Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Carlos Drummond de Andrade
A Ilha
Nos quatro bancos de cimento
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.
Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.
Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.
Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.
Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.
Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.
Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.
Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.
Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.
Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.
Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.
1 601
Carlos Drummond de Andrade
Mortos Que Andam
Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
1 516
Carlos Drummond de Andrade
O Príncipe Dos Poetas
Fazer.
É preciso fazer alguma coisa
que pelo menos risque um círculo
efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas,
João Alphonsus emite
seu sorriso enigmático,
Emílio, recém-chegado de galáxia,
aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser
ser eleitor, principalmente nós,
inelegíveis de nascença.
Pingam votos esparsos. Desconfiança.
Isso é brincadeira
de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos
para Belmiro Braga, o velho Augusto
de Lima e Noraldino e Mário Matos.
Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,
menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números,
mas se for escolhido vão dizer
que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal,
qual será, dos poetas, o mais nobre,
aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isso ou por aquilo.
Outro passou de moda. Outro é feroz
contemptor de experiências modernistas.
E um Príncipe hostil não apetece
à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond
em sua Barbacena roseiral
é altivo, discreto, bom poeta,
dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada
elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento,
sem recusar redondamente a láurea,
responde: “Eu, Príncipe? De quê?
Só se for, por distinção latina,
Princeps Promptorum”… E continua
sereno, silencioso,
em seu rosa-lar de Barbacena.
É preciso fazer alguma coisa
que pelo menos risque um círculo
efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas,
João Alphonsus emite
seu sorriso enigmático,
Emílio, recém-chegado de galáxia,
aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser
ser eleitor, principalmente nós,
inelegíveis de nascença.
Pingam votos esparsos. Desconfiança.
Isso é brincadeira
de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos
para Belmiro Braga, o velho Augusto
de Lima e Noraldino e Mário Matos.
Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho,
menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números,
mas se for escolhido vão dizer
que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal,
qual será, dos poetas, o mais nobre,
aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isso ou por aquilo.
Outro passou de moda. Outro é feroz
contemptor de experiências modernistas.
E um Príncipe hostil não apetece
à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond
em sua Barbacena roseiral
é altivo, discreto, bom poeta,
dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada
elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento,
sem recusar redondamente a láurea,
responde: “Eu, Príncipe? De quê?
Só se for, por distinção latina,
Princeps Promptorum”… E continua
sereno, silencioso,
em seu rosa-lar de Barbacena.
1 400
Carlos Drummond de Andrade
Por Quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
1 845
Carlos Drummond de Andrade
O Colegial E a Cidade
Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
620
Carlos Drummond de Andrade
Ode Ao Partido Republicano Mineiro
Ó P.R.M.,
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
onde estás, que não vejo, mas te sinto
circular pelas veias da cidade?
Poder sutil, punhos de aço, terno abrigo
dos que à tua sombra se aninharam
na direção do público negócio!
Sogro gentil, pai amoroso
de bacharéis, de médicos, engenheiros
em começo indeciso de carreira,
tu dás o pão, dás a pancada
conforme o nosso vário proceder:
aos correligionários, pão de ló,
aos adversários, pontapé
em sensível, recôndito lugar.
Ai de quem infringir
teu estatuto sacrossanto, vigente
sobre as serranias e no interior mesmo do magma.
Pobres filhos de Eva, deserdados
do teu peito, os trânsfugas jazem mudos
à porta lacrada dos bancos
ou no corredor deserto da farmácia
da oposição.
Os bem-amados, estes, já se empossam
em parlamentos de bater palmas, palmas, palmas
à Comissão Divina Executiva
e, mais alto ainda, ao inatingível
Senhor Governador das Milícias e das Coletorias.
És a fonte, és a linfa, és a flórea
mansão dos deuses, entre renques de palmeiras
moldurada.
Teu espírito invisível e concreto
paira sobre os crepúsculos magnificentes
da Capital e nos guia, nos adverte, nos fulmina.
Ó P.R.M., estás em cada paralelepípedo,
em cada fícus-benjamim, em cada xícara
de café do Bar do Ponto: ouves, registras,
despedes teu raio sem o mínimo trovão,
e como ele reboa no interior da vítima!
Bem, contra ti me levanto, pigmeu,
gritando em frente à sacada política do Grande Hotel
os morras que é de uso em comícios inflamados
antes que irrompa a cavalaria.
E nem me vês a mim, verme-plantinha,
tão alto te agigantas.
Afinal, sem eu mesmo saber como,
por mão de Alberto serei teu redator
no obscuro jornal que em teu nome se imprime.
(A perfeita ironia: a mão tece ditirambos
ao partido terrível. E ele me sustenta.)
1 257
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Falado No Salão Vivacqua
Garotas de Cachoeiro civilizam
nosso mineiro burgo relaxado.
No salão todo luz chega o perfume
das roseiras da Praça. Burburinho.
Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos
escritores da nova geração.
São jornalistas esta noite. A bela Angélica,
a suave Edelmira, a grácil Mariquinha
assim o determinam. Milton Campos
abre o Jornal Falado. Flui a verve
de seu editorial. Na sua voz,
a política é um jogo divertido
de punhais cetinosos que se cravam
sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,
perremisticamente golpeada,
que já morreu: continua deputado.
De Abgar, primeira página, o soneto,
mais lapidado que diamante,
recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera
tanger assim o lírico instrumento,
decerto conquistara
todas as do planeta moças lindas!
Um êmulo romântico se aproxima:
é Batista decassílabo Santiago:
“Ah, saudade que vive me enganando
e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo
as folhas mortas em que vou pisando…”.
Jornal é só poesia? Nada disso.
João Dornas traça a viva reportagem
urbana. Que parada,
achar acontecimentos onde nada
acontece, depois de Rui Barbosa!
Ele inventa, ele cria? Fatos raros
baixam do lustre, pulam no tapete
e Nava, prodigioso desenhista,
risca os perfis, os gestos, os lugares.
Delorizano, grave,
fala de ciência,
o Romeu de Avelar conta do Norte.
Aquiles é o cronista social:
noivados e potins e flertes surpreendidos
na segunda sessão do Odeon… Caluda!
Alguém pode não gostar. João Guimarães
é o nosso humorista. João Alphonsus
inicia o romance-folhetim:
em minutos tem princípio, meio e fim.
Eis chega a minha vez. A minha vez?
Mas como? se eu esperava não chegasse
e lá pela meia-noite o sono embaciasse
os anúncios da quarta página, final…
Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente
nas oficinas impediu
saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.
nosso mineiro burgo relaxado.
No salão todo luz chega o perfume
das roseiras da Praça. Burburinho.
Aqui, a se sorrirem, vejo os máximos
escritores da nova geração.
São jornalistas esta noite. A bela Angélica,
a suave Edelmira, a grácil Mariquinha
assim o determinam. Milton Campos
abre o Jornal Falado. Flui a verve
de seu editorial. Na sua voz,
a política é um jogo divertido
de punhais cetinosos que se cravam
sem derrame de sangue — e a vítima nem sabe,
perremisticamente golpeada,
que já morreu: continua deputado.
De Abgar, primeira página, o soneto,
mais lapidado que diamante,
recebe aplausos invejosos. Oh, quem soubera
tanger assim o lírico instrumento,
decerto conquistara
todas as do planeta moças lindas!
Um êmulo romântico se aproxima:
é Batista decassílabo Santiago:
“Ah, saudade que vive me enganando
e faz que eu ouça a tua voz, ouvindo
as folhas mortas em que vou pisando…”.
Jornal é só poesia? Nada disso.
João Dornas traça a viva reportagem
urbana. Que parada,
achar acontecimentos onde nada
acontece, depois de Rui Barbosa!
Ele inventa, ele cria? Fatos raros
baixam do lustre, pulam no tapete
e Nava, prodigioso desenhista,
risca os perfis, os gestos, os lugares.
Delorizano, grave,
fala de ciência,
o Romeu de Avelar conta do Norte.
Aquiles é o cronista social:
noivados e potins e flertes surpreendidos
na segunda sessão do Odeon… Caluda!
Alguém pode não gostar. João Guimarães
é o nosso humorista. João Alphonsus
inicia o romance-folhetim:
em minutos tem princípio, meio e fim.
Eis chega a minha vez. A minha vez?
Mas como? se eu esperava não chegasse
e lá pela meia-noite o sono embaciasse
os anúncios da quarta página, final…
Não sei o que dizer. Digo: “Um acidente
nas oficinas impediu
saísse a minha crônica. Perdeu-se. Até amanhã”.
818
Carlos Drummond de Andrade
Somem Canivetes
Fica proibido o canivete
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
em aula, no recreio, em qualquer parte,
pois num país civilizado,
entre estudantes civilizadíssimos,
a nata do Brasil,
o canivete é mesmo indesculpável.
Recolham-se pois os canivetes
sob a guarda do irmão da Portaria.
Fica permitido o canivete
nos passeios à chácara
para cortar algum cipó
descascar laranja
e outros fins de rural necessidade.
Restituam-se pois os canivetes
a seus proprietários
com obrigação de serem recolhidos
na volta do passeio, e tenho dito.
Só que na volta do passeio
verificou-se com surpresa:
no matinho ralo da chácara
todos os canivetes tinham sumido.
1 129
Carlos Drummond de Andrade
Oposição Sistemática
O jornalzinho oposicionista da Praça da Estação,
onde exalo vagidos literários,
xinga o Presidente, xinga seus Secretários,
xinga o Prefeito. Sem mais ninguém
para xingar,
xinga Leopoldo Fróes, que, no seu entender,
apresentando peças de gênero livre no Municipal,
todas as noites ofende a família mineira
em casas lotadas e entusiásticas.
onde exalo vagidos literários,
xinga o Presidente, xinga seus Secretários,
xinga o Prefeito. Sem mais ninguém
para xingar,
xinga Leopoldo Fróes, que, no seu entender,
apresentando peças de gênero livre no Municipal,
todas as noites ofende a família mineira
em casas lotadas e entusiásticas.
638
Carlos Drummond de Andrade
Doidinhos
Também não alcancei os Jardineiros do Ideal,
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
987
Carlos Drummond de Andrade
Enigma
Para merecer alto louvor,
chegar talvez aos pés de Lídio, o sábio,
que todas as medalhas arrebata
e mais arrebatara se as houvera,
terei de decifrar no jornalzinho
enigmas como este:
Quel est le célèbre empereur romain
qui n’avait pas le nez pointu?
Como saber, Jesus, se eles são mil
e nunca reparei em seus narizes?
Se o compêndio não dá senão uns raros
rostos glabros, de nariz romano?
Qual será: Calígula, Tibério?
Vitélio, Petrônio Máximo, Elagábalo?
Desisto de encontrar
a linha de um nariz,
a marca de um perfil,
a sorte de um aplauso.
— Néron (nez rond) sorri, piscando o olho,
o Padre Rubillon,
ao avaliar a rasa superfície
de minha rasa ignorância.
chegar talvez aos pés de Lídio, o sábio,
que todas as medalhas arrebata
e mais arrebatara se as houvera,
terei de decifrar no jornalzinho
enigmas como este:
Quel est le célèbre empereur romain
qui n’avait pas le nez pointu?
Como saber, Jesus, se eles são mil
e nunca reparei em seus narizes?
Se o compêndio não dá senão uns raros
rostos glabros, de nariz romano?
Qual será: Calígula, Tibério?
Vitélio, Petrônio Máximo, Elagábalo?
Desisto de encontrar
a linha de um nariz,
a marca de um perfil,
a sorte de um aplauso.
— Néron (nez rond) sorri, piscando o olho,
o Padre Rubillon,
ao avaliar a rasa superfície
de minha rasa ignorância.
1 172
Carlos Drummond de Andrade
Sacrifício
— Otávio, Otávio, que negócio é este?
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
Vadias ano inteiro e te despedes
com o peito faiscando de medalhas.
— É, troquei-as por bombas e brioches
semana após semana, mês a mês,
e muito me custou esta grandeza.
Passei fome… e alimento-me de glória.
1 230
Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Suíça
A baleira da Rua da Bahia
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
1 430
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 255
Carlos Drummond de Andrade
Caxerenguengue
Não é à toa que Sabino, dos Maiores,
à falta de instrumentos confessáveis,
monta a indústria do caxerenguengue.
E afia fino o fio enferrujado,
alisa a lâmina sem cabo
que encontrou não sei onde, obstinado
à procura de ferro-aço cortante.
Trabalhando em surdina, já prepara
três caxerenguengues razoáveis.
Vou aperfeiçoar — diz ele — o meu produto,
é claro, não já por um mil-réis.
Cada cliente dele, sub-reptício,
porta em sigilo a arma bem brunida,
que um dia servirá para ajudar
Nat Pinkerton na luta contra Raffles
o gatuno elegante,
ou, quem sabe? Raffles contra Nat,
além de préstimos menores e pacíficos.
Exemplo: o doce préstimo
de ter algo escondido em nossa vida.
à falta de instrumentos confessáveis,
monta a indústria do caxerenguengue.
E afia fino o fio enferrujado,
alisa a lâmina sem cabo
que encontrou não sei onde, obstinado
à procura de ferro-aço cortante.
Trabalhando em surdina, já prepara
três caxerenguengues razoáveis.
Vou aperfeiçoar — diz ele — o meu produto,
é claro, não já por um mil-réis.
Cada cliente dele, sub-reptício,
porta em sigilo a arma bem brunida,
que um dia servirá para ajudar
Nat Pinkerton na luta contra Raffles
o gatuno elegante,
ou, quem sabe? Raffles contra Nat,
além de préstimos menores e pacíficos.
Exemplo: o doce préstimo
de ter algo escondido em nossa vida.
677
Carlos Drummond de Andrade
Resultado
No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
1 073
Carlos Drummond de Andrade
Resultado
No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
1 073
Carlos Drummond de Andrade
Resultado
No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
1 073
Carlos Drummond de Andrade
A Visita do Rei
I
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena,
onde só passam dia e noite, mês a mês e ano,
burocratas, estudantes, pés-rapados.
Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,
primeiro rei (e verei outros?) na minha vida.
Não tem coroa de rei, barbas formidáveis
de rei, armadura de rei, resplandecente
ao sol da Serra do Curral.
Não desembainha a espada para enfrentar
como fazia há pouco os hunos invasores
de sua pátria.
É um senhor alto, formal, de meia-idade,
metido em uniforme belga,
ao lado de outro senhor de pince-nez
que conheço de retrato: o Presidente do Estado.
Não vem na carruagem de ouro e rubis das estampas.
Não é um Carlos Magno.
Vem no carro a Daumont de dois cocheiros
e quatro cavalinhos mineiros bem tratados.
No carro seguinte, como convém eternamente
às mulheres, vejo a Rainha,
não aparição sublime das iluminuras
(ai, que falta nos faz a Idade Média),
mas a distinta burguesa ao lado
do Presidente compenetrado da República.
Então é isso: tudo igual,
sangue azul e plebeu?
Pompas republicanas: moderadas.
Tenho de recriar — reminiscências literárias —
vera imagem de Rei, no rei em carne e vida.
II
A coroa lá está, na Praça do Poder
(não sei por que, se chama Liberdade).
Coroa imensa, de dez mil
lampadazinhas elétricas multicores.
À noite, é tudo festa na cidade.
Cinema grátis para o povo
na efervescente Praça Doze.
Fogos de artifício e de feitiço
para susto de cisnes e marrecos
no Parque Municipal.
Bandas de música explodem
em cada coreto, mesmo sem coreto.
Clarinar de paradas militares,
multiplicadas pelo ouvido e olhar.
De Norte a Sul, de Leste a Oeste,
mesmo do separatista Triângulo irredutível
que não corteja Belo Horizonte,
acodem povos a conferir o Rei.
Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro.
Madame Olímpia, a respeitável,
faz a mais gorda féria do seu Éden.
Ao Rei não chega esta alegria. Ele visita
monocordicamente, bravamente,
quartéis, escolas, tribunais e o mais.
Há um discurso em cada fraque,
um vivelerroá em cada boca
e o desaponto de encontrar
no rei lendário o homem comum.
(Eu não disse que os reis não são mais reis?)
III
— Majestade, aceite esta garrafa de licor
estomacal, do meu fabrico.
O Rei aceita: vai provar (mas em Bruxelas)
o presente do farmacêutico Artur Viana.
Antes, na mesa oficial, degusta
macucos truffés à la Royale
e dorme cedo. Amanhã cedinho
irá a Morro Velho conhecer
o sombrio trabalho subterrâneo
que produz ouro para o mundo
e morte precoce para mineiros.
Voltando à superfície, Mister Chalmers
oferta-lhe desta vez
macucos truffés au jus d’orange.
É comida diária no Brasil?
Resta algum macuco pra contar?
O Rei repousa a vista
no quadro que lhe deu Honorário Esteves.
Escuta, sonolento,
a orquestra vinda do Rio expressamente
para abemolar sua visita.
Silêncio: Sua Majestade vai dormir
em cama de Napoleão 1o, cópia exata
feita por Leandro Martins & Companhia.
IV
O Governo impa de orgulho:
as refeições de Suas Majestades
quem serve é a Pascoal do Rio de Janeiro.
Os landolés de seus passeios
vêm da Garage Batista do Rio de Janeiro.
A Casa Lucas, do Rio de Janeiro,
multi-ilumina as ruas e fachadas.
A charuteira com enfeites de ouro de 24 quilates,
regalada ao Rei,
é obra de arte de Oscar Machado,
joalheiro do Rio de Janeiro
(mas a madeira de lei é pura Minas).
Pura Minas, o solitário da Rainha
trabalhado no Rio de Janeiro
pelo mesmo Machado, mas brotando
do chão mineiro de Coromandel.
Não foi possível, é pena, vir do Rio
o Pão de Açúcar nem o Corcovado
nem a baía… mas demos ao Rei
o mais perturbador, o mais fantástico
entardecer da cidade-coleção
de crepúsculos indescritíveis.
V
E assim todos vivemos nossa vida,
nossa vidinha, como é nosso dizer,
entrelaçada no viver do Rei.
A metros de distância um Rei respira,
almoça, fuma, escova os dentes,
coça a cabeça como nós coçamos.
Falta somente o Rei aparecer
no Bar do Ponto e junto ao Professor
Zé Eduardo, de ferino verbo,
comentar os erros de francês
dos oradores a quem a lição
de Mestre Jacob pouco aproveitou.
Não é de muita fala o Rei, parece,
mas quem resiste ao calmo prosear
daquele centro da malícia urbana?
Tome um café, Seu Rei. Sente-se e vamos
ponderar os túrbidos sucessos
de Manhuaçu: três ou quatro mortes
por questões de terras ou de política.
Isso também ocorre lá nas Flandres?
Como é, o câmbio? É, está baixando,
quase não exportamos, e trazemos
tudo da Europa, desde o sabonete
e o vinho até as polonesas…
Seu Rei e nosso amigo, vamos
mudar de assunto?
VI
Afinal segue o Rei, segue a Rainha,
seguem condes, barões e diplomatas
rumo a São Paulo.
Que alívio, suspender tanta folia,
tanto protocolo misturado
ao nosso visceral esteja-a-gosto.
Descansa o Rei de nós,
e dele descansamos.
Mas uma coisa fica em mim,
espectador quase repórter.
Uma coisa entre rosas, no jardim
versaillescamente plantado em seu honor.
É um som infantil, puro, no ar,
e não se desvanece:
coro de seis mil vozes entoando
o hino ensaiado com capricho
o mês inteiro nas escolas:
Aprédessiécles desclavage
lebelgesortáditombô…
lerroá laloá lalibertê.
Ao ouvi-lo o Rei empalidece,
a Rainha derrama duas lágrimas.
Crianças de 1920: a Brabançonne
casa-se com Ipirangasmargensplácidas,
e na Pensão de Dona Teresinha,
à noite, solitário no meu quarto,
não lembro o Rei, lembro o coral.
1 014
Carlos Drummond de Andrade
Dormitório
Noite azul-baça no dormitório onde três lâmpadas
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
1 196
Carlos Drummond de Andrade
Dormitório
Noite azul-baça no dormitório onde três lâmpadas
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
1 196
Carlos Drummond de Andrade
Dormitório
Noite azul-baça no dormitório onde três lâmpadas
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
de tom velado controlam minha ensimesmada quietude.
Que faço aqui, longe de Minas e meus guardados,
neste castelo de aulas contínuas e rezas longas?
Prisão de luxo, todo conforto, luz inspetora
de sonhos ilícitos. Joelho esticado: nenhuma saliência
a transgredir a horizontal postura de sono puro.
Fria Friburgo, mas aqui dentro a paz de feltro.
No azul mortiço de oitenta camas, boiam saudades
de longes Estados, distintas casas, tantas pessoas.
Incochilável, o irmão vigilante também passeia
sob cortinas sua memória particular?
Uns já roncando. O azul nublado envolve em rendas
de morte vaga os degredados filhos-família.
Fugir, nem penso. Mas fujo insone, meu pensamento
alcança o longe, apalpo-me egresso do grande cárcere.
Vou correndo, vou voando,
chego em casa de surpresa,
assusto meu pai-e-mãe:
— Não quero, não quero mais,
não quero mais voltar lá.
(É tudo que sai da boca,
é tudo que sei dizer.)
— Que papelão!
Se não voltar, te castigo,
te deserdo, te renego.
O dinheiro posto fora,
as esperanças frustradas,
botarei na tua conta
em cifras de maldição.
— O que o senhor fizer
está bem feito, acabou-se,
mas não me tire de junto
da família e do meu quarto.
Me ponha tangendo gado
ou pregando ferradura,
me faça catar café,
aos capados dar lavagem,
mas eu não volto mais lá.
É bom demais para mim,
é tudo superior,
mas lá eu sou infeliz,
lá eu aprendo obrigado,
não por gosto de aprender.
Tem hora de liberdade
e hora de cativeiro,
mas a segunda é total,
a primeira, imaginária.
Tem hora de se explicar,
hora de pedir desculpa,
hora de ganhar medalha,
hora de engolir chacota
(é a hora de ler a nota
do nosso comportamento),
hora de não reclamar,
hora de…
Por Deus, não quero voltar
a esse estranho paraíso
calçado de pão de ló,futebol e humilhação.
— Já disse: está decidido.
Some da minha presença.
— Papai!…
A tosse ao lado me traz de volta ao azul-penumbra.
Quando termina, se é que termina, o meu exílio?
Que tempo é novembro, se ainda há novembro no calendário?
Na noite infinda, por que minha noite ainda é maior?
Fugir não adianta. Não adianta senão: dormir.
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