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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Viagem Na Família

A Rodrigo M. F. de Andrade

No deserto de Itabira
a sombra de meu pai
tomou-me pela mão.
Tanto tempo perdido.
Porém nada dizia.
Não era dia nem noite.
Suspiro? Voo de pássaro?
Porém nada dizia.

Longamente caminhamos.
Aqui havia uma casa.
A montanha era maior.
Tantos mortos amontoados,
o tempo roendo os mortos.
E nas casas em ruína
desprezo frio, umidade.
Porém nada dizia.

A rua que atravessava
a cavalo, de galope.
Seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.

No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros;
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso.
Porém nada dizia.

Pisando livros e cartas,
viajamos na família.
Casamentos; hipotecas;
os primos tuberculosos;
a tia louca; minha avó
traída com as escravas,
rangendo sedas na alcova.
Porém nada dizia.

Que cruel, obscuro instinto
movia sua mão pálida
sutilmente nos empurrando
pelo tempo e pelos lugares
defendidos?

Olhei-o nos olhos brancos.
Gritei-lhe: Fala! Minha voz
vibrou no ar um momento,
bateu nas pedras. A sombra
prosseguia devagar
 
aquela viagem patética
através do reino perdido.
Porém nada dizia.

Vi mágoa, incompreensão
e mais de uma velha revolta
a dividir-nos no escuro.
A mão que eu não quis beijar,
o prato que me negaram,
recusa em pedir perdão.
Orgulho. Terror noturno.
Porém nada dizia.

Fala fala fala fala.
Puxava pelo casaco
que se desfazia em barro.
Pelas mãos, pelas botinas
prendia a sombra severa
e a sombra se desprendia
sem fuga nem reação.
Porém ficava calada.

E eram distintos silêncios
que se entranhavam no seu.
Era meu avô já surdo
querendo escutar as aves
pintadas no céu da igreja;
a minha falta de amigos;
a sua falta de beijos;

eram nossas difíceis vidas
e uma grande separação
na pequena área do quarto.

A pequena área da vida
me aperta contra o seu vulto,
e nesse abraço diáfano
é como se eu me queimasse
todo, de pungente amor.
Só hoje nos conhecermos!
Óculos, memórias, retratos
fluem no rio do sangue.
As águas já não permitem
distinguir seu rosto longe,
para lá de setenta anos...

Senti que me perdoava
porém nada dizia.

As águas cobrem o bigode,
a família, Itabira, tudo.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Rostos Imóveis

A Otto Maria Carpeaux

Pai morto, namorada morta.
Tia morta, irmão nascido morto.
Primos mortos, amigo morto.
Avô morto, mãe morta
(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).
Conhecidos mortos, professora morta.

Inimigo morto.

Noiva morta, amigas mortas.
Chefe de trem morto, passageiro morto.
Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho?
Cão morto, passarinho morto.
Roseira morta, laranjeiras mortas.
Ar morto, enseada morta.
Esperança, paciência, olhos, sono, mover de mão: mortos.

Homem morto. Luzes acesas.
Trabalha à noite, como se fora vivo.

Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo).

Morto sem notícia, morto secreto.
Sabe imitar fome, e como finge amor.

E como insiste em andar, e como anda bem.
Podia cortar casas, entra pela porta.

Sua mão pálida diz adeus à Rússia.
O tempo nele entra e sai sem conta.

Os mortos passam rápidos, já não há pegá-los.
Mal um se despede, outro te cutuca.

Acordei e vi a cidade:
eram mortos mecânicos,
eram casas de mortos,
ondas desfalecidas,
peito exausto cheirando a lírios,
pés amarrados.
Dormi e fui à cidade:
toda se queimava,
estalar de bambus,
boca seca, logo crispada.
Sonhei e volto à cidade.
Mas já não era a cidade.
Estavam todos mortos, o corregedor-geral verificava etiquetas nos cadáveres.
O próprio corregedor morrera há anos, mas sua mão continuava implacável.
O mau cheiro zumbia em tudo.

Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos.
Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo, quero detê-la, serei mordido?
Olho meus pés, como cresceram, moscas entre eles circulam.
Olho tudo e faço a conta, nada sobrou, estou pobre, pobre, pobre,
mas não posso entrar na roda,
não posso ficar sozinho,
a todos beijarei na testa,
flores úmidas esparzirei,
depois... não há depois nem antes.
Frio há por todos os lados,
e um frio central, mais branco ainda.

Mais frio ainda...
Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras e amargos...
Sentir-me tão claro entre vós, beijar-vos e nenhuma poeira em boca ou rosto.
Paz de finas árvores,
de montes fragílimos lá embaixo, de ribeiras tímidas, de gestos que já não podem mais irritar,
doce paz sem olhos, no escuro, no ar.
Doce paz em mim,
em minha família que veio de brumas sem corte de sol
e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas,
na minha rua, no meu tempo — afinal — conciliado,
na minha cidade natal, no meu quarto alugado,
na minha vida, na vida de todos, na suave e profunda morte de mim e de todos.
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