Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Adélia Prado
Modinha
Quando eu fico aguda de saudade eu viro só ouvido.
Encosto ele no ar, na terra, no canto das paredes,
pra escutar nefando, a palavra nefando.
Um homem que já morreu cantava “a flor mimosa
desbotar não pode, nem mesmo o tempo
de um poder nefando” — mais dolorido canta
quem não é cantor.
A alma dele zoando de tão grave, tocável
como o ar de sua garganta vibrando.
No juízo final, se Deus permitisse,
eu acordava um morto com este canto,
mais que o anjo com sua trombeta.
Encosto ele no ar, na terra, no canto das paredes,
pra escutar nefando, a palavra nefando.
Um homem que já morreu cantava “a flor mimosa
desbotar não pode, nem mesmo o tempo
de um poder nefando” — mais dolorido canta
quem não é cantor.
A alma dele zoando de tão grave, tocável
como o ar de sua garganta vibrando.
No juízo final, se Deus permitisse,
eu acordava um morto com este canto,
mais que o anjo com sua trombeta.
1 367
Adélia Prado
Cabeça
Quando eu sofria dos nervos,
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou de manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar,
quando eu sofria dos nervos.
não passava debaixo de fio elétrico,
tinha medo de chuva, de relâmpio,
nojo de certos bichos que eu não falo
pra não ter de lavar minha boca com cinza.
Qualquer casca de fruta eu apanhava.
Hoje, que sarei, tenho uma vida e tanto:
já seguro nos fios com a chave desligada
e lembrei de arrumar pra mim esta capa de plástico,
dia e noite eu não tiro, até durmo com ela.
Caso chova, tenho trabalho nenhum.
Casca, mesmo sendo de banana ou de manga,
eu não intervo, quem quiser que se cuide.
Abastam as placas de ATENÇÃO! que eu escrevo
e ponho perto. Um bispo, quando tem zelo
apostólico, é uma coisa charmosa.
Não canso de explicar isso pro pastor
da minha diocese, mas ele não entende
e fica falando: ‘minha filha, minha filha’,
ele pensa que é Woman’s Lib, pensa
que a fé tá lá em cima e cá em baixo
é mau gosto só. É ruim, é ruim,
ninguém entende. Gritava até parar,
quando eu sofria dos nervos.
1 280
Adélia Prado
Um Salmo
Tudo que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.
1 573
Adélia Prado
Um Salmo
Tudo que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.
1 573
Carlos Drummond de Andrade
Carrancas do Rio São Francisco
As carrancas do rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
2 281
Carlos Drummond de Andrade
Em Louvor da Miniblusa
Hoje vai a antiga musa
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.
12/01/1969
1 052
Carlos Drummond de Andrade
Versos Negros (Mas Nem Tanto)
Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.
Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.
A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.
Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.
E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.
Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?
Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.
Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.
O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.
Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.
Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.
Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.
Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.
Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.
Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.
Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.
A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.
Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.
E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.
Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?
Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.
Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.
O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.
Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.
Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.
Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.
Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.
Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.
Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
699
Carlos Drummond de Andrade
Versos Negros (Mas Nem Tanto)
Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.
Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.
A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.
Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.
E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.
Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?
Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.
Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.
O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.
Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.
Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.
Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.
Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.
Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.
Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.
Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.
A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.
Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.
E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.
Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?
Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.
Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.
O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.
Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.
Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.
Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.
Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.
Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.
Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
699
Adélia Prado
A Invenção de Um Modo
Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
1 341
Carlos Drummond de Andrade
Falta Um Disco
Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
891
Carlos Drummond de Andrade
Falta Um Disco
Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
891
Carlos Drummond de Andrade
Falta Um Disco
Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados),
voaram por aí
por ali, por além,
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão,
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais,
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia,
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria,
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias,
no infinito céu hoje finito
até no sítio de outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil,
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez…?;
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos,
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador,
hoje comum na rua do Ouvidor.
13/03/1969
891
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 274
Carlos Drummond de Andrade
Aqui E Ali
Coroamento
Aleijadinho, simples mito?
Nunca existiu? Tanto melhor.
Shakespeare, também, e é infinito.
Homero é o tal. Fica maior.
Em preto e branco
“O padre e a moça” no cinema.
Emoção funda quem não há de
sentir ante este filme-poema?
Salve, Joaquim Pedro de Andrade!
O subversivo
Grande bossa, em Minas Gerais:
raspa-se a barba a Tiradentes.
(Com suas faces naturais,
não mete medo aos dirigentes.)
Com sede ao pote
General Silva afobou-se,
corre à frente de Mamede.
E se ele encontrar no doce
pimentinha posta adrede?*
07/01/1966
* Milagre: não havia pimenta.
Aleijadinho, simples mito?
Nunca existiu? Tanto melhor.
Shakespeare, também, e é infinito.
Homero é o tal. Fica maior.
Em preto e branco
“O padre e a moça” no cinema.
Emoção funda quem não há de
sentir ante este filme-poema?
Salve, Joaquim Pedro de Andrade!
O subversivo
Grande bossa, em Minas Gerais:
raspa-se a barba a Tiradentes.
(Com suas faces naturais,
não mete medo aos dirigentes.)
Com sede ao pote
General Silva afobou-se,
corre à frente de Mamede.
E se ele encontrar no doce
pimentinha posta adrede?*
07/01/1966
* Milagre: não havia pimenta.
1 144
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
771
Carlos Drummond de Andrade
Poeta Emílio
Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Poeta Emílio
Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.
E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.
Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?
Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.
O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…
Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.
Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.
Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 197
Carlos Drummond de Andrade
Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem
Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
646
Carlos Drummond de Andrade
Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem
Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
646
Carlos Drummond de Andrade
A Festa
I — CARNAVAL 1969
A festa acaba impreterivelmente às 4 da matina,
mas se houver vaia
continuará até as 5.
Wilza Carla de ovos de ouro distribui pintos de prata
à distinta comissão julgadora
indecisa entre Tason, o ídolo de Marfim
e Eleonora de Aquitânia à la tour abolie.
Helena entra a cavalo.
Pode não, pode não, cavalo não é paetê.
Prego! pregou na hora e vez de desfilar.
Minuto de silêncio corta o samba
em duas fatias doloridas de nunca mais.
Naval navega onde que não vejo?
70 PMs, 40 detetives especializados
engrossam o Golden Room do Copa.
Ford e Veruschka, o Poder e a Glória,
dividem entre si o terceiro mundo,
mas resta sempre um quarto, um quinto, um
solivagante Eu Sozinho a carregar
todo o peso da graça antiga na Avenida.
Boneco gigante prende o passarinho na gaiola,
embaixo o letreiro: SOL E ALEGRIA.
Salgueiro ao sol
abafa no atabaque e na harmonia.
A gata de vison arranha a bela
acordada nos bosques de Portela.
Dante já não escreve: assiste
à divina comédia de Bornay.
Machado de Assis segue no encalço
de Capitu metida num enredo
mano a mano com Gabriela amor-amado.
Turistas fantasiados de
turista
em vão tentam galgar o olimpo das bancadas.
Pau comeu.
400 músicas gravadas,
6 ou 7 cantadas,
52 mortos em desastre,
17 homicídios,
suicídios 5,
2 fetos,
355 menores apreendidos,
400 garis a postos
para varrer o lixo da alegria.
É cedo, espera um pouco; Chave de Ouro,
festa depois da festa, enfrenta o gás
e o cassetete.
Júri soberano,
os grandes derrotados te saúdam.
Júri safado,
premiou fantasia do baile de 1920.
Pobre júri de escolas,
20 horas, 20 anos indormidos.
A noite cobre a noite do desfile
interminável qual fio de navalha
e deixa cair a peteca.
Que é que eu vou, que é que eu vou dizer em casa?
Levanta a cabeça,
já não precisas dizer nada.
A moça no pula-pula do salão
perdeu o umbigo.
Quem encontrar favor telefonar,
será gratificado.
Bem disse Nana Caymmi: Carnaval
me dá falta de ar.
E resta um bafo da onça na calçada
junto a um confete roxo e um pareô
sem corpo, nu e só, ô ô ô ô.
23/02/1969
II — CARNAVAL 1970
Quatrocentas mil pessoas fogem do Rio
duzentas mil pessoas correm para o Rio
inclusive travestis, que um vale por dois.
A festa assusta e atrai, a festa é festa
ou um raio caindo na cidade?
Que peste passou no ar e foi matando
formas simples de vida costumeira?
A cidade morreu nos escritórios,
nas indústrias, nas lojas. Bairros inteiros
petrificados em mutismo. Janelas
trancadas em protesto ou submissão.
A cidade explode nos clubes
cantansambando
sambatucando
vociferapulando.
Estoura no asfalto em flores furta-cores girandólias
entre florestas metálicas batendo palmas e vaiando
entre postes fantasiados e vinte mil policiais.
Explode meu Rio e sobe,
até a Lua vai a nave da rua
e sambaluando exala em quatro noitidias
queixumes recalcados o ano inteiro.
A decoração desta cidade
eram mares, montanhas e palmeiras
convivendo com gente.
Acharam pouco. Há muitos anos
acrescentam-se bonecos de plástico, sarrafos
em fila processional sobre as cabeças,
brincando no lugar dos que não brincam
ou mandando brincar, ordem turística.
E meu Rio bordado de palhaço
brincou na pauta, brincou fora da pauta.
Brincar é seu destino, ainda quando
há desrazões de ser feliz,
ou por isso mesmo, quem entende?
(Quem quiser que sofra em meu lugar.)
E repetiu os gestos, renovando-os
um após outro, como se este fosse
o carnaval primeiro sobre a Terra
ou o último carnaval, adeus adeus.
E foram todos
ao primo baile
do Municipal
e os ouropéis
das fantasias
monumentais
ninguém sonhara
tão divinais
e as escolas
de samba autêntico
(menos ou mais)
nunca estiveram,
caros ouvintes,
tão geniais.
Meu Deus, acode,
este samba é demais.
Na tribuna computadores críticos
analistas, objetivos: “Não foi bem assim.
A bateria deixou a desejar.
Aquele prêmio? Plágio de plágio
de 58 (veja nos arquivos).
Faltou isso & aquilo, faltou garra,
faltou carnaval ao carnaval”.
Ah, deixa falar, deixa pra lá.
Deixa o cavo coveiro resmungar
que há longo tempo o grande Pan morreu.
No bafo da festa da onça
na vibração da pluma do cacique
no rebolado de Dodô Crioulo
no treme-treme de bloco frevo rancho
na bandeira branca da paz e mais amor,
todo carnaval
é o bom é o bom é o bom.
E ficou barato o pagode, meu compadre?
Oh, quase nada: todos os enfeites
não chegam a um milhão e meio de cruzeiros
novos: contas radiantes de colar
no colo da cidade à beira-mar.
E quem fez os coretos do subúrbio?
Foi o subúrbio mesmo, na pobreza
sem paetê, que finge de brincar
na distância, no ermo e profundeza
de buracos de estrada por tapar.
Mas deixa pra lá, deixa falar
a voz da Penha, de Madureira e Jacarepaguá.
O carnaval é sempre o mesmo e sempre novo
com turista ou sem turista
com dinheiro ou sem dinheirocom máscara proibida e sonho censurado
máquina de alegria montada desmontada,
sempre o mesmo, sempre novo
no infantasiado coração do povo.
12/02/1970
A festa acaba impreterivelmente às 4 da matina,
mas se houver vaia
continuará até as 5.
Wilza Carla de ovos de ouro distribui pintos de prata
à distinta comissão julgadora
indecisa entre Tason, o ídolo de Marfim
e Eleonora de Aquitânia à la tour abolie.
Helena entra a cavalo.
Pode não, pode não, cavalo não é paetê.
Prego! pregou na hora e vez de desfilar.
Minuto de silêncio corta o samba
em duas fatias doloridas de nunca mais.
Naval navega onde que não vejo?
70 PMs, 40 detetives especializados
engrossam o Golden Room do Copa.
Ford e Veruschka, o Poder e a Glória,
dividem entre si o terceiro mundo,
mas resta sempre um quarto, um quinto, um
solivagante Eu Sozinho a carregar
todo o peso da graça antiga na Avenida.
Boneco gigante prende o passarinho na gaiola,
embaixo o letreiro: SOL E ALEGRIA.
Salgueiro ao sol
abafa no atabaque e na harmonia.
A gata de vison arranha a bela
acordada nos bosques de Portela.
Dante já não escreve: assiste
à divina comédia de Bornay.
Machado de Assis segue no encalço
de Capitu metida num enredo
mano a mano com Gabriela amor-amado.
Turistas fantasiados de
turista
em vão tentam galgar o olimpo das bancadas.
Pau comeu.
400 músicas gravadas,
6 ou 7 cantadas,
52 mortos em desastre,
17 homicídios,
suicídios 5,
2 fetos,
355 menores apreendidos,
400 garis a postos
para varrer o lixo da alegria.
É cedo, espera um pouco; Chave de Ouro,
festa depois da festa, enfrenta o gás
e o cassetete.
Júri soberano,
os grandes derrotados te saúdam.
Júri safado,
premiou fantasia do baile de 1920.
Pobre júri de escolas,
20 horas, 20 anos indormidos.
A noite cobre a noite do desfile
interminável qual fio de navalha
e deixa cair a peteca.
Que é que eu vou, que é que eu vou dizer em casa?
Levanta a cabeça,
já não precisas dizer nada.
A moça no pula-pula do salão
perdeu o umbigo.
Quem encontrar favor telefonar,
será gratificado.
Bem disse Nana Caymmi: Carnaval
me dá falta de ar.
E resta um bafo da onça na calçada
junto a um confete roxo e um pareô
sem corpo, nu e só, ô ô ô ô.
23/02/1969
II — CARNAVAL 1970
Quatrocentas mil pessoas fogem do Rio
duzentas mil pessoas correm para o Rio
inclusive travestis, que um vale por dois.
A festa assusta e atrai, a festa é festa
ou um raio caindo na cidade?
Que peste passou no ar e foi matando
formas simples de vida costumeira?
A cidade morreu nos escritórios,
nas indústrias, nas lojas. Bairros inteiros
petrificados em mutismo. Janelas
trancadas em protesto ou submissão.
A cidade explode nos clubes
cantansambando
sambatucando
vociferapulando.
Estoura no asfalto em flores furta-cores girandólias
entre florestas metálicas batendo palmas e vaiando
entre postes fantasiados e vinte mil policiais.
Explode meu Rio e sobe,
até a Lua vai a nave da rua
e sambaluando exala em quatro noitidias
queixumes recalcados o ano inteiro.
A decoração desta cidade
eram mares, montanhas e palmeiras
convivendo com gente.
Acharam pouco. Há muitos anos
acrescentam-se bonecos de plástico, sarrafos
em fila processional sobre as cabeças,
brincando no lugar dos que não brincam
ou mandando brincar, ordem turística.
E meu Rio bordado de palhaço
brincou na pauta, brincou fora da pauta.
Brincar é seu destino, ainda quando
há desrazões de ser feliz,
ou por isso mesmo, quem entende?
(Quem quiser que sofra em meu lugar.)
E repetiu os gestos, renovando-os
um após outro, como se este fosse
o carnaval primeiro sobre a Terra
ou o último carnaval, adeus adeus.
E foram todos
ao primo baile
do Municipal
e os ouropéis
das fantasias
monumentais
ninguém sonhara
tão divinais
e as escolas
de samba autêntico
(menos ou mais)
nunca estiveram,
caros ouvintes,
tão geniais.
Meu Deus, acode,
este samba é demais.
Na tribuna computadores críticos
analistas, objetivos: “Não foi bem assim.
A bateria deixou a desejar.
Aquele prêmio? Plágio de plágio
de 58 (veja nos arquivos).
Faltou isso & aquilo, faltou garra,
faltou carnaval ao carnaval”.
Ah, deixa falar, deixa pra lá.
Deixa o cavo coveiro resmungar
que há longo tempo o grande Pan morreu.
No bafo da festa da onça
na vibração da pluma do cacique
no rebolado de Dodô Crioulo
no treme-treme de bloco frevo rancho
na bandeira branca da paz e mais amor,
todo carnaval
é o bom é o bom é o bom.
E ficou barato o pagode, meu compadre?
Oh, quase nada: todos os enfeites
não chegam a um milhão e meio de cruzeiros
novos: contas radiantes de colar
no colo da cidade à beira-mar.
E quem fez os coretos do subúrbio?
Foi o subúrbio mesmo, na pobreza
sem paetê, que finge de brincar
na distância, no ermo e profundeza
de buracos de estrada por tapar.
Mas deixa pra lá, deixa falar
a voz da Penha, de Madureira e Jacarepaguá.
O carnaval é sempre o mesmo e sempre novo
com turista ou sem turista
com dinheiro ou sem dinheirocom máscara proibida e sonho censurado
máquina de alegria montada desmontada,
sempre o mesmo, sempre novo
no infantasiado coração do povo.
12/02/1970
2 579
Carlos Drummond de Andrade
Diabos de Itabira
Os demônios de Itabira
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?
Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.
De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?
Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?
Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.
Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.
E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.
Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.
Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.
Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.
Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.
Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?
E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?
Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?
Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.
E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.
Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?
Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.
De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?
Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?
Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.
Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.
E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.
Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.
Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.
Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.
Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.
Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?
E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?
Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?
Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.
E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.
Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
1 503
Carlos Drummond de Andrade
Diabos de Itabira
Os demônios de Itabira
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?
Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.
De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?
Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?
Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.
Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.
E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.
Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.
Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.
Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.
Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.
Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?
E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?
Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?
Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.
E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.
Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?
Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.
De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?
Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?
Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.
Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.
E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.
Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.
Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.
Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.
Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.
Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?
E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?
Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?
Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.
E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.
Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
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Carlos Drummond de Andrade
No Festival
Na janela Carolina
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
não viu o tempo passar.
Eu bem que mostrei a ela:
São os do Norte que vêm,
que vêm para dar exemplo
com Suassuna e Capiba.
Enquanto isso Guarabira,
que é Guttenberg também,
vai demolindo o castelo
(será de Garcia d’Ávila?),
uma pedrinha e mais outra.
Aparece Margarida
em seu terraço roqueiro
(ah, esse Rio comprido!),
exclama: Calma, filhinho,
que tu me botas abaixo.
Mas Gut, que nem Botafogo
em dia de goleada,
vai cantando seu olé
em som fechado de olê.
Marinheiro, olê… Lá vai,
lá vai nessa travessia
onde o nome de Maria
— é Maria a toda hora,
é Maria atrás do som,
da cor, da dor, do pistom —
de tão repetido serve
de “como vai” e “bom-dia”.
Como é bom dizer bom-dia,
diz o netinho do Souto
enquanto papa um biscoito.
Ó Maria Madrugada,
ó Maria Minha Fé,
acorda, que na alvorada
quero bem quente o café.
Sou de Oxalá. Não sabias?
Quem sabe não vai dizer,
não mete a mão em cumbuca,
foi pago pra não falar,
por mais que reclame Tuca.
Filho de branco e de preto,
eu sempre quis só cantar
de serra, de terra e mar.
Eu troco o não pelo sim,
não tranco meu coração.
E quem será que inventou
não só o tempo da flor,
não só o tempo do amor,
mas esse instante de luz
que é esperança de aurora
sob os líricos auspícios
de nosso caro Vinícius?
Eu bem que mostrei sorrindo,
ó meu amor infinito
(infinito enquanto dura),
todas as coisas do mundo,
se queres, te quero dar.
— Fala baixinho… Ninguém
é capaz de compreender
meiguices de Pixinguinha
em tempos de desamor.
E, sem ligar pra ninguém,
andarilho Pingarilho,
venho de terras distantes.
No sertão de minha terra
outro vento está soprando.
E tudo se transformou.
A vida como ela é
se impõe, Geraldo Vandré.
Dá vontade de gritar,
mas o que ouço em redor
é choradeira em novelo,
rala dor de cotovelo.
Por que a lágrima vã
que turvou o teu olhar
em canto não se converte
noutra estrela da manhã?
Bem faz o Chico: se a estrela
caiu e murchou a rosa,
ei-lo que mostra à janela
de floresta, céu e mar:
— Oh que lindo… Carolina,
meu doce, minha menina,
não deixa o barco partir,
não deixa a banda passar!
25/10/1967
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Adélia Prado
Módulo de Verão
As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarraxadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pelo e arame, um áspero metal.
As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.
Nem um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarraxadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pelo e arame, um áspero metal.
As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.
As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer,
ó meu amor, vem dormir.
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.
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