelvino
o melhor filé.
Mas então como é,
só isso de pá
para JK?
Deram pouco, eu sinto,
a Carvalho Pinto.
A Plínio, salgada
porção de buchada.
Amaral Peixoto
nunca foi canhoto;
não manda ao Sinatra
seu quilo de alcatra.
Armando Falcão,
fígado lhe dão.
A Tenório, aquelas
tíbias e costelas.
Não acaba mais?
Mendes de Morais
no Maracanã
reclama a suã.
As partes malquistas
para os comunistas.
E o mais que sobrar
deixa pra Ademar.
Está repartido
o novo partido.
14/08/1960
o novo partido?
Boa ideia, gente,
pois o presidente
já está eleito,
e, se ele vem no peito,
vai ser um alvoroço,
não nos sobra um osso.
O lombo mais fino,
diz João Agripino
com jeito solene,
será da UDN.
O Cabral (Castilho)
merece o lombilho.
Ao PDC por ora
cabe a chã-de-fora.
Quanto à chã-de-dentro,
ou antes, do centro,
logo, já se vê,
boca o PSD.
Se é bom que nem frango,
salta vivo o Jango.
Mocotó do pé
não sei de quem é.
Mocotó da mão
dá-se à oposição.
A Mário Martins
nem bofe nem rins.
A concha do ouvido
é de Osvaldo Penido.
Nada a Raul Pila,
ausente da fila.
O duro cangote
ficará pro Lott.
Um naco bonito
pede Benedito.
Briga Vitorino,
toma de Etelvino
o melhor filé.
Mas então como é,
só isso de pá
para JK?
Deram pouco, eu sinto,
a Carvalho Pinto.
A Plínio, salgada
porção de buchada.
Amaral Peixoto
nunca foi canhoto;
não manda ao Sinatra
seu quilo de alcatra.
Armando Falcão,
fígado lhe dão.
A Tenório, aquelas
tíbias e costelas.
Não acaba mais?
Mendes de Morais
no Maracanã
reclama a suã.
As partes malquistas
para os comunistas.
E o mais que sobrar
deixa pra Ademar.
Está repartido
o novo partido.
14/08/1960
576
Carlos Drummond de Andrade
Parelhas
Lá se foi a Revista da Semana,
mas eu começo a minha: uma pavana
de fatos mais ou menos exemplares.
— Senador Benedito Valadares,
que diz do PSD? Aquilo existe
ou é só um cochicho meio triste
ao pé do ouvido e à sombra do Catete?
Gato (escaldado) em rabo de foguete,
diz que vai mas não vai, e a presidência
da Câmara balança: a adolescência
da ala velha e a velhice da ala moça,
no decorrer dessa peleja insossa,
brigando, francamente, não resolvem,
nem os astros com isto se comovem.
Mas diz-que vem o tal Conselho sumo
de notáveis, limão que esguicha o sumo
de seu alto saber, meio escondido.
Pergunto, sem fazer-me de enxerido:
— Dr. Luz também entra, ou dá fricote
no General Ministro Duffles Lott?
Pergunto e caio fora. Do alto, a nívea
face da lua cora: na Bolívia,
espera-se um caboclo brasileiro
e é Tio Sam que chega, bem matreiro,
vestindo a nossa calça remendada.
Eu preferia não dizer mais nada,
que a moral deste conto é simples bolha.
Amigos bolivianos, livre escolha?
Seja MacKenna, Lunardi ou Galdeano,
russo, tupiniquim, americano,
Brabol ou Petrobol ou Caracol,
a verdade é uma só, luzindo ao sol:
os bens da terra, a todos prometidos,
são apenas doados e vendidos
em proveito de “grupos”, e a esperança
de um mais justo sistema não alcança
o próximo horizonte. Era de lata
a coroa de Momo, e tão abstrata
a sua monarquia que, deposto,
ninguém repara que mudou de rosto.
O movimento em Cuba foi mais duro,
e estranhamente acaba ao pé de um muro.
Como se mata! A coisa esplende à vista:
vem, depois de um Batista, outro Batista.
E, enquanto Fidel Castro perde o brilho
de herói libertador, importa milho
e feijão a Cofap — sai mais em conta
do que plantando nessa roça tonta…
De resto, o Carnaval recobre tudo.
A estátua de Chopin, durante o entrudo,
veste não sei o quê, na Cinelândia,
e a pobre da cidade, por onde anda
a arte prefeitural, mostra uma cara
que tenta rir, mas é de pau de arara.
Tudo é “vestir os nus” com roupa falsa…
Fernanda Montenegro, porém, se alça
no Ginástico, ali pelo Castelo,
à Arte Maior, e honra Pirandello.
18/01/1959
mas eu começo a minha: uma pavana
de fatos mais ou menos exemplares.
— Senador Benedito Valadares,
que diz do PSD? Aquilo existe
ou é só um cochicho meio triste
ao pé do ouvido e à sombra do Catete?
Gato (escaldado) em rabo de foguete,
diz que vai mas não vai, e a presidência
da Câmara balança: a adolescência
da ala velha e a velhice da ala moça,
no decorrer dessa peleja insossa,
brigando, francamente, não resolvem,
nem os astros com isto se comovem.
Mas diz-que vem o tal Conselho sumo
de notáveis, limão que esguicha o sumo
de seu alto saber, meio escondido.
Pergunto, sem fazer-me de enxerido:
— Dr. Luz também entra, ou dá fricote
no General Ministro Duffles Lott?
Pergunto e caio fora. Do alto, a nívea
face da lua cora: na Bolívia,
espera-se um caboclo brasileiro
e é Tio Sam que chega, bem matreiro,
vestindo a nossa calça remendada.
Eu preferia não dizer mais nada,
que a moral deste conto é simples bolha.
Amigos bolivianos, livre escolha?
Seja MacKenna, Lunardi ou Galdeano,
russo, tupiniquim, americano,
Brabol ou Petrobol ou Caracol,
a verdade é uma só, luzindo ao sol:
os bens da terra, a todos prometidos,
são apenas doados e vendidos
em proveito de “grupos”, e a esperança
de um mais justo sistema não alcança
o próximo horizonte. Era de lata
a coroa de Momo, e tão abstrata
a sua monarquia que, deposto,
ninguém repara que mudou de rosto.
O movimento em Cuba foi mais duro,
e estranhamente acaba ao pé de um muro.
Como se mata! A coisa esplende à vista:
vem, depois de um Batista, outro Batista.
E, enquanto Fidel Castro perde o brilho
de herói libertador, importa milho
e feijão a Cofap — sai mais em conta
do que plantando nessa roça tonta…
De resto, o Carnaval recobre tudo.
A estátua de Chopin, durante o entrudo,
veste não sei o quê, na Cinelândia,
e a pobre da cidade, por onde anda
a arte prefeitural, mostra uma cara
que tenta rir, mas é de pau de arara.
Tudo é “vestir os nus” com roupa falsa…
Fernanda Montenegro, porém, se alça
no Ginástico, ali pelo Castelo,
à Arte Maior, e honra Pirandello.
18/01/1959
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